Colocar esse fenômeno numa perspectiva epocal ajuda a entender esse vácuo que agora tentamos preencher com “propósito”.
Por que esse tema surgiu agora e não antes?
Em “Sociedade do Cansaço”, Chul Han fez uma comparação entre diferentes períodos, realçando o papel da liberdade na forma como lidamos com as nossas escolhas.
Antigamente, as sociedades eram mais opressivas, repletas de imperativos, de vigilância e punições. Os cidadãos por muito tempo se acostumaram a ouvir e obedecer.
Essa dinâmica existia não apenas na relação governo-governado, mas nas células sociais. As famílias e os empregos também eram rígidos e hierarquizados, de modo que nossos afazeres eram determinados por autoridades externas a nós.
Fazíamos por obrigação.
Essa ausência de escolha suspendia questionamentos e proporcionava uma motivação que impulsionava os nossos atos. Se não obedecêssemos, sofreríamos as consequências de uma estrutura opressora.
Atualmente, mesmo levando em consideração os recentes movimentos políticos, vivemos em sociedades onde há maior liberdade, tanto em núcleos familiares, quanto na nossa relação com o Estado.
Os trabalhos passaram a ser menos rígidos e as alternativas mais acessíveis. (Estou me referindo a um estrato da população que não vive numa escravidão moderna desprovida de escolha, precisamente o estrato que fala em “propósito”).
Hoje, já não nos submetemos às atividades por força de uma autoridade externa. Não precisamos abaixar a cabeça para nossos pais, chefes ou mesmo o governo. Temos liberdade para decidir.
Só que não há liberdade sem responsabilidade.
O ato de fazer porque é necessário, porque o descumprimento possui uma consequência direta oferece um certo alívio, afinal, o culpado por sua rotina maçante é um ente externo identificável. Apesar da dura facticidade, fica mais fácil apontar o dedo e justificar a sua própria condição.
Com as rédeas na mão, você (de acordo com a narrativa da nossa época) se torna o culpado e, ao decidir por si, está diariamente ratificando as suas escolhas.
Com a conquista da liberdade, o que era um questionamento inócuo – perguntar pelo sentido do cotidiano - passa a pesar sobre nós.
Nas palavras do Dostoievski em Irmãos Karamazov:
“Eu te digo que o homem não tem uma preocupação mais angustiante do que encontrar a quem entregar depressa aquela dádiva da liberdade com que esse ser infeliz nasce”.
Na ausência de um ente externo que nos diga o que fazer, suspendendo de nossos ombros a obrigação de ser por si, recorremos a noções pasteurizadas sobre como se vive a vida. Seguimos tradições que atravessam décadas e se perpetuam de modo irrefletido.
No entanto, a normatização do mundo – essas formulações sobre que seria o trabalho, o que seria ser homem, ser mulher... – podem até suspender um peso existencial, mas acabam muitas vezes nos levando a rumos impessoais.
Quando escolhi cursar direito, não foi por paixão. Direito soava como uma profissão de sucesso, um caminho que fazia sentido, que se encaixava no discurso coletivo. Aos dezoito anos, a minha preocupação era entrar numa boa faculdade para que eu pudesse responder com orgulho quando me perguntassem onde eu estudava. No fundo, eu não me questionava sobre as minhas paixões e sequer sabia o que era ser advogado. (Não estou dizendo que todos que seguem uma vida dentro desses moldes vivem de forma desconectada. Já conheci advogados e advogadas envolvidas com os seus trabalhos).
Em linhas gerais, quanto menos nos conhecemos, menos pessoais se tornam as nossas escolhas e menos nos engajamos com o nosso trabalho. Na verdade, menos nos engajamos com o manuseio, com o conteúdo, com a essência do nosso trabalho, pois há um engajamento que não apenas se sustentou, mas ganhou mais espaço com essa mudança estrutural descrita por Chul Han - a performance. Boa parte da nossa conexão passou do conteúdo para o resultado.
Acima, eu disse que já conheci advogados envolvidos com o próprio trabalho. Assim como banqueiros, pessoas do meio de marketing, mercado imobiliários, etc. No entanto, sinto que boa parte desse engajamento se dá menos pelo conteúdo e mais por aspectos derivados, pelas consequências, ou seja, pelo que o trabalho proporciona. Mais especificamente, pela maneira com que o desempenho profissional sustenta a história que a pessoa conta sobre si. Como se o ofício servisse mais para confirmar uma noção de identidade do que para cumprir o seu próprio propósito.
A essência, a lida diária, a atividade em si ficaram em segundo plano, virando um meio para um fim, cedendo espaço ao desempenho, ao sucesso, à história sobre quem você é.
Eu já vivi esse engajamento por muitos anos e, em algum nível, certamente ainda vivo, mesmo que tenha mudado de profissão. E possivelmente a mudança de área tenha contribuído tanto quanto ou mais do que a minha mudança pessoal, pois acredito que em determinados ramos, esse discurso ecoa um pouco menos.
As profissões mais permeadas por essa noção tendem a se tornar frias e instrumentais, perdendo contato com os sentidos de origem, com os propósitos de base. Ou seja, passam a ser menos convidativas em termos de lida cotidiana. Nessas posições, a própria formatação do trabalho dificulta um envolvimento puro com o conteúdo. Em outros ramos, ainda não completamente esterilizados pela performance, fica mais fácil se aprofundar na essência do manuseio, o que viabiliza um saudável esquecimento de si. São nesses momentos em que a nossa mente se afasta da noção de identidade, em que a atividade se torna a existência do agora. Algo na linha do conceito de “flow” desenvolvido por Cziksentmihalyi.
Voltando... o curioso é que na base da produtividade já não há mais contraposição entre uma autoridade externa e você. Essas forças se fundiram, unindo carrasco e vítima na mesma pessoa. Você acaba se obrigando a uma vida de performance.
Você se submete às exigências, se força a cumpri-las e se frustra. Seja pelo êxito no cumprimento e o consequente vazio que vem com a sensação de ter se afastado de coisas que importam na vida ou por falhar e se sentir improdutivo, à deriva, longe dos parâmetros de sucesso.
Ok.... esse parágrafo foi um pouco melodramático e simplista, mas era para dar ênfase ao argumento, para realçar a perversidade dessa lógica coletiva. Nada de teoria da conspiração... acho que foi a nossa tendência de viver de modo irrefletido que nos trouxe a esse lugar.
Não à toa, há um constante vazio, uma ausência de sentido que nos leva a falar sobre “propósito” numa tentativa de escapar da desconexão e encontrar algo real.
Seria leviano olhar para o nosso cenário e dizer “relaxa, precisa mesmo ficar tão preocupado com desempenho? Não se meça por padrões externos... isso é besteira”. Essa é a atmosfera do nosso tempo, o pensamento que sustenta as falas do mundo. Pode até ser modulada, mas é inescapável.
O que nos resta é o modo com o qual escolhemos, a responsabilidade de ser si mesmo, a capacidade de se conhecer e bancar as suas próprias peculiaridades. O que, no fundo, acaba influenciando o modo com o qual você se deixa permear pelas exigências de produtividade. Afinal, quanto mais alinhada a sua atividade está com suas paixões, maior a chance de você ter uma lida verdadeiramente engajada, envolvida com a coisa em si e não com as suas derivações, não com as métricas e a sua imagem de profissional.
Mas... como escolher?