Pedro Cirri

NEWSLETTER #3 - 09/05/2022 
Amor, Compartilhamento e Alteridade.
 
 
Parte I
 
Segundo um artigo do psicólogo existencialista Rollo May, a palavra “conhecer” em hebraico e grego antigo também significava ter relação sexual. Ele aponta para uma tradução da bíblia onde se lê “Abraão conheceu sua mulher e ela concebeu”.
 
O que o autor queria era usar essa semelhança etimológica para falar sobre a proximidade entre amor e conhecimento. Ele destaca que conhecer alguém é muito diferente de conhecer sobre essa pessoa. Conhecer, assim como amar, envolve uma união, só que uma união a partir de uma dialética.
 
Está vago, eu sei.... mas, por enquanto, guarde essa noção: conhecer (realmente conhecer) é diferente de conhecer sobre e pressupõe uma aproximação, mas uma aproximação com contraposição.
 
Há um experimento que vai deixar esse papo mais objetivo, talvez até demais.
 
Essa é uma história (verídica) escrita por Mandy Len Catron e lida no podcast Modern Love do New York Times. Segundo esse episódio – How to Fall in Love with Anyone – num belo dia, a autora e um conhecido estavam num bar conversando sobre amor... niquí ela se lembrou de um estudo em que dois estranhos são submetidos a um questionário de trinta e seis perguntas. Em noventa minutos dentro de um laboratório, cada um fez e respondeu as mesmas questões. Ao final, passaram quatro minutos se encarando em silêncio. Como o próprio nome do episódio sugere, essa seria uma técnica para se apaixonar.
 
Ao ouvi-la descrever o experimento, o amigo sugeriu que eles buscassem as perguntas na internet e testassem o método. Foi o que eles fizeram.
 
Você já sabe onde isso vai dar e já deve ter feito um contraponto pertinente - esses dois estavam predispostos a se apaixonar. Claro, bem mais predispostos dos que os desconhecidos do experimento. E tem outra observação – talvez muita gente tenha testado esse questionário e não tenha se apaixonado. Essas histórias de “insucesso” não seriam lidas num podcast chamado Modern Love.
 
Mas o ponto não é esse. Não me interesso tanto pela eficácia, mas sim pelo contexto que ele cria.
 
 
 
Parte II
 
Através de um processo frio e objetivo, criou-se um ambiente de intimidade entre os participantes. Foi esse o ponto que ela destacou na entrevista (dada meses após ter escrito o ensaio) - as perguntas vão te direcionando a uma atmosfera, a um lugar onde você e a outra pessoa começam a se abrir, a realmente se mostrar ao outro. Ela faz uma analogia com o sapo na panela cuja água vai gradualmente esquentando até um ponto em que seja tarde demais....
 
E as perguntas de fato começam leves, quase impessoais, e vão se aprofundando.
 
A primeira, por exemplo, é: se você pudesse convidar qualquer pessoa no mundo para jantar, quem chamaria? A vigésima nova: compartilhe algo constrangedor que aconteceu na sua vida. A trigésima: quando foi a última vez que você chorou na frente de alguém?
 
Ao terminar o questionário, você terá descoberto coisas sobre a outra pessoa que talvez ninguém saiba.
 
Inclusive, foi curioso ouvir o relato de casais, juntos há muitos anos, que se submeteram a esse processo. Disseram que as questões abriram espaços que não existiam, possibilitando conversas inéditas.
 
Essa abertura, em que você e o seu parceiro vão gradualmente adquirindo confiança para se revelar me lembrou o Ted Talk da Brene Brown. Quem não viu, veja. Não só o Ted Talk, mas todas as entrevistas que ela já deu.
 
Num determinado momento, ela dá um conselho - vale a pena ser vulnerável com aqueles que apresentam a mesma disposição. Ou seja, essa atitude é recompensadora desde que em contextos propícios.
 
Vulnerabilidade pressupõe coragem, coragem pressupõe medo.
 
Não é qualquer situação ou relação que fornece o acolhimento necessário.
 
Se mostrar vulnerável é não esconder do outro as angústias de ser.
 
Essa frase soou lacradora demais, mas eu realmente acredito no seu conteúdo. Se mostrar vulnerável é permitir ao outro um vislumbre daquilo que nos aflige na condição humana.
 
Ninguém é por nós. No fundo, por mais que nos relacionemos, temos de ser por nós mesmos. Há algo de indelegável na existência, mesmo que nos esforcemos para viver “como se vive”.
 
Há uma frase que já ouvi algumas vezes do meu professor de Psicologia Fenomenológica e Hermenêutica – “amor é compartilhamento de solidão”
 
Compartilhar o fato de que eu, assim como você, lido com as angústias de estar vivo, com os medos da finitude, da solidão e de uma indeterminação existencial (o fato de eu não saber exatamente o que sou)...
 
 
 
Parte III
 
A combinação desses olhares acabou me lembrando de uma parte de Amor Líquido do Bauman – aquele livro que todo mundo cita sem nunca ter lido.
 
Calma... prometo que todas essas referências vão ser amarradas no final... ou pelo menos é o que eu espero.
 
Em um determinado ponto, ao citar Levinas, o autor faz uma diferenciação entre amor e paixão.
 
Amor é relação com o mistério, com o fato de que o outro sempre guardará algo de si. Já a paixão quer suprimir essa distância e fulminar as diferenças, cada vez mais aproximando a pessoa desejada do seu campo de visão, perigando sufocar o amor e tornar o próprio objeto da paixão, uma vez domesticado, algo previsível e entediante.
 
Esse ímpeto de aproximação e consequente destruição tem relação com a dificuldade de sustentar o mistério do outro. Afinal, a cada momento o seu parceiro ou parceira pode mudar de ideia.
 
Para que haja amor é necessário sustentar a alteridade - o fato de que algo do outro não se revela por completo.
 
E aí está o pulo do gato que amarra todas essas referências – ao estar numa dinâmica em que percebo a outra pessoa sustentando os seus medos para se revelar, passo a me sentir menos aflito e mais confiante para me abrir.
 
De algum modo, encarar as minhas angústias passa a ser uma tarefa menos difícil. Me sinto menos sozinho no ato de estar (existencialmente) sozinho. E isso não vale apenas para questões filosóficas como finitude e indeterminação, mas para medos mais cotidianos. Nesses raros momentos em que você acessa uma verdade de alguém, os seus medos deixam de ser tão amedrontadores.
 
Além disso, ver alguém em sua verdade tende a ser muito envolvente.
 
Acredito que esse seja o grande trunfo das trinta e seis questões. Elas criam, mesmo que de modo inicialmente frio e objetivo, o contexto para que as verdades se revelem. Você de fato enxerga o outro. Conhece, não apenas conhece sobre.
 
Também acredito que num cenário de co-abertura como esse, as chances de a dinâmica se direcionar para um desejo/paixão destrutivo são menores. Afinal, o que move essa vontade de aproximar o outro a tal ponto de ter tudo (pre)visível é o receio de abandono, o medo de ficar sozinho. Nesse contexto, em que a pessoa está se revelando e abrindo as suas angústias, esse nosso medo é apaziguado – direcionando a dinâmica para um amor onde se sustenta a alteridade. Fica mais fácil dar mais espaço para que o outro seja um outro.
 
Amor que vem do conhecimento e da sustentação do mistério. Um conhecimento sem a pretensão de suprimir as diferenças e que entende que o risco é inerente à existência.
 
Ou seja, aproximação com contraposição.
 
 
    Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
Pedro Cirri
pcirri84@hotmail.com