Através de um processo frio e objetivo, criou-se um ambiente de intimidade entre os participantes. Foi esse o ponto que ela destacou na entrevista (dada meses após ter escrito o ensaio) - as perguntas vão te direcionando a uma atmosfera, a um lugar onde você e a outra pessoa começam a se abrir, a realmente se mostrar ao outro. Ela faz uma analogia com o sapo na panela cuja água vai gradualmente esquentando até um ponto em que seja tarde demais....
E as perguntas de fato começam leves, quase impessoais, e vão se aprofundando.
A primeira, por exemplo, é: se você pudesse convidar qualquer pessoa no mundo para jantar, quem chamaria? A vigésima nova: compartilhe algo constrangedor que aconteceu na sua vida. A trigésima: quando foi a última vez que você chorou na frente de alguém?
Ao terminar o questionário, você terá descoberto coisas sobre a outra pessoa que talvez ninguém saiba.
Inclusive, foi curioso ouvir o relato de casais, juntos há muitos anos, que se submeteram a esse processo. Disseram que as questões abriram espaços que não existiam, possibilitando conversas inéditas.
Essa abertura, em que você e o seu parceiro vão gradualmente adquirindo confiança para se revelar me lembrou o Ted Talk da Brene Brown. Quem não viu, veja. Não só o Ted Talk, mas todas as entrevistas que ela já deu.
Num determinado momento, ela dá um conselho - vale a pena ser vulnerável com aqueles que apresentam a mesma disposição. Ou seja, essa atitude é recompensadora desde que em contextos propícios.
Vulnerabilidade pressupõe coragem, coragem pressupõe medo.
Não é qualquer situação ou relação que fornece o acolhimento necessário.
Se mostrar vulnerável é não esconder do outro as angústias de ser.
Essa frase soou lacradora demais, mas eu realmente acredito no seu conteúdo. Se mostrar vulnerável é permitir ao outro um vislumbre daquilo que nos aflige na condição humana.
Ninguém é por nós. No fundo, por mais que nos relacionemos, temos de ser por nós mesmos. Há algo de indelegável na existência, mesmo que nos esforcemos para viver “como se vive”.
Há uma frase que já ouvi algumas vezes do meu professor de Psicologia Fenomenológica e Hermenêutica – “amor é compartilhamento de solidão”
Compartilhar o fato de que eu, assim como você, lido com as angústias de estar vivo, com os medos da finitude, da solidão e de uma indeterminação existencial (o fato de eu não saber exatamente o que sou)...