Desterro – o ato de desterrar.
Desterrar – sair ou ser expulso de sua terra natal ou de domicílio; exilar-se, expatriar-se.
No livro “Depressão: Doença ou Fenômeno Epocal”, a psicóloga e professora Cristine Mattar faz uma análise sobre o rumo que mindfulness tem tomado na nossa sociedade. Uma técnica originalmente criada para nos afastar do desejo de controle e para diminuir nossas viagens egóicas, mindfulness acabou virando ferramenta de desempenho.
Agora, se medita para treinar o foco, para dar conta do trabalho, aumentar a resistência e evitar a fadiga.
Esse exemplo, que não deixa de ser tragicômico, mostra a força do discurso do nosso tempo. Mais do que um discurso, é uma medida de época, um modo que atravessa todos os atos, falas e pensamentos. Um horizonte a partir do qual as coisas aparecem.
Com o ganho de liberdade, tudo passa estar ao seu alcance, você se torna responsável por sua própria condição, solução para os seus problemas.
“O neurótico, que poderia responsabilizar a cultura social e a dinâmica familiar primária, sobretudo os pais, pelos seus conflitos e mal-estar tratados no divã, vai se metamorfoseando, nas queixas clínicas, no depressivo ou no insatisfeito que culpa a si mesmo pelo seu sofrimento. A culpa tratada por Freud se intensifica nos tempos atuais, porque parece que tudo concorre para que o indivíduo se torne livre e feliz. O problema, portanto, só pode ser dele. Não há justificativa externa para o sofrimento, embora seja justamente a conjuntura epocal que dê a ilusão de que tudo concorre para que se torne livre e feliz, de tal modo que toda falha será sempre pessoal.” (MATTAR)
Bombardeados por dicas sobre como viver a vida, como ser mais saudável, eficiente e produtivo, condenamos a nós mesmos por não atingir nosso eu-ideal. A nossa melhor versão....
A frustração e o cansaço não encontram lugar num mundo do desempenho, apenas realçam o nosso descompasso e intensificam a estrangeiridade, o deslocamento.
Numa era sem absolutos, onde tudo é mutável e você nunca encontra estabilidade, cada elemento do mundo vira funcional. Deixa de ser uma coisa em si e se torna um para-que já ligado a uma ação futura, um meio para uma finalidade. Nada se assenta. Somos constantemente impelidos ao movimento, num eterna expatriação.
Desterrados, carregando o fardo de sermos responsáveis pela nossa própria felicidade em um espaço onde nada é vivido por inteiro.
Tudo emerge de uma conjuntura. Nada é para além do posicionamento momentâneo.
Enquanto nossos antepassados pisavam em solo firme, resguardados por um cenário estável, em que profissões atravessavam décadas, relacionamentos sobreviviam conflitos e conceitos reverberavam por gerações, nós muitas vezes nos sentimos à deriva, carregados por uma corrente que nunca se acalma, em que tudo é sempre remexido e alterado.
As pessoas até acreditavam em Deus. Verdadeiramente acreditavam em Deus, como quem se sente perto e dialoga.
Quem consegue se entregar a algo transcendente num mundo sem absolutos? Perdemos toda a solidez que justificava o absurdo que é estar vivo.
Nos resta apenas um estranhamento, um vácuo do qual fugimos, fingindo que ele não existe.
Nas palavras do personagem niilista de Ivan Turguêniev: “Ah, meu caro amigo! – exclamou Bazárov. Que maneira de falar! Veja o que eu faço; há um lugar vazio, na mala, eu vou pôr aqui um punhado de feno; o mesmo acontece na nossa mala da vida; nós a enchemos com alguma coisa, só para não ficar um vazio.”
Carentes de substância, os elementos da vida se esvaziaram de sentido e nós mesmos nos tornamos desinteressantes aos nossos próprios olhos. Já não sustentamos o nada, pelo contrário, empilhamos atividades e tarefas na tentativa de escapar do tédio. Nesse ininterrupto fazer por fazer, nos desconectamos da vida e nos tornamos indiferentes.
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Tem um amigo que copia e cola alguns parágrafos das newsletters e me manda por e-mail. Sempre para apontar que o trecho em questão ficou denso, ou seja, pouco destrinchado. Tenho a sensação de ele vai copiar e colar tudo que foi escrito acima.
Dessa vez, a intenção não era explicar, mas tentar passar um feeling, algo que ecoe, que gere uma identificação pouco racionalizada.
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Isso que eu chamei de medida epocal é mais do que uma tendência. Se fosse um modismo, a identificação de padrões e uma certa disciplina para agir de modo contrário seriam suficientes para afrouxar as amarras.
Claro, em algum nível acredito que seja possível modular, aliviar a pressão do anseio por desempenho, mas, no fundo, tudo surge a partir desse horizonte. Até a sua tentativa de ser mais namastê e relaxado brota dentro desse espectro. Espectro que, na verdade, é muito mais amplo do que desejo por performance. Evolve o modo como o espaço se abre para nós, como percebemos o tempo, como lidamos com o outro...
O curioso é que vivemos como se o ambiente fosse neutro, como se os nossos sofrimentos fossem somente nossos, pessoais, derivados da nossa história de vida e descolados de um contexto maior. Não pensamos em como a atmosfera do nosso tempo nos afeta, em como esses problemas são tão epocais quanto pessoais. As queixas em consultórios mudaram, pois o tempo mudou. Desejos reprimidos e relegados ao inconsciente - em função de uma sociedade opressora - se transformaram numa auto-frustração, numa constante ansiedade e, por fim, numa sensação de estar um pouco distante de tudo. (claro.... me refiro a um estrato social que não vive numa escravidão modera)
Então, o que fazer? Se tudo que surge, surge dentro dessa medida epocal, desse modo de ser em que o futuro está sempre se avizinhando, em que nada se assenta, em que tudo é constantemente ameaçado pela rápida mutação das configurações... e, ao mesmo tempo, em que nos sentimos um pouco desconectados de todas as atividades que empreendemos, por vezes até caindo num estado de apatia e indiferença...
Talvez se aproximar um pouco do tédio, diminuir essa constante fuga, esse hábito impensado de fazer por fazer, sem parar, sem entrar em contato com o vazio. Talvez você encontre um pouco de conforto nesse incômodo. Por mais que seja inquietante, há uma inteireza, uma coerência ao deixar de fugir. E, no fundo, a realidade tende a ser mais suportável do que a sua perspectiva.
“O personagem kierkegaardiano assume a defesa do ócio como forma de lida com o tédio, na contramão da valorização moderna da atividade, seja pelo trabalho, seja através da diversão. Não há tédio no ócio, mas sim no trabalho; e é possível ser feliz no ócio. Aliás, só é humano, espírito, aquele que tem sentido para o ócio. A atividade incansável (a positividade à qual se referiu Han) exclui o homem do mundo do espírito, o coloca na classe dos animais, que têm, por instinto, de estar sempre em movimento”. (MATTAR)
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Algumas leituras são capazes de desfazer essa ilusão de que o pano de fundo da vida é neutro. São leituras que abrem brechas para que possamos espiar um universo distante do nosso, colocando o nosso próprio tempo em perspectiva, nos fazendo questionar quais elementos da nossa época estão transparente aos nossos olhos....
Imagine um período sem a noção moderna de subjetividade. Pessoas vivendo em sociedade sem perceberem a si próprios como indivíduos conscientes. Soa como ficção, daquelas que pendem para o fantástico e dispensam a verossimilhança. De fato, fantástico. Mas muito provavelmente real.
Julian Jaynes, que foi professor de psicologia em Princeton, destrinchou as primeiras versões escritas de Ilíada, buscando o significado de cada termo.
Thumos, que mais tarde seria usado como alma emocional, nas versões mais antigas da epopeia significava movimento e agitação. Quando um homem parava de se mexer, o thumos saía de seus membros. Esse termo também era usado no sentido “órgão”. Quando Glaucus pede para que Apollo alivie sua dor e lhe dê força, o Deus escuta sua prece e “confere força ao seu thumos”. É o thumos que diz à pessoa quando comer, beber ou lutar. Diomedes diz que Aquiles lutará quando o thumos em seu peito assim determinar.
Outra palavra de uso similar é phren. São os phrenes de Hector que reconhecem que seu irmão não está por perto. Apenas séculos depois, esse termo passou a ser usado como consciência ou coração (num sentido figurativo).
As pessoas eram movidas à ação. Não decidiam por si. Não da forma como hoje entendemos esse processo.
A palavra noos, que mais tarde seria escrita como nous e significaria consciência, no contexto da Ilíada seria “percepção, reconhecimento ou campo de visão”. Zeus “tem Odysseus em seu noos”. No sentido de vigiar.
Mermera, que significa “em duas partes”, se transformou num verbo – mermerizein: se dividir em relação a algo. Tradutores modernos, para fins literários e para uma fácil compreensão, acabaram traduzindo esse termo como refletir, pensar ou mesmo estar com a mente dividida, um ato de tentar decidir. No entanto, esse termo essencialmente significava estar conflitado por duas ações, não dois pensamentos.
Sempre algo comportamental, externo. Nada apontava para o conceito de vontade.
Você acha que as pessoas desse tempo se sentiam frustradas por não alcançaram suas melhores versões, por se sentirem aquém do esperado?
Séculos mais tarde, já numa sociedade permeada pela noção de subjetividade, mas ainda bem distante da nossa, o ato de ler em voz baixa era exceção e até encarado com certo estranhamento. Em Confissões, Sto. Agostinho descreve o Bispo Ambrósio lendo em silêncio, com uma descrição típica de quem se depara com algo inusitado.
“I have seen him reading silently, never in fact otherwise. I would sit for a long time in silence, not daring to disturb someone so deep in thought, and then go on my way. I asked myself why he read in this way. / Já o tinha visto ler em silêncio, na verdade, nunca de forma diferente. Eu me sentava por um longo período, não ousando atrapalhar alguém tão compenetrado no pensamento e então eu partia, me perguntando por que ele lia dessa maneira”
No livro de Alberto Manguel sobre a história da leitura:
“Even though instances of silent reading can be traced to earlier dates, not until the tenth century does this manner of reading become usual in the West. / Mesmo que incidentes de leitura silenciosa tenham sido registradas anteriormente, foi somente após o século X d.c que esse modo se tornou comum no Ocidente.”
Não ler em silêncio, mas em voz alta, pressupõe uma relação diferente com a subjetividade. Como se o mundo interno fosse menos vasto e menos relevante. As palavras eram compartilhadas, fazendo com que o conhecimento pertencesse ao coletivo, não ao indivíduo.
O ponto que eu estou querendo fazer com essas observações é a influência do contexto sobre as nossas questões psicológicas.
O que mais nos influencia normalmente permanece transparente aos nossos olhos, camuflado numa suposta neutralidade.
Os nossos sofrimentos não têm apenas relação com a nossa história de vida, com os traumas pelos quais passamos, mas também advém da atmosfera que nos atravessa.
Como você lida com o tempo? Consegue ficar no presente sem sentir o futuro se avizinhando? De que modo você se conecta com a essência das coisas? Se sente apenas mobilizada pelo resultado e pela funcionalidade das atividades?