NEWSLETTER #4 Verdade como Relação |
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Sabe aquela sensação de fazer as coisas só por fazer, aqueles momentos em que a vontade é substituída por um automatismo? É sobre isso que falaremos. Sobre esse automatismo que logo justificamos com lugares-comuns, como se a vida adulta estivesse fadada à desconexão, a uma atmosfera cinza que suprime a cor de tudo que se apresenta diante de nós. Cada vez mais escuto pessoas reclamando de falta de engajamento. Não apenas em relação a trabalho, mas hobbies, amizades e namoros. A empolgação com a qual estávamos acostumados quando criança parece ter sido contaminada por uma lida distanciada. Tons de utilidade passam a ditar o nosso comportamento, esvaziando as atividades, tornando-as meios para um fim. Não escrevo a partir de um lugar de quem superou essa tendência, pelo contrário, sinto que é uma luta diária, um constante exercício de lembrar daquilo que realmente importa para mim. Parece que ficou mais difícil estar em algo por inteiro, com os dois pés dentro. Acho que boa parte disso se deve à celeridade dos processos atuais, bem como ao excesso de ofertas que o nosso mundo “conectado” nos disponibiliza. O livro “Sociedade da Transparência” trata desse tema de uma forma bonita e profunda. Um bom tópico para uma próxima newsletter. Agora, só quero realçar que a rapidez da comunicação atual faz com que lidemos com os outros e com os conteúdos de forma rasa e, na medida em que interagimos sem nos aprofundar, tais interações tendem a ficar mais semelhantes umas às outras, o que faz com que pareçam fungíveis, substituíveis, alternativas descartáveis. Todo esse contexto só contribui para uma vivência desconectada, como se uma força externa estivesse constantemente impedindo um mergulho, nos lembrando de todas as outras possibilidades que estamos perdendo e nos condenando a uma eterna meia presença. No entanto, as tecnologias não criaram um mal, apenas souberam ler as nossas tendências, apenas realçaram algo que já estava presente. Ou seja, não acredito que baste baixar um app de mindfulness e sair abraçando árvores. Talvez até ajude, mas há algo mais estrutural que vale a pena investigar - um modo de ser culturalmente enraizado. |
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Nessa segunda parte, falaremos sobre “salto de fé”. O próprio termo já dá pistas do seu conteúdo. Salto pressupõe uma lacuna a ser superada, um vão entre você e outro lugar. Um percurso não-linear, impossível de se atravessar com passos seguros, colocados um à frente do outro. Eis a dificuldade – sair da previsibilidade e saltar sobre o desconhecido. Afinal, normalmente interagimos a partir da razão, da nossa capacidade de analisar e avaliar, medindo as probabilidades de êxito dos próximos passos. Só que muitos caminhos das nossas vidas não se mostram por completo como uma trilha plana em dia ensolarado, mas se escondem numa névoa, se revelando apenas àqueles que se aventuram bruma adentro. Então, basta ter coragem, desapegar dos medos? Essa pergunta em si já é meio contraditória, afinal, se alguém se desapega do medo, o ato já não requer mais muita coragem. Enfim... não, não acredito que a solução seja ter mais coragem. Além disso, se estamos falando de salto de fé considerando o problema de desconexão e falta engajamento, não me parece que enfrentar os medos endereça o cerne da questão. Além disso, não acredito que coragem se torne acessível a partir de escolha. Se assim fosse, viveríamos num mundo repleto de pessoas corajosas. Quando agimos com coragem, agimos mobilizados por algum sentido. Algo precisa nos mover a ponto de nos aventurarmos em terrenos desconhecidos. Há uma interessante noção que vai ao cerne desse tema: verdade como relação. Kierkegaaard traz o exemplo da existência de Deus. Segundo ele, não importa se ele existe ou não. O que importa é a minha conexão com ele (ou ela). Mais relevante é saber se a minha relação é verdadeira (mesmo que eu esteja me relacionando com algo que não seja verdadeiro). O foco da “verdade” passa do objeto para a forma de se relacionar. No fundo, ele está falando sobre comprometimento, sobre acreditar mesmo antes de ter evidências disponíveis, sobre se apropriar do conteúdo. Segundo Rollo May, comentando Kierkegaard, “a verdade se torna realidade somente quando o indivíduo a produz em ação, o que inclui produzi-la em sua própria consciência”. Comprometimento com a verdade precede o aparecimento de tal verdade. De acordo com o mesmo autor, o pai da psicanálise teria constatado que muitos dos seus pacientes que trabalharam traumas sexuais em terapia na realidade fabricaram esses eventos em suas imaginações. No entanto e segundo Freud, a relevância não vinha do fato de o abuso ter ocorrido ou não, mas de como aquela pessoa se relacionava com o tema. A crença no abuso gerava efeitos reais, assim como a fé religiosa mencionada acima. O objeto (a existência de Deus) deixa de ser o foco e o que passa a importar é a forma com a qual você se relaciona. |
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Esses dias, acabei ouvindo o seguinte trecho lido de uma carta do Oráculo do Pão: Fé Confiar no que não se vê e não se conhece. Caminhar com firmeza na escuridão na certeza de que alguém guia nossos passos. Acreditar no que não se compreende. É a força que nos impulsiona, nos protege, nos cura. Acreditar no que não se compreende. Acho que é disso que se trata, de uma diferenciação entre fé e compreensão, da capacidade de seguir em frente a despeito da falta de evidências. Ou melhor, da falta de evidências passíveis de consenso. John Stewart – outro autor que comenta Kierkeggard – fala sobre o paradoxo da fé. “Kierkegaard acredita que o cristianismo nunca poderia ser compreendido pela mente humana ou ser explicado por uma pessoa a oura. Em vez disso, ele deve ser simplesmente aceito pela fé na interioridade do coração.” Não é algo passado de cima para baixo, como doutrina, mas algo que se compreende internamente. Ou seja, não importa se existem evidências. Algumas questões existenciais não são passíveis de mensuração e sem fé acabamos ficando com um pé dentre e outro fora, na espera de indícios concretos. Esse é o ponto que amarra os dois temas – para que haja conexão, precisa haver fé. Não crença religiosa, mas crença naquilo que te move. Você precisa acreditar no que faz, se conectar com um sentido de base. Sendo que em questões mais pessoais e menos mensuráveis, essa força não surge a partir da razão, da análise e avaliação, mas de um salto, da capacidade de criar verdade no próprio agir. A nossa tendência de viver a partir da razão, da nossa capacidade de avaliar e julgar, acaba nos distanciando da fé. Relegamos corpo, intuição e emoção a um status secundário como se fossem menos confiáveis que a razão. Apesar de ter proporcionado muitos avanços, esse modo de ser acabou nos condenando a uma lida fria e distanciada. Quanto mais nos aproximamos da nossa própria experiência, mais percebemos que algumas questões não são objetivas – ou seja, não se trata do “que”, mas do “como”. Como eu lido com esses temas, quão investido eu estou, o quanto eu acredito.... |
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Pedro Cirri pcirri84@hotmail.com |
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