Essa vai ser mais pessoal.
Fiquei desconfortável após mandar a quarta Newsletter – aquela sobre verdade e conexão (que eu inclusive acabei reescrevendo). Achei que o texto não estava fluído e que eu me escondi atrás de muitas citações.
Logo temi que as pessoas iriam se desinteressar e que não haveria mais trocas – afinal, adoro quando alguém me manda mensagem ou e-mail discutindo o tema da vez.
O curioso é que eu havia gostado das três anteriores e o fato de ter mandado uma com o texto mais atravancado já me levou a crer que haveria uma perda de engajamento. Como se a minha conexão com os leitores estivesse em corda bamba e não sustentasse uma única titubeada.
Há uma exigência interna de que as Newsletters sejam sempre muito profundas e, ao mesmo tempo, fluídas. Sempre...
Fiquei pensando sobre essa tendência de achar que eu tenho pouca margem, pouco espaço para manobras e ajustes.
Algumas imagens me vieram à mente.
Uma chefe da minha época de recém-formado, revisando linha por linha de um relatório de auditoria enquanto eu e meu colega assistíamos as suas reações à distância, mas ainda dentro da sua sala. Estávamos lá para otimizar o tempo e já pegar o documento rabiscado para implementarmos as correções na nova versão. Devia ser entre dez e onze da noite. Ainda tinha chão pela frente. Por sorte, eu não havia mexido naquele documento. No terceiro erro, ela bufou, deu um tapa na mesa e disse que já não aguentava mais. Ficamos quietos. No quarto (o que não era muito para um relatório extenso), ela balançou a cabeça num gesto de quem não enxerga mais salvação, agarrou o código civil comentado, se virou em nossa direção, olhou com raiva para o meu colega e fez o movimento de arremesso. Eu não sabia quão boa era a sua mira, então abaixei e me protegi com os braços. Por um segundo de sanidade, ela abortou o lançamento.
Essa mesma chefe, em outra ocasião, me pegou pelo braço e tentou me arrastar até a sala de um sócio sênior do escritório. “Você vai se explicar para ele!!”. Berrei de volta, me desfazendo daquela mão que me apartava, “não encosta em mim!”. Só então eu pude explicar o mal-entendido e provar que não havia cometido nenhum erro.
Anos mais tarde, em outro escritório, lembrei de um advogado júnior entrando na sala do sócio e pedindo para que eu, na época o seu chefe, também participasse da conversa. Quando me sentei para ouvi-lo, seus olhos começaram a merejar. Disse, numa voz embargada, que estava se sentindo muito pressionado e com medo de não dar conta do trabalho. Tentamos reconfortá-lo sem, ao mesmo tempo, criar nenhum incentivo para que ele tirasse o pé do acelerador. Ele enxugou as lágrimas, agradeceu e saiu da sala. Bastou ele fechar a porta e eu me virei em direção ao sócio com um olhar ácido, julgando aquela atitude como “frouxa”. Eu não era das pessoas mais compreensivas...
Nos meus primeiros anos em ambientes corporativos, ficava desesperado com pequenos erros, como se todo o bom trabalho realizado fosse ruir diante de um deslize. Quando minha chefe apontava algo que precisava ser melhorado, passava horas me martirizando.
Meu coração acelerava, a respiração encurtava e minha atenção ganhava mais energia – o que certamente ajudava a avançar na infindável to-do list, mas, ao mesmo tempo, era essa tensão que atrapalhava o meu sono e que me deixava em constante estado de alerta.
Comecei a chegar cada vez mais cedo no escritório, numa tentativa de sustentar a história que eu contava sobre mim mesmo – de advogado responsável... em ascensão.
Quando ainda tinha algum pique, estudava ao chegar em casa. Não por amor à matéria, mas por vontade de me sobressair, de ter as respostas na ponta da língua, de evitar erros....
Ia montando todo um cenário com pouco espaço para deslizes. Um cenário que surgia de uma combinação entre minha vontade de querer me provar e o ambiente daqueles escritórios – altamente competitivos, cheios de pessoas que se levavam muito à sério...
Fiquei pensando quão cansado eu estou de me levar tão à sério e não aceitar que em vários momentos eu serei simplesmente medíocre.
Segundo o livro do Contardo Calligaris, o processo de terapia se encerra quando fizermos as pazes com o fato de “não sermos grandes coisas”, com o fato de que não vamos resolver os problemas do mundo e que somos medianos em muitos aspectos. Uma constatação que, quando e se vivenciada, proporcionaria um certo desamparo, mas também uma enorme libertação.
Esse é um assunto que frequentemente vem à tona nos atendimentos. Pessoas achando que estão atravessando gelo fino, que qualquer passo errado levaria à ruína.
Não apenas na vida profissional, mas ouço essas mesmas questões surgirem no âmbito mais íntimo, principalmente na dificuldade em ter certas conversas, em expressar os incômodos e lidar com o receio de chatear o parceiro.
Muitas vezes, por mais que a experiência mostre que os nosso prognósticos são mais pessimistas do que a realidade, voltamos a esse olhar, à sensação de que temos pouca margem para erro ou para nos expressar.
Por quê?
Talvez linhas diferentes respondam essa questão de formas distintas.
Alguns podem olhar para a história pessoal e tentar achar a origem da falta de amor-próprio, afinal, esse olhar pessimista indica pouco acolhimento consigo mesmo.
Outros podem olhar para os contextos sociais, para as atmosferas de cada época e tentar entender como elas nos influenciam atualmente, como o nosso cenário está diariamente ratificando certas tendências.
Somos bombardeados por mensagens sobre performance que vão gerando uma inquietação interna, uma agitação que te impele ao movimento, a se aprimorar, a se tratar como projeto, se tornando empreendedor de si próprio, alguém investido no desenvolvimento e que, bem no fundo, sempre acha que está aquém do desejado.
Difícil achar que teremos espaço para manobra, para ajustes, para sermos ouvidos e compreendidos numa atmosfera como essa.
Quando penso no meu trajeto, não dá para dizer que nada mudou, que eu continuo o mesmo general de antes. Hoje, apesar de ainda ter vários momentos de rigidez, me sinto um pouco mais próximo a mim, mais próximo à minha experiência do que à narrativa que eu tento manter sobre mim. Ao me aproximar da minha experiência, fica um pouco mais fácil aceitar algumas imperfeições. Não vou dizer que aprendi a me aceitar por completo.... mas aprendi a gostar um pouco mais de mim.
Talvez você esteja se perguntando o que seria se aproximar da própria experiência, afinal, eu sempre estou colado na minha experiência (será que está mesmo?). Essa é uma expressão que li no livro do Carl Rogers e que fez todo sentido considerando as coisas que tenho vivido. Pretendo elaborar esse assunto numa próxima Newsletter. Por enquanto, vamos ficar só com essa vaga ideia - de se aproximar do que você está vivendo.
Não acho que mudanças bruscas de vida sejam necessárias para que isso aconteça. Acredito que isso possa ser feito aos poucos, sem gerar grandes reviravoltas.
Claro... tomar consciência das autoexigências é o primeiro passo.
Há muito tempo, assisti um vídeo no youtube de um francês ou canadense que tinha decidido virar entrevistador. Não era o caminho que até aquele momento ele havia trilhado, então estava se aventurando em águas novas, o que naturalmente gerava um pouco de insegurança. Devia ter por volta de dezenove ou vinte anos.
Após alguns tentativas, conseguiu sua estreia – iria entrevistar alguém conhecido (não lembro de que área). Ficou nervoso antes do evento, mas saiu com a sensação de que não havia pisado na bola. Quando assistiu a gravação, ficou altamente decepcionado e teve vontade de abandonar a ideia. Por estar muito ansioso, tentou ser excessivamente simpático com o entrevistado e acabou rindo de cada palavra que saía de sua boca. Segundo ele, uma risada patética, fina, infantil e sem o menor contexto. Ao final do vídeo, disse que aquilo parecia uma hiena entrevistando um humano.
Decidiu tentar mais uma vez e por sorte conseguiu outra entrevista. Nessa segunda chance, estava decidido a não cometer o mesmo erro. Ficaria sério, com cara de adulto responsável e experiente. Ao ver o vídeo desse segundo evento, percebeu que o entrevistado havia feito algumas piadas que acabaram passando batidas por ele – que estava nervoso, tentando manter uma pose. Essas piadas não foram recebidas com uma risada, mas com um rosto sério de quem não vê muita graça, o que acabou criando um clima constrangedor. Ele, então, deixou esse projeto de lado, resignado com o fato de que não era um bom profissional.
Alguns meses mais tarde, foi a uma peça de teatro que acabou colocando as suas escolhas em outra perspectiva. Não pelo brilhantismo do roteiro ou pela impecabilidade da autuação...
Antes de as cortinas subirem, o ator principal – já experiente no seu ofício – teve uma crise. Começou a suar frio e a se sentir incapaz de performar diante do público. Se recusou a atuar e pediu para cancelaram o espetáculo, mas, ao final e com muita demora, foi convencido pelo produtor. A peça começou com mais de uma hora de atraso e o ator teve que ler as suas falas durante a apresentação.
Mais meses se passaram e o nosso entrevistador cruzou com o ator andando pela rua.... e o seguinte diálogo ocorreu.
“É você!! Eu estava lá naquela peça!”
“Que peça?”
“Naquela peça!! Em que você leu todas suas falas!”
“Não acredito... que vergonha”
“Você não está entendendo.... aquilo mudou a minha vida.... me deu coragem para seguir tentando. Afinal, se até um ator experiente fica nervoso, por que eu sou tão rigoroso comigo mesmo?”
Por quê?
Irving Yalom gostava de sugerir aos seus pacientes que pegassem uma folha em branco e traçassem uma linha. Uma vez desenhada, ele dizia para o paciente encarar quele traçado como a totalidade de sua vida e, em seguida, para marcar em que parte da linha ele julgava estar.
Esse exercício nos relembra que a cada dia estamos mais perto do fim. De que em breve, já estaremos na etapa final. Afinal, é o que ouvimos de muitos idosos – que a vida ocorreu num piscar de olhos.
Colocando as coisas nessa perspectiva, algumas exigências começam a perder o sentido....
Num outro vídeo no Youtube, um grupo de idosos com mais de cem anos foi entrevistado com o objetivo de responder à seguinte pergunta – se você pudesse voltar no tempo e se dar uma dica sobre como viver a vida, o que você diria.... um deles respondeu “relaxa, ninguém se importa tanto o quanto você imagina”.