Pedro Cirri

NEWSLETTER X - 15/08/2022 
Disciplina com Conexão
 
 
 
Ouvi na semana passada um episódio de podcast em que o Jordan Harbinger – que eu não conhecia – entrevista Jim Kwik, um figura pilhado que vivia aparecendo em anúncios quando eu abria o Youtube.
 
Confesso que a cada vez que eu via as chamadas de seus cursos, vários julgamentos
atravessavam a minha mente. Tudo muito “seja a sua melhor versão”. Um deles, inclusive, é “Como ler um livro por semana” e, salvo engano, seu programa principal se chama “Super Cérebro”.
 
Nesses anúncios, ele sempre se manifestava de um jeito excessivamente empolgado como quem acabou de cheirar uma carreira, mas, conforme descobri no podcast, ele se energiza com banhos gelados (óbvio). E certamente faz jejuns intermitentes para aumentar ainda mais sua vitalidade. (Para não ser tão hipócrita, confesso que eu também tomo banhos gelados e também faço jejuns intermitentes).
 
Dei um Google em seu nome antes de começar a ouvir o episódio. Fotos com várias
celebridades como Will Smith e Elon Musk. Na legenda dessas imagens, ele estava
apresentado como Brain Coach. Elon Musk, apesar do forte potencial para babaca (conforme sugerem as entrevistas mais antigas) não é nenhum mentecapto. Looonge disso.
 
Alguma coisa de interessante esse Brain Coach devia ter. E de fato tem. No podcast, ele, de forma muito calma e didática, apresenta um olhar bem estruturado sobre como lidar com impasses e frustrações.
 
Basicamente, o pitch da sua apresentação é: como acessar todo o seu potencial.
 
O primeiro ponto que ele esclarece antes de entrar nos três principais pilares é o fato de a inteligência não ser fixa. Não se trata de um atributo, de uma propriedade inerente à sua pessoa.
 
Teste de QI, segundo ele, é mais sobre técnica, tanto que existem treinos que proporcionam melhores resultados. Além disso, QI é uma abordagem restritiva que ignora inteligência social e emocional (tema muito bem destrinchado por Daniel Goleman na década de 90).
 
Para Jim – e isso eu achei simples e bonito – inteligência é a capacidade de se adaptar e de perceber padrões. O que pressupõe uma maleabilidade e, ao mesmo tempo, um
distanciamento que te permite identificar aquilo que se repete, que te permite criar distinções naquilo que se apresenta.
 
Inteligência é muito mais fluída do que fixa. Mais verbo do que substantivo.
 
Aliás, todos os pilares que ele trabalha em sua apresentação são mais verbos do que
substantivo. Talvez porque nós somos mais ação do que propriedade. Não sou, mas estou.
 
Quantas pessoas não se prendem a declarações como “não tenho motivação” ou “não tenho foco”.... como se elas fossem estruturalmente de uma determinada maneira. No fundo, acredito que há um certo conforto (não desprovido de sofrimento) nessas declarações – o de lacrar uma explicação sobre si mesmo, se resignando com um azar permissivo, uma azar que te autoriza a sequer tentar.
 
O fato de transformar o SOU no ESTOU te devolve a autonomia – ou seja, a liberdade, bem como a responsabilidade pela sua vida.
 
Em seguida, Jim pede para que o ouvinte pense sobre algo que ele gostaria que melhorasse, sobre um determinado aspecto que traz a sensação de estar empacado. A analogia que Jim apresenta é a de estar preso numa caixa e as três dimensões desta caixa seriam tanto os elementos que te estão te aprisionando, como aqueles que podem te libertar.
 
Uma maneira até mais clara de pensar nesses pilares ou dimensões é visualizar três círculos com áreas de sobreposição. Aqueles diagramas malas que a gente via na escola...
 
O primeiro círculo representa mindset.
 
Ahhh vá que ele ia falar sobre mindset???
 
Tá... mas vamos segurar as críticas até o final. Apesar do discurso já manjado e dessa
mentalidade que dá uma preguiiiiiiça, o jeito que ele organizou o pensamento é interessante.
 
E... já adiantando um pouco o fechamento dessa Newsletter, eu concordo com o que ele fala e acho a abordagem inteligente. Só me incomodo com os porquês, com as motivações. Mas vamos lá. Mindset.
 
Por mindset, ele se refere a suas atitudes e suas premissas em relação ao mundo e em relação a si próprio. O que você acredita ser capaz ou incapaz de fazer, como você encara seu entorno, as pessoas, etc.
 
O seu principal ponto é que não adianta você querer se desenvolver, ter um método para se desenvolver se, no fundo, você não se enxerga como capaz. A mudança de olhar proposta é aquela expressa acima, não se ver como dotado de propriedades imutáveis, mas talvez apenas alguém ainda não habituado a agir de certa maneira.
 
O segundo pilar (ou círculo) é motivação. Não à la palestra motivacional, não se trata de um pico de empolgação que não se sustenta a longo prazo. Afinal, o próprio nome já indica o pressuposto. É preciso haver motivo. Algo que te leve a fazer o que você faz, que justifique os perrengues e dê sentido ao cotidiano.
 
Ele chega a mencionar conhecidos que acordam às quatro da manhã para malhar e que,
quando questionados, admitem que odeiam acordar cedo e que não são grandes fãs da
academia. No entanto, gostam do resultado que essa atividade proporciona e, por isso,
suportam os contratempos.
 
Ao ouvir esse relato, senti um certo estranhamento, como se tivesse um feeling de que as coisas não deveriam ser assim – ainda mais se tratando de atividades físicas e hobbies. Entendo que para chegar a um lugar desejado você tem que passar por percalços, fazer um esforço a mais, suportar um cansaço, etc. No entanto, não acredito muito nessa abordagem fria que mira apenas o benefício que aquela atividade proporcionará. Não estou pensando em atividades idílicas que sejam puro prazer, mas acho que a satisfação poderia estar um pouco mais na atividade e não apenas no benefício. Caso contrário, o contato fica muito distanciado. Talvez, para essas pessoas, isso não esteja na academia, mas na corrida de rua, na aula de dança ou nas artes marciais. Algo que gere uma conexão maior com a atividade em si.
 
Se transportarmos essa questão para a vida profissional - que tende a ser um pouco menos livre e um pouco mais rígida -, ainda assim é possível tornar a lida menos fria.
 
Quanto mais distante estiver o fundamento da nossa motivação, mais fácil nos
desconectarmos dos porquês. Se a principal justificativa para a árdua rotina se encontra ao final de muitos anos, num hipotético cenário de satisfação e conforto financeiro, provavelmente teremos uma relação desconectada com o trabalho. Não apenas isso, mas será mais difícil sustentar os perrengues.
 
Se a atividade for muito exaustiva, que tenhamos marcos ao longo do processo que forneçam uma sensação de realização e, assim, vão confirmando o sentido das nossas escolhas.
 
É tão fácil perder os porquês de vista...
 
O banho gelado – por mais que não se enquadre no tema “trabalho” – serve como exemplo. Se o que me levasse a tomar banhos gelados fosse a melhora nas minhas respostas imunológicas, eu dificilmente manteria esse hábito, pois o benefício estaria muito longe de mim. O que me faz sustentar o perrengue da água fria (principalmente em meses de inverno) é o fato de eu me sentir muito energizado após o banho.
 
Jim Kwik fala sobre a nossa capacidade de escolher essas motivações. Tem algo nisso que também me soa estranho. Como se fossemos uma folha em branco e nela escrevêssemos a motivação que racionalmente decidimos. Não acho que seja assim. Acho que há algo pré-reflexivo. Já temos um direcionamento que não tem relação com opção, que, na verdade, antecede a decisão. Cabe a nós sabermos identificar os indícios desse direcionamento, sabermos escutar a nossa essência. Caso contrário, continuaremos nos forçando a fazer atividades que no fundo não nos tocam e que empreendemos unicamente pelo benefício distante que elas proporcionam.
 
Um elemento interessante que ele traz sobre motivação é a relação entre objetivos e energia disponível. Sugere que comecemos com passos pequenos, com planos que sejam compatíveis com o nosso estoque de combustível. Temos uma tendência a implementar novas ideias mirando muito alto. Como se só mudanças muito substanciais valessem a pena. Não... isso é sobre transformações sustentáveis.
 
O terceiro e último pilar (ou círculo) é método – se apropriar de uma técnica e traçar um
plano.
 
Ou seja, são três círculos com três Ms – mindset, motivação e método.
 
Onde mindset e motivação se encontram temos inspiração. Onde método encontra motivação temos implementação. Onde mindest encontra método temos ideação (sei que isso é possível, sei que sou capaz, mas me falta motivação).
 
E onde os três os três círculos se encontram – temos o seu máximo potencial.
 
Bonito, não?
 
Mas então por que algumas pessoas que leem livros sobre como se tornar a sua melhor
versão, que têm energia e, além disso, são focadas muitas vezes parecem insatisfeitas ou inquietas?
 
Ainda não conheceram Jim Kwik? Hummm acho que esse não é o motivo...
 
Acredito que a maneira com a qual as pessoas abordam esses assuntos é estruturalmente problemática. Me incluo nessa.
 
Nenhuma satisfação parece se assentar. Os poucos momentos de comemoração são curtos e logo dão lugar a novos desafios.
 
Isso me lembra uma cena da versão mais recente do filme Wall Street em que Shia Labeouf pergunta para Jeff Beck qual é o seu número - o número na conta bancária que faria com que ele finalmente parasse. Ao invés de cravar uma cifra, ele responde “mais”.
 
Quanto mais depositarmos nossos porquês na utilidade daquilo que fazemos, mais efêmera será a satisfação.
 
A motivação precisa fazer parte do presente. Senão por completo, ao menos em partes.
 
Existem dois princípios do yoga que talvez possam ser aplicados por analogia a essa discussão. Prática (abhyasa) e não-apego (vairagya).
 
Nos Sutras de Patanjali, eles aparecem como o controle dos movimentos da mente através da repetição e do desapego. As frustrações das quais falamos acima tem relação com esses “movimentos da mente”.
 
Mais adiante, esse texto sagrado fala sobre a capacidade de discriminar quais ações te
aproximam do seu Eu superior e quais ações te afastam dessa espiritualidade.
 
Aplicando essas noções na tentativa de entender o motivo pelo qual o atingimento do seu potencial não necessariamente leva a um estado de satisfação, dois aspectos parecem se destacar: discriminação e desapego.
 
O que ele chama de repetição tem relação com a disciplina proposta por Jim Kwik e por todos os outros autores nessa linha.
 
Por discriminação, eu me refiro à nossa capacidade de perceber aquilo que chamei de
posicionamento prévio, de um foco que antecede escolha. Cada um tem uma lente específica em relação ao mundo, uma lente que ilumina alguns elementos e obscurece outros. Empreender atividades que não estejam em consonância com esse interesse pode levar a uma relação distanciada que somente consiga se sustentar nos benefícios indiretos.
 
Por desapego – e aí vem o elemento mais difícil que chega a ser até contraintuitivo para nós – me refiro à capacidade de largar mão da expectativa. Ser disciplinado e realizar as atividades por acreditar naquele caminho, por acreditar que aquilo te aproxima do que importa para você e, ao mesmo tempo, não esperar um resultado das suas ações. Afinal, quando nos apegamos ao resultado, estamos nos apegando também à nossa imagem, ao lugar que estaremos quando aquilo for conquistado. Numa linguagem mais “yoga”, estamos nos apegando a falsos  valores.
 
Tudo isso soa um pouco utópico para o mundo em que vivemos. Portanto, a minha sugestão é uma versão um pouco mais light, mas, ainda na linha proposta pelos Sutras (ou pelo menos assim eu acredito). Não a tentativa de renunciar à expectativa por completo – pois isso é muito difícil -, mas mudar o foco, ao invés de mirar no resultado, voltar a prestar um pouco de atenção na atividade em si. Resgatar os laços que te conectam com aquilo que você faz, seja um esporte, uma atividade de lazer ou o trabalho.
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
Pedro Cirri
pcirri84@hotmail.com