Pedro Cirri

NEWSLETTER #7 - 04/07/2022 
Proximidade à Experiência
 
 
“(...) um a um os moradores foram se acotovelando em direção à porta, com a estranha sensação interior de satisfação que sempre se observa até nas pessoas mais íntimas quando acontece uma repentina desgraça com o seu próximo e da qual nenhum ser humano, sem exceção, está livre, a despeito até do mais sincero sentimento de compaixão e simpatia.”
— Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo
 
No livro “On Becoming a Person”, o psicólogo Carl Rogers fala sobre terapia como “helping relationship”, uma dinâmica que estimula o cliente a ser si mesmo em sua versão mais genuína, ou seja, se aproximar da sua própria experiência.
 
Para criar esse contexto, o terapeuta precisa se apropriar daquilo que se passa com ele ao longo da interação, identificando os sentimentos e as sensações, até aquelas que consideramos “feias” ou inapropriadas. Se em algum momento ele sentir raiva, pena ou vergonha em relação ao cliente não deveria tentar abafar, mas se tornar ciente sem entrar em conflito ou tentar interferir em seu estado interno. Afinal, quando não tentamos controlar, essas emoções vêm, nos afetam e depois passam.
 
Por mais desconfortável que seja reconhecer um sentimento indesejado, esse ato gera uma integridade interna que é captado pela pessoa com quem interagimos.
 
Essa dinâmica obviamente não se restringe à relação terapeuta-paciente. Toda interação tem o potencial de ser uma “helping relationship”.
 
Estar próximo a alguém que parece apropriado de sua experiência, centrado e confortável com o que está se passando faz com que nos sintamos mais relaxados. O oposto também é bem perceptível.
 
Você certamente já deve ter percebido momentos em que o outro parece estar desalinhado internamente. A expressão que para mim melhor descreve esse efeito é “desconfortável dentro da própria pele”. Há algo transmissível nessa inquietação. Quando lidamos com alguém que parece estar em conflito com a própria experiência, normalmente nos sentimos menos à vontade.
 
Ao criamos um contexto receptivo, encorajamos o outro a se aproximar dos aspectos menos bonitos da sua experiência. Aspectos que, no fundo, parecem mais amedrontadores do que realmente são.
 
“he becomes acquainted with elements of his experience which have in the past been denied to awareness as too threatening, too damaging to the structure of the self”
 
Ele fala num ganho de fluidez, num desmontar de preconcepções (sobre si) que impedem com que você acesse sua experiência de uma forma mais direta. Pois, via de regra, o que não se encaixa na sua noção de identidade tende a não ser reconhecido.
 
A rigidez identitária cobra um preço alto – o distanciamento da sua própria experiência e uma exaustiva ginástica que tenta adequar a realidade à sua noção de “eu”.
 
Há um trecho de um ensaio que conta um pouco sobre esse descompasso. É sobre um episódio que aconteceu em 2008 e do qual eu não me orgulho... mas que serviu para que eu começasse a fazer terapia.
 
“O barulho me espantou, muito maior do que eu poderia imaginar. Alto e seco, se alongando pela rua e ecoando pelos cantos. Muito som para pouco sangue. Na verdade, acho que sequer havia sangue.
 
Fiquei sem reação.
 
A memória que guardo desse instante é fragmentada, salta de um ponto a outro, deixando uma lacuna no momento do impacto. Não se trata de uma lembrança que se desfez no tempo, ela nunca se fixou.
 
Enquanto eu observava, ele se mexia tentando se levantar. Talvez, como eu, ainda formando uma imagem do que havia ocorrido.
 
Não senti dó.
 
A adrenalina domina e te afasta do outro. Não há espaço para dó.
 
Percebia algo forte, esquentando meu peito, abrindo meus ombros e escorrendo pelas veias dos braços até as extremidades dos meus dedos. Algo que naquela época eu chamaria de virilidade.
 
O passar dos dias foi aquietando a intensidade e decantando as emoções.
 
Já não havia nada de viril, somente culpa e vergonha. Uma vergonha que apertava o meu passo e abaixava o meu olhar a cada vez que eu cruzava os corredores da faculdade. A culpa, por outro lado, era só minha, interna. Independia da proximidade com outros.
 
Eu havia quebrado o maxilar de um amigo da faculdade. Por uma menina que já não era minha namorada, que eu sequer queria voltar a namorar. Uma marcação de território. Uma violência primata.
 
Por mais que se distanciem de uma ética interna, atos menores são facilmente justificáveis. Não criam instabilidade.
 
Já outros, mais raros, destoam. Destoam a ponto de não se encaixar na nossa narrativa. Permanecem isolados, fora do traçado, reluzindo algo incômodo e impossível de ignorar.
 
Há uma sensação de desnorteamento quando uma ação contraria a sua autoimagem. Talvez eu não fosse quem acreditava ser e minha essência menos polida do que eu gostaria.
 
Todo mundo tem seu gatilho. Esse foi o meu. Há doze anos.
 
Também faz doze anos que eu toquei pela primeira vez a campainha do conjunto 808. Apertei o botão e entrei para aguardar na sala de espera. Às oito e meia, ele abriu a porta da sala, me chamou pelo nome e estendeu o braço em minha direção.
 
O mesmo ritual que se repetiria toda quarta-feira.
 
Uma década desfazendo emaranhados neuróticos na esperança de conseguir seguir cada fio. Freud havia descoberto que atos aparentemente estranhos, considerados anormais, tinham no fundo um significado.
 
Eu precisava de significado, saber de onde vinham as minhas ações, descobrir o que se passava sob o radar da consciência.
 
É aflitiva a sensação de não se conhecer, de poder ser surpreendido por palavras expulsas pela própria boca ou por um soco que escapa pelo punho.
 
Quando se sente fragmentado, o passado se revela numa falsa estabilidade e você se pergunta quantos pequenos desvios sua própria narrativa não acobertou.
 
Chega até a notar uma assimetria. Os atos dos outros, você interpreta como reflexo de caráter. Já os seus, principalmente aqueles mais baixos, você justifica pelo contexto.”
 
Se ao menos eu tivesse reconhecido o que se passava comigo, percebido que me sentia diminuído e inseguro diante do envolvimento do meu amigo com a minha ex-namorada.... Talvez eu teria apenas lidado com essas emoções, permitindo com que a sustentação do desconforto me mostrasse que aquilo não era tão terrível quanto parecia, que era possível me sentir frágil.
 
Mas.... o que me impediu de fazer isso naquela época e o que faz com que alguém consiga se aproximar da própria experiência?
 
Num papo mais terapêutico, acredito que o distanciamento pode ser um recurso, um mecanismo que permitiu com que a pessoa atravessasse momentos turbulentos. Como todo recurso, deve ser respeitado, afinal, foi isso que o trouxe até aqui.
 
Dito isso, acho que muitas vezes carregamos padrões que já não nos servem, mas que se incorporaram ao nosso modo de ser.
 
Se eles ainda cumprem algum propósito ou não, isso será determinado pela capacidade da pessoa de se aproximar de si quando o contexto convidar. Acredito que a relação terapêutica pode e deve exercer essa função.
 
Tentando responder à pergunta acima, acho que a terapia não é o único modo de fazer com que alguém se aproxime da sua experiência. É possível se ensinar através do corpo, de atividades que te ponham em contato com as flutuações sensoriais e que te afastem da narrativa sobre si.
 
 
Pedro Cirri
pcirri84@hotmail.com