No horizonte claro, sem sombras de incerteza, o caminhar dispensa a confiança.
É na dificuldade em prever, na visão embaçada que não garante os próximos passos que recorremos a esse estado de espírito.
Não falo em aposta, em tomada de risco, mas em fé, fidere, confidere – acreditar com firmeza, a despeito das dúvidas.
Fé em si mesmo.
Que fique claro: essas linhas não se transformarão numa apologia à performance. Não se trata de confiança para ir mais longe, mas de confiança para se sentir bem dentro da própria pele.
Na semana passada, ao ouvir um episódio (Désirer: avoir confiance em soi) do podcast Emotions, me deparei com dois pontos centrais do trabalho que faço sobre propósito.
O primeiro deles é a capacidade de se apropriar dos nossos talentos.
Estamos tão condicionados a olhar para as nossas dificuldades, sempre focando naquilo que precisamos melhorar, que deixamos de reconhecer as nossas habilidades. Quando as reconhecemos, nossa atenção normalmente se vira àquelas que demandaram esforço. Como se, na verdade, apenas conseguíssemos identificar conquistas suadas.
No entanto, talento não pressupõe desafio.
Nem toda conquista envolve aptidão e nem toda aptidão é posta em prática com esforço. Algumas coisas vêm de forma natural e, de tão fácil, parecem pouco merecedoras de crédito. É disso que estou falando. Reeducar o nosso olhar para que consigamos identificar os nossos maiores talentos, aqueles que acabam passando despercebidos por estarem tão próximos a nós.
Quais são os seus verdadeiros talentos? Quais são os elogios que quando recebidos, você dispensa com um “não é nada”?
O segundo ponto trata de uma convicção sobre a nossa capacidade de ditar o rumo da nossa própria vida.
Como você percebe o seu lócus de controle? É mais externo ou interno? Se sente à deriva, carregado por uma corrente, ou que os desdobramentos da sua vida são resultados das suas ações?
Eu aprecio esse olhar quando ele vem como consequência de uma outra busca. Afinal, a busca por esse controle como objetivo principal intensifica algo já exagerado pelo nosso tempo – achar que tudo depende de nós, que tudo está ao nosso alcance, que somos os únicos responsáveis pela nossa própria felicidade.... aquele discurso-estrume.... seja o seu próprio café da manhã... algo motivacional nessa linha.... que nunca abre espaço para as camadas mais profundas da existência.
Não é sobre isso.
Acredito que quando nos aproximamos de valores que são caros para nós, quando nos relembramos do que realmente importa, nos tornamos mais inteiros, passamos a habitar nossa própria pele com mais conforto.
Essa constatação não vem apenas de experiência própria. Existem estudos que comprovam que o ato de resgatar o que mais importa para você altera as taxas de adrenalina e cortisol em momentos de stress – momento em que você é colocado à prova. A psicóloga Amy Cuddy discorre sobre esses estudos em seu livro Presence.
Isso diz sobre o seu lócus de controle. Pessoas que estão conectadas com seus principais valores se sentem apropriadas de si, menos sujeitas ao julgamento alheio. Mais agrupadas, concisas e coerentes, menos espalhadas e caóticas.
Não se trata de acreditar que o rumo da sua vida depende exclusivamente da sua vontade – isso seria ingênuo e falacioso, mas sobre estar inteiro onde quer que você esteja e, como consequência, se sentir menos abalado pela imprevisibilidade da vida.
Pelos mesmos motivos que não estamos acostumados a olhar para os nossos talentos, temos o hábito de focar em valores coletivamente enaltecidos, esquecendo o que vale para nós.
Cada um tem um foco específico, uma lente que ilumina alguns elementos enquanto apaga outros.
O que se destaca no seu olhar?
Talvez essa seja uma das maiores belezas da vida, o fato de que cada um se entusiasma com algo particular, peculiar a si, à sua história de vida.
E talvez uma das maiores tristezas seja o fato de ignorarmos essas singularidades e tentarmos nos enquadrar em receitas prontas, pasteurizadas e impessoais.
Inclusive, entusiasmo vem do grego enthousiasmos (de theos) e significa inspiração divina.
No livro The Courage to Be, o filósofo Paul Tillich diz que autoafirmação “pressupõe participação em algo que transcende o sujeito”. No léxico de Tillich, falar em autoafirmação não é uma tentativa de combater a baixa autoestima, não se trata de um boost egóico – algo tão comum numa era apavorada por fracassos, a ponto de ignorar que eles existem. Ao falar sobre autoafirmação, Tillich trata de uma conexão com algo maior, algo mais abrangente que a individualidade.
Curiosamente, identificar e entrar em contato com os temas e as ideais que mais importam traz sentido ao cotidiano. Você pensa menos sobre si e se sente próximo a algo maior – qualquer que seja o nome que utilizemos, propósito, destino, coerência, Deus...