Algumas pessoas já vêm falando disso há um tempo. Uma delas é psicóloga Amy Cuddy, autora do livro “O Poder de Presença”. Ela explica que somente alguns minutos em diferentes posturas contribuem para diminuir a liberação de cortisol no corpo. São posturas quase caricaturais que expressam confiança e poder. Algo como ficar imitando a postura da Mulher-Maravilha ou do Super-Homem por alguns minutos. Soa besta, mas acima de tudo, revela como há uma forte ligação entre corpo, emoção e consciência. Seu corpo, com poucos minutos numa postura caricatural, te leva a se sentir mais confiante.
O que eu estou sugerindo, vai um pouco além, não é apenas usar o seu corpo para mudar o seu estado de espírito naquele momento, mas para abrir novas possibilidades existenciais.
Alguns meses após começar a praticar ioga, fui percebendo que as minhas sessões de terapia (como paciente/cliente) foram ficando mais profundas. Eu já não fugia dos assuntos com tanta pressa.
A relação pode parecer estranha, mas eu acredito que de alguma forma, o fato de sustentar posturas desconfortáveis na ioga, de respirar nessa dificuldade, fez com que eu me ensinasse a lidar com incômodos. As minhas questões já não eram tão amedrontadoras. Claro.... nada se resolveu num passe de mágica e ainda há coisa a ser trabalhada.
Perdemos muitas oportunidades quando não enxergamos o corpo como espaço de aprendizado.
No livro, “The Body Keeps the Score”, o Dr. Bessel Van der Kolk discute conexões sinápticas. De acordo com o autor, o cérebro – que tem uma plasticidade maior do que se imaginava antigamente – se estrutura por uso, com base em repetição. “When a circuit fires repeatedly, it can become a default setting – the response most likely to occur / Quando um circuito é ativado repetidamente, pode virar um padrão, a resposta mais provável de ocorrer”.
Se nada for feito, os mesmos caminhos neurológicos serão percorridos, você terá as mesmas interpretações e as mesmas respostas às situações que se apresentam.
Vejo tantas pessoas reclamando que vivem incorrendo nos mesmos problemas. Eu mesmo, quando estou no modo automático, me pego pensando dessa maneira. Como se eu não fosse (ao menos) corresponsável pelas situações nas quais me encontro.
O que me chama a atenção é o fato de que muita gente, mesmo aqueles que já deixaram de se ver como vítimas do acaso, continuam fazendo as mesmas coisas. Não experimentam nada de novo.
Eu realmente acredito que, para processos de transformação, trabalhos corporais são tão essenciais quanto as análises racionais que fazemos das nossas questões.
Só que criar novos caminhos demanda tempo, calma e recorrência.
O neurocientista e escritor Dr. Joe Dispenza sugere essa transformação através da formulação de pensamentos diferentes. Se policiar em relação aos pensamentos negativos e começar a formular pensamentos positivos.
O que eu vivi com a ioga e só depois fui aprender numa formação que fiz no Chile foi gerar essa transformação a partir da nossa corporalidade.
Acredito que esse trabalho é potencializado quando há algum acompanhamento terapêutico que crie um espaço para que essas mudanças sejam observadas e destrinchadas.
Trazendo essa conversa para uma camada ainda mais profunda, não se trata de algo binário, um portal que se atravessa, saindo do padrão antigo para o novo modo de ser. Mesmo com recorrência e com o decurso do tempo, algumas escalas desses padrões são difíceis de serem afastadas.
Um questionamento válido é se os padrões precisam ser destruídos, desmantelados por completo ou se, em algum nível, eles servem a um propósito.
Seria utópico pensar que por ter começado a praticar ioga e a meditar diariamente, eu me tornei uma daquelas pessoas que vive distribuindo sorrisos com as mãos em prece e que não consegue parar de sentir gratidão. Longe disso...
Mesmo após alguns anos de prática, me dei conta que fazia várias posturas de forma performática, que ainda me pautava pelo olhar do outro, que, em certo nível, ainda era rígido comigo mesmo.
Ainda assim, aquela rigidez de antes foi suavizada e, com isso, muitas possibilidades foram abertas.
E aí? Vai tentar alguma atividade inusitada?