Pedro Cirri

NEWSLETTER #I - 12/04/2022 
Suavizando Padrões
 
 
PARTE I
 
A ideia dessa Newsletter é apresentar uma forma de se adquirir plasticidade e, como possível consequência, Suavizar Padrões comportamentais.
 
Por plasticidade, me refiro à familiaridade com “modos de ser” diferentes daquele que é mais natural para você, diferentes do seu modo default de agir.
 
Para mim, essa proposta sobre plasticidade não é apenas um conceito, algo abstrato que faz sentido lógico. Foi algo que eu vivi na pele e que abriu espaço para mudanças relevantes.
 
Digo “abrir espaço” e “possível consequência” pois acredito que processos de transformação não são totalmente controláveis, não é sair do ponto A querendo chegar no ponto B e concluir o trajeto conforme planejado. É sair do ponto A, com uma certa ideia de onde se quer chegar, e se lançar num percurso desconhecido e cheio de surpresa.
 
Não à toa, quando se fala em transformação, a palavra “coragem” costuma vir à tona. Se pensarmos na etimologia de coragem – agir com o coração – essa associação faz ainda mais sentido. Acredito que para se lançar num percurso incerto, é preciso agir com o coração. Com o coração e com o cu não mão. Pardon my french rs, mas não existe coragem sem medo.
 
A proposta dessa Newsletter é alcançar plasticidade a partir do corpo, usando essa dimensão da nossa existência – a corporalidade – para começar a habitar formas distintas de ser.
 
 
PARTE II
 
Já usei o termo “modo de ser” algumas vezes acima. De uma maneira simples e didática, entendo que “modo de ser” envolve três esferas: corporal, emocional e racional.
 
Para prosseguir no assunto, há uma premissa que precisa ser expressa. Cada um tem um modo de ser específico, cada um é um observador específico da realidade, com certos padrões já engessados (mesmo alguém já trabalhado em terapia).
 
O modo com o qual você interpreta o mundo e a si mesmo (sua noção de identidade) está diretamente ligada a maneira como você se expressa corporalmente e às emoções que são mais frequentes e acessíveis para você.
 
Pense num sistema que está constantemente se retroalimentando. O modo com o qual você se expressa fisicamente confirma seu modo de pensar e vice e versa.
 
Se você faz algum tipo de trabalho terapêutico ou simplesmente gosta de se analisar e já percebeu algumas tendências comportamentais, vale começar a brincar com isso que estamos chamando de plasticidade. Começar a se familiarizar com vivências que não são tão habituais para você.
 
Existem várias formas de se fazer isso. Atividades físicas são bem eficientes nesse aspecto, especialmente se você passa a fazer algo inusitado e distante do seu modo automático.
 
Qual é o seu padrão? Você é controlador, tem dificuldade de improvisar, precisa de planejamento para tudo? Experimente algo com poucas regras, algo livre como uma aula de dança (algo que não seja balé clássico, claro). Você é rígido, daquelas pessoas que se sente responsável por tudo, que carrega o peso do mundo nas costas? Experimente algo que te proporcione flexibilidade e relaxamento, algo como, por exemplo, ioga ou meditação.
 
Esse foi o caminho que eu escolhi. Ioga e meditação. Após décadas fazendo esportes que reforçavam o meu modo de ser, rígido, competitivo e excessivamente afirmativo, optei por algo não competitivo, que me proporcionasse mais abertura e flexibilidade.
 
Logicamente, a prática esporádica é interessante para te dar alguns vislumbres e sensações diferentes, mas para ganhar plasticidade no nosso modo de ser precisamos de recorrência.
 
 
PARTE III
 
Algumas pessoas já vêm falando disso há um tempo. Uma delas é psicóloga Amy Cuddy, autora do livro “O Poder de Presença”. Ela explica que somente alguns minutos em diferentes posturas contribuem para diminuir a liberação de cortisol no corpo. São posturas quase caricaturais que expressam confiança e poder. Algo como ficar imitando a postura da Mulher-Maravilha ou do Super-Homem por alguns minutos. Soa besta, mas acima de tudo, revela como há uma forte ligação entre corpo, emoção e consciência. Seu corpo, com poucos minutos numa postura caricatural, te leva a se sentir mais confiante.
 
O que eu estou sugerindo, vai um pouco além, não é apenas usar o seu corpo para mudar o seu estado de espírito naquele momento, mas para abrir novas possibilidades existenciais.
 
Alguns meses após começar a praticar ioga, fui percebendo que as minhas sessões de terapia (como paciente/cliente) foram ficando mais profundas. Eu já não fugia dos assuntos com tanta pressa.
 
A relação pode parecer estranha, mas eu acredito que de alguma forma, o fato de sustentar posturas desconfortáveis na ioga, de respirar nessa dificuldade, fez com que eu me ensinasse a lidar com incômodos. As minhas questões já não eram tão amedrontadoras. Claro.... nada se resolveu num passe de mágica e ainda há coisa a ser trabalhada.
 
Perdemos muitas oportunidades quando não enxergamos o corpo como espaço de aprendizado.
 
No livro, “The Body Keeps the Score”, o Dr. Bessel Van der Kolk discute conexões sinápticas. De acordo com o autor, o cérebro – que tem uma plasticidade maior do que se imaginava antigamente – se estrutura por uso, com base em repetição. “When a circuit fires repeatedly, it can become a default setting – the response most likely to occur / Quando um circuito é ativado repetidamente, pode virar um padrão, a resposta mais provável de ocorrer”.
 
Se nada for feito, os mesmos caminhos neurológicos serão percorridos, você terá as mesmas interpretações e as mesmas respostas às situações que se apresentam.
 
Vejo tantas pessoas reclamando que vivem incorrendo nos mesmos problemas. Eu mesmo, quando estou no modo automático, me pego pensando dessa maneira. Como se eu não fosse (ao menos) corresponsável pelas situações nas quais me encontro.
 
O que me chama a atenção é o fato de que muita gente, mesmo aqueles que já deixaram de se ver como vítimas do acaso, continuam fazendo as mesmas coisas. Não experimentam nada de novo.
 
Eu realmente acredito que, para processos de transformação, trabalhos corporais são tão essenciais quanto as análises racionais que fazemos das nossas questões.
 
Só que criar novos caminhos demanda tempo, calma e recorrência.
 
O neurocientista e escritor Dr. Joe Dispenza sugere essa transformação através da formulação de pensamentos diferentes. Se policiar em relação aos pensamentos negativos e começar a formular pensamentos positivos.
 
O que eu vivi com a ioga e só depois fui aprender numa formação que fiz no Chile foi gerar essa transformação a partir da nossa corporalidade.
 
Acredito que esse trabalho é potencializado quando há algum acompanhamento terapêutico que crie um espaço para que essas mudanças sejam observadas e destrinchadas.
 
Trazendo essa conversa para uma camada ainda mais profunda, não se trata de algo binário, um portal que se atravessa, saindo do padrão antigo para o novo modo de ser. Mesmo com recorrência e com o decurso do tempo, algumas escalas desses padrões são difíceis de serem afastadas.
 
Um questionamento válido é se os padrões precisam ser destruídos, desmantelados por completo ou se, em algum nível, eles servem a um propósito.
 
Seria utópico pensar que por ter começado a praticar ioga e a meditar diariamente, eu me tornei uma daquelas pessoas que vive distribuindo sorrisos com as mãos em prece e que não consegue parar de sentir gratidão. Longe disso...
 
Mesmo após alguns anos de prática, me dei conta que fazia várias posturas de forma performática, que ainda me pautava pelo olhar do outro, que, em certo nível, ainda era rígido comigo mesmo.
 
Ainda assim, aquela rigidez de antes foi suavizada e, com isso, muitas possibilidades foram abertas.
 
E aí? Vai tentar alguma atividade inusitada?
 
 
    Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
Pedro Cirri
pcirri84@hotmail.com