Pedro Cirri

NEWSLETTER XI - 29/08/2022 
Olhar Não-Violento
 
 
 
Não é pelo acúmulo de conhecimento, esse prazer é contido, dura pouco e não chega a empolgar.
 
É para dar contornos ao invisível, para discernir aquilo que se camufla num fundo embaçado.
 
Esse é o grande barato dos estudos – o poder de aguçar o nosso olhar.
 
Afinal, nosso desenvolvimento está conectado com a capacidade de criar distinções naquilo que vemos.
 
Tem uma frase que vive circulando pelas mídias sociais e que as pessoas atribuem a Einstein que diz algo como: problemas criados com um determinado nível de consciência não são resolvidos a partir desse mesmo nível de consciência.
 
Consciência, na minha visão, tem a ver com distanciamento e capacidade de identificar e nomear aquilo que se apresenta. Capacidade de fazer marcações no nosso próprio comportamento, para que quando ele surja novamente, já não passe tão despercebido.
 
Lembro de uma apresentação que tive que fazer sobre “escuta”.
 
Antes de conhecer o Coaching Ontológico, nunca tinha parado para pensar sobre o que a escuta pode revelar sobre uma pessoa. Nunca tinha parado para pensar sobre as diferenças entre escutar e ouvir.
 
Ouvir pertence à percepção e diz respeito à captação de som. Escutar tem relação com atribuição de sentido.
 
Se há atribuição de sentido, há viés.
 
A maneira com a qual você escuta diz sobre a sua visão de mundo. Para usar um termo do Julio Olalla e do Rafael Echeverria, sua escuta revela o Observador que você é da realidade. É isso que eles tanto pontuam – que cada um é um observador específico, moldado por anos e anos de recorrência num modo particular de ser. Um modo que se manifesta na sua interpretação da realidade, na sua corporalidade e nas suas emoções.
 
“Ahora, ¿qué sentido le damos a lo que escuchamos? Hemos señalado (...) que todos somos diferentes observadores del mundo. Y es desde ese Observador que yo soy, que puedo darle sentido a lo que escucho.”
 
“Mi escuchar está teñido con todo aquello que me constituye como Observador: mi historia, mis discursos, mi género, mi cultura, mis emociones, mis juicios maestros, mi edad… Es desde ahí que escucho, que le doy sentido a lo que el orador está expresando. Es un escuchar que yo no puedo elegir: solo puedo escuchar desde quien soy, con las distinciones que tengo. Una persona hablando frente a varias personas puede tener la ilusión de que todas escuchan lo mismo y sin embargo, cada una de ellas, siendo un Observador diferente, tendrá su propia escucha de lo que este dijo.”
 
Nas palavras de Julio Olalla, atribuímos sentido a partir do observador que somos da realidade e a nossa escuta é coerente com a maneira com a qual enxergamos o mundo, coerente com as nossas crenças sobre nós e sobre o entorno.
 
Quando eu comecei a pensar sobre isso, percebi um traço particular – sempre escutava a partir de um lugar de questionamento e desconfiança.
 
“Escutava” é otimismo da minha parte. Em certo nível, ainda escuto dessa forma.
 
Não desconfiança em relação a algo como “índole” da pessoa. Era uma escuta que questionava o conhecimento daquele ou daquela que estava falando. Como se eu estivesse constantemente medindo as qualidades do meu interlocutor.
 
Comecei a enxergar paralelos entre essa característica e a minha maneira de encarar a vida - sempre tratando tudo como desafio, como testes que me colocassem em julgamento.
 
Estava sempre medindo meu interlocutor para fins de comparação e, para me sentir bem comigo mesmo, já escutava a partir de um lugar de descrédito - o inverso daquele princípio do direito penal de dar ao réu o benefício da dúvida.
 
Quando me convencia da sabedoria ou eloquência do outro, dizia para mim mesmo que eu precisava estudar mais, que ainda sabia muito pouco.
 
Nenhuma escuta é neutra.
 
Não se trata de checar a sua interpretação a cada episódio, mas de entender o lugar a partir do qual você escuta. Por lugar, me refiro à predisposição, à inclinação a escutar de uma determinada forma. Temos um caminho recorrente, um percurso que com o tempo vai se tornando habitual, nos levando a confundir um modo de se realizar o ato com o ato em si.
 
Como você escuta? Tende a desconfiar ou a dar crédito ao interlocutor?
 
Tem gente que escuta colocando o outro no pedestal.
 
Há algum tipo de interlocutor com o qual você é mais benevolente?
 
De que modo a sua escuta é coerente com a sua corporalidade?
 
No fundo, tudo que fazemos é revelador dos nossos padrões e, numa camada mais profunda, do observador que somos da realidade, das crenças que influenciam as nossas interpretações dos fatos.
 
Esse tema guarda uma forte relação com algo que foi dito naquele podcast mencionado na última newsletter – o poder que o mindset tem de nos enrijecer e nos limitar.
 
O olhar do Coaching Ontológico vai um pouco além do mindset – eles enxergam uma coerência entre corpo, emoção e linguagem – sendo que cada um desses componentes corrobora os demais. Sua corporalidade tem relação com as suas emoções, sua linguagem reflete sua postura corporal, etc.
 
Após começar a estudar Psicologia Fenomenológica e Hermenêutica, esse olhar do Coaching Ontológico pareceu um pouco simplista e, acima de tudo, parecia levar para um relativismo completo, como se tudo pudesse ser justificado pela lente que cada um usa para ver o mundo. Como se não houvesse verdade para além dessas subjetividades.
 
O que eu demorei um pouco para entender é que essas linhas não são conflitantes, apenas investigam aspectos distintos.
 
Olharmos para nós sob essa ótica do Observador da Realidade, enxergando a nossa coerência nessas três dimensões (corpo, emoção e linguagem) é extremamente rico para entendermos os nossos padrões – o que alguns autores da Psicologia Fenomenológica chamariam de compromissos identitários. No entanto, isso não quer dizer que as coisas não tenham uma verdade para além da nossa interpretação.
 
No fundo, temos uma tendência a contaminar a aparição das coisas (e de outras pessoas) em função dos nossos compromissos identitários (das nossas crenças, do nosso mindset).
 
Para ultrapassar esse relativismo, a fenomenologia sugere uma postura contemplativa e ao mesmo tempo investigativa. Nas palavras de Bilê Sapienza:
 
“Quanto à redução fenomenológica, esta suspende concepções e julgamentos prévios a respeito daquilo que se deseja investigar e procura se prender à evidência do que se apresenta para a consciência. Quando tudo aquilo que não é evidente à consciência é suspenso, o que sobra, ou seja, o resíduo da redução, é o fenômeno na consciência.”
 
Ao lidarmos com os fenômenos (seja um objeto, uma pessoa, uma situação) não tentemos encaixá-lo em concepções prévias, mas permitamos com que eles se mostrem para nós em suas essências, livre de aprisionamentos conceituais.
 
É aí que os métodos do Coaching Ontológico caem como uma luva. Quanto mais cientes estivermos dos nossos padrões (do observador que somos da realidade), mais aptos estaremos a suspender as nossas crenças e, assim, não agredir e deformar aquilo que está diante de nós.
 
Essa abertura para que as verdades apareçam não se dá somente em relação àquilo que é externo a nós (mesmo porque, na fenô, não há externo e interno).
 
Aqui, há um trecho de Heidegger sobre o artista e o processo criativo:
 
“Do they convey to us that the artist, as well as the spectator, must submit patiently and passively to the artistic process, that he must lie in wait for the image to produce itself; that he produces false notes as soon as he tries to force anything; that, in short, he must let the truth of his art happen to him? / Por acaso eles nos ensinam que o artista, bem como o espectador, deve pacientemente se submeter ao processo artístico e esperar até que a imagem se faça, que ele produz traços falsos logo que tenta forçar algo; que, em suma, ele deve permitir com que a verdade de sua arte aconteça para ele?”
 
Há cinco anos, eu e dois amigos viajamos para Amsterdam. Fizemos o que se faz em viagens para o exterior, andamos pela cidade, conhecemos restaurantes, bares, parques e visitamos exposições. Foi em uma dessas exposições que ficou clara a tendência a encaixar as atividades em concepções prévias, a fazer como se faz, aguardando algo de antemão, já alocando um tempo coerente com o esperado e, por consequência, suprimindo o potencial de surpresa, transformando o imprevisível numa profecia autorrealizável.
 
Entrar no museu, passear pelas salas, parar um pouco na frente de alguns quadros para uma análise mais demorada, sair e conversar um pouco sobre as impressões.
 
Como eu sempre fizera, como as pessoas que viajam fazem. Submetendo aqueles elementos à minha noção impessoal sobre exposição, não permitindo com que aquele ambiente se mostrasse para mim, mas já domesticando-o de acordo com as minhas experiências passadas.
 
No entanto, quando estava para sair, senti que deveria ficar mais. Sem saber muito o porquê, acabei seguindo esse palpite e dizendo aos meus amigos que os encontraria mais tarde.
 
Sentei em um dos bancos e fiquei quieto olhando para os quadros. Nesse momento, já um pouco mais distante do script.
 
Horas se passaram e quando me dei conta, já estavam fechando o museu.
 
Comecei a enxergar paralelos entre os quadros, perceber a tonalidade que atravessava as obras - uma atmosfera obscura que falava sobre desabrigo e estrangeiridade, algo que naquele momento conversava com a minha vida. A distância entre mim e aquela arte diminuiu. Ela deixou de ser um programa previsível, um elemento de uma viagem à Europa que logo se tornaria uma lembrança remota.
 
Cinco anos mais tarde, me recordo daqueles quadros como se fosse ontem, não apenas da estética, mas principalmente das sensações que eles me causaram.
 
Como é raro estar realmente aberto para uma experiência e evitar a contaminação pela nossa bagagem, pelo nosso entulho biográfico.
 
Talvez o caminho seja esse – se demorar um pouco mais, se alongar alguns minutos sem muita pretensão. Algo pode surgir. Ou não...
 
Sem dúvida, se dar conta dos seus padrões, do observador que você é da realidade, ajuda no distanciamento, na percepção de que você está agindo como normalmente age e, quem sabe, no surgimento da ideia de que talvez, em algum momento, dê para fazer diferente.
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
Pedro Cirri
pcirri84@hotmail.com