NEWSLETTER #2 - 25/04/2022 Intuição e Tomada de Decisão |
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Questão: Como conciliar intuição e razão nas tomadas de decisão? Cansado de ficar num looping improdutivo quando precisa tomar alguma decisão relevante? Eu não vou resolver seus problemas.... mas.... talvez você consiga ter alguns insights a partir das ideias que eu peguei de diferentes autores. Premissa: Estou considerando como intuição o ato de inconscientemente reconhecer padrões e formar um juízo com base nesse reconhecimento. É algo que não envolve pensamento e usa (inconscientemente) parte do conteúdo que você assimilou em experiências passadas. Portanto, algo que funciona melhor em ambientes com condições que sejam familiares. Ideia: Intuição, segundo pesquisadores e psicólogos, ajuda no processo de tomada de decisão quando conseguimos (i) percebê-la e nomeá-la e (ii) compará-la aos fatos disponíveis. Se não entrarmos em contato com a nossa intuição, ficamos ainda mais sujeitos ao confirmation bias (o ato de analisar informações querendo confirmar uma opinião já formada – e possivelmente não consciente) e perdemos convicção nas nossas decisões. Disclaimer: Você que, como eu, é meio namastê e curte acender um incenso, por acaso está achando essa abordagem fria demais? Entendo. No entanto, acho que é a forma mais objetiva de falarmos sobre esse assunto. Se tentássemos acessar uma camada mais sutil da intuição, correríamos o risco de entrar num papo pouco preciso e de ideias mais vagas... conquanto bonitas. |
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Ficou meio obscuro, me dê exemplos do que você considera intuição. Vamos lá... (sim, estou falando comigo mesmo, mas segue o jogo). Um bombeiro estava dentro de uma casa em chamas com a sua equipe. De repente, ele teve um feeling e ordenou que todos saíssem correndo. Não sabia dizer o porquê, simplesmente sentiu e agiu. Somente depois ele foi entender o que tinha acontecido. Ela havia percebido que o piso estava mais quente do que o resto da casa. Isso, pelo que ele já tinha vivido e aprendido, era sinal de que a estrutura iria ruir. Foi o que aconteceu. Por ter escutado a sua intuição, ele salvou sua equipe e a si. O que é intuição nesse caso? Uma regra de ouro usada inconscientemente (chão muito aquecido = estrutura prestes a colapsar). Não lembro direito dos detalhes desse caso, mas ele ilustra o que eu estou chamando de intuição. Salvo engano, tirei do livro “The Power of the Habbit”. Perceba que o bombeiro fez uma associação sem perceber o processo e sem sequer estar consciente das premissas usadas nessa associação. Isso demonstra que estamos constantemente inferindo a partir de algumas informações captadas pela nossa percepção. Veja as figuras abaixo, quais bolas são concavas (cavadas na superfície), quais bolas são convexas (saltam para fora da superfície)? |
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Em termos de percepção, não temos informações suficientes para formar uma opinião. Afinal, essa imagem é bidimensional. Ainda assim, você intui que as da esquerda são concavas e as da direita são convexas. Ao invés de ficar paralisado por falta de informação, nosso cérebro formula associações. Presumindo um ambiente tridimensional, usamos as sombras das imagens para chegar a uma conclusão. Além disso, inconscientemente presumimos que a luz vem de cima. Ou seja, o nosso cérebro vai além das informações disponíveis e usa uma simples regra de ouro: se a sombra está na parte superior, então a bola é cavada na superfície e se a sombra está na parte inferior da bola, ela forma um relevo sobre a superfície. Fazemos inferências e intuímos de modo inconsciente. Essas explicações e esse exemplo foram tirados do livro “Gut Feelings: The Intelligence of the Unconscious” do professor e pesquisador Gert Gigerenzer. Por ser simples, esse exemplo ajuda a destrinchar o que ocorre na nossa mente quando intuímos algo. A pergunta que ajuda a nos conduzir ao ponto central dessa newsletter é como essa intuição poderia estar errada? Resposta: se, nessa situação, a premissa não se aplicasse ao caso concreto. Se a luz não viesse de cima. Se viesse de baixo, as bolas da esquerda seriam as convexas. Obviamente não estou tentando replicar um experimento da aula de ciências por pura nostalgia, mas tentando pontuar os “pontos cegos” da nossa intuição. Numa situação dessa, é improvável que a luz venha de baixo, ou seja, é improvável que usamos (inconscientemente) uma premissa capenga. Entretanto, na vida real, a complexidade das situações faz com que, muitas vezes, as premissas usadas pelo nosso inconsciente não se apliquem perfeitamente ao caso concreto. As situações tendem a não replicar todas as condições de nossas experiências passadas. Inclusive, esse é um dos principais argumentos no livro “Range: How Generalists Thrive in a Specialized World”. Ainda assim, acredito que o nosso inconsciente possui uma enorme inteligência. Não é pelo fato de que as situações tendem a variar e que algumas premissas usadas talvez não sejam perfeitamente aplicáveis que devemos desacreditar o nosso feeling. Então...intuição é uma inteligência do inconsciente, mas não pode ser usada cegamente. O que fazer? Crie mecanismos para deixar a sua intuição o mais clara possível. Assim, ao ter acesso ao seu feeling, você pode ir checando quão certo ou errado ele está. |
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Tem duas estratégias para tomada de decisão que me parecem interessantes. Uma delas eu extraí do livro do Gert Gigerenzer. O autor relata um episódio em que um amigo tinha se apaixonado por duas pessoas diferentes e queria decidir com qual delas ter um relacionamento. Ele fez o que qualquer pessoa romântica e sensível faria..... uma lista de prós e contras. E não foi uma lista qualquer. Ele atribuiu pesos diferentes a cada item e também probabilidades distintas de cada item se mostrar verdadeiro no futuro (aliás, baita dica para listas de prós e contras). O que eu mais gosto dessa técnica é que, por ser elaborada, ela dá uma sensação de “verdade” à resposta, quando você chega ao resultado, tem a impressão de que ele é inescapável, de que não há como argumentar contra. É exatamente essa sensação de resposta final que permite com que a intuição apareça. É nesse momento de confrontação com algo concreto, em que você terá o que o autor chama de “gut feeling”. Esse exemplo deixa claro como é importante “ritualizar” as tomadas de decisões. Ao mesmo tempo, ao optar por um processo muito frio e lógico, você diminui a chance de ser afetado por algum vício cognitivo, por algum desejo inconsciente. Ou seja, é uma boa maneira de (na medida do possível) separar razão e feeling. Ao fazer isso, você também abre espaço para que esse feeling apareça de forma que possa ser identificável. “When he saw the result, something unexpected happened. An inner voice told him that it wasn’t right. And for the first time, Harry realized that his heart had already decided – against the calculation and in favor of the other girl. / Ao ver o resultado, algo inesperado aconteceu. Uma voz interna disse que aquilo não estava certo. E, pela primeira vez, Harry percebeu que o seu coração já havia decidido – de modo contrário aos cálculos e a favor da outra mulher.” No exemplo acima, o resultado fez com que ele sentisse um desconforto e percebesse que sua intuição apontava para a outra pessoa. Imagino que não exista uma receita para situações como essas – em que razão e feeling apontam em direções contrárias. E, afinal, não é sobre isso, mas sobre a possibilidade de ter os dois claros e diferenciados para então poder escolher de maneira mais consciente. Há um episódio do podcast Take it for Granted do Adam Grant em que ele entrevista Daniel Kahneman, autor de “Pensando Rápido e Devagar”. Kahneman defende uma abordagem similar àquela descrita acima, já Adam Grant sugere que você tente, logo no início do processo, deixar a sua intuição muito clara, assim, pode ir confrontando o seu feeling com os fatos, o que reduziria o risco de ser influenciado por confirmation bias. Isso pode não soar como grande coisa, como algo não muito diferente do que você normalmente faz em suas tomadas de decisões, mas, muito provavelmente, é bem diferente. Pelo que percebo dos meus processos e das pessoas com quem converso, temos a tendência a ficar presos em pensamentos circulares, sem conseguir muito bem distinguir o que é intuição e o que é pensamento. Além disso, o fato de levar a tomada de decisão a sério, criando um processo específico para ela, faz com que você, ao final, fique mais seguro da sua escolha, contribuindo para a relação do seu “eu futuro” com aquele tópico. |
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Pedro Cirri pcirri84@hotmail.com |
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