Pedro Cirri

NEWSLETTER XII - 26/09/2022 
Suspensão
 
 
 
Sabe aquela sensação de pouca familiaridade com o entorno, aquela demora em se situar, em conseguir entender as imagens?
 
Tudo parece ganhar destaque, como se cada elemento tivesse algum aspecto singular,
diferente daqueles vistos anteriormente.
 
É assim que eu me sinto quando viajo. Tudo parece desencaixado, novo, estranho e, ao mesmo tempo, impactante. Não chega a ser uma tristeza, mas algo é alterado, exatamente como descrito nessa citação que encontrei no livro da Jhumpa Lahiri:
 
“Toda vez que meu entorno muda, sinto uma enorme tristeza. Não é um sentimento que aumenta quando eu deixo um lugar ligado a memórias, sofrimento ou alegria. É a mudança que me deixa inquieto, como um líquido que se torna opaco e nebuloso quando agitado dentro de um recipiente.
 
O mais curioso é que essa ausência de familiaridade se antecipa à viagem e já se faz presente na véspera. Por um dia, me sinto em suspensão, mesmo que ainda não tenha partido.
 
Nada mudou, continuo na minha cidade, seguindo a minha rotina, só que cada instante parece peculiar e não classificável.
 
Até o detalhe que antes passaria despercebido ganha um brilho de novidade.
 
Por coincidência (ou não), também comecei a ler o primeiro volume de “Em Busca do Tempo Perdido” de Proust e, logo nas primeiras páginas, uma passagem parecia falar sobre o que a viagem altera, sobre uma rigidez de olhar que ela acaba suspendendo.
 
“A imobilidade das coisas que nos cercam talvez lhes seja imposta por nossa certeza de que essas coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento perante elas.”
 
A rotina domestica o olhar e dá tons de previsibilidade àquilo que vem ao nosso encontro. Com o tempo, vamos perdendo a capacidade de nos entusiasmar com elementos cotidianos, vamos ganhando mais certeza, envelhecendo, enfraquecendo os laços com a vida. Afinal, não há nada mais frio e sem pulso do que uma existência que não se surpreende pelo supostamente simples.
 
Lembro dos anos em que eu advogava, lembro da maneira assertiva com qual eu discorria sobre os assuntos, abrindo pouco espaço para dúvida. Nessa época, as viagens não tinham esse efeito de suspensão para mim. Pelo contrário, se adequavam a uma concepção prévia sobre o que era viajar, uma concepção rebuscada e cheia de condições para me satisfazer.
 
As viagens, atualmente, – até as mais simples - parecem reavivar a riqueza dos detalhes e resgatar a verdade que por vezes se obscurece – a de que eu conheço muito menos do que imagino, de que estou sendo levado ao invés de conduzir. É algo que me aproxima da gratuidade da vida, ou melhor, da apreciação da gratuidade da vida. Nada é pedido em troca. Um lapso infinitesimal entre dois longos vazios. Um presente que quase nunca agradecemos, pelo qual raramente estamos gratos.
 
Como não estar grato por algo gratuito que é a possibilidade de todas as possibilidades?
 
São essas ilusões de conhecimento e controle que me anestesiam, que afastam o contato com a beleza passageira e encurtam a amplitude das minhas sensações.
 
Parece haver uma ligação entre esse olhar entusiasmado, aberto, quase infantil e um acesso mais real às sensações, como se a suspenção das convicções intensificasse a vivência.
 
Já no aeroporto, vendo todas aquelas pessoas diferentes, os quiosques de comida, as lojas, os infindáveis destinos nas telas espalhadas pelos saguões, sinto esse olhar curioso ganhando espaço.
 
Acho que quanto menos mediamos a vida pela razão, quando menos interpretamos cada instante, quanto mais deixemos com que eles falem por si - mais frequente se torna o regresso às sensações do nosso passado.
 
Parece que o mundo sensorial não se sujeita à linearidade temporal que distancia o antes do agora.
 
Muita coisa que vejo acaba funcionando como lembrança do que já vivi – mesmo que não tenham relação direta com aquele local. Não se trata de lembranças provocadas pelo pensamento, não seguem uma lógica. Elas vêm de supetão, a partir de um cheiro, de um som...
 
É estranho, mas essa suspensão de convicções e essa abertura para o que se mostra, como se estivéssemos vendo tudo pela primeira vez, parece criar um acesso mais intenso às sensações, a um campo onde passado e presente se misturam e coexistem. Um simples estímulo nos permite reviver um momento já apagado pela nossa consciência. 
 
Depois de sair do aeroporto, pegar o trem e chegar ao hotel, me deparei com esse trecho de Proust:
 
“Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles a quem perdemos se acham cativas em algum ser inferior, em um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, efetivamente perdidas para nós até o dia, que para muitos nunca chega, em que nos sucede passar por perto da árvore, entrar na posse do objeto que lhe serve de prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e, logo que as reconhecemos, está quebrado o encanto. Libertadas por nós, venceram a morte e voltam a viver conosco. 
 
É assim como nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-los, todos os esforços de nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca.”
 
Talvez não só do acaso, mas acho que essa abertura, esse postura curiosa é essencial para que os objetos do cotidiano evoquem o nosso passado, evoquem as sensações do nosso passado.
 
Acredito que esse regresso involuntário, que rompe a temporalidade convencional e
transcende a racionalização, nos aproxima do que é estar vivo. Há muito mais do que a
narrativa mental que mantemos sobre a vida. O intelecto, conquanto maravilhoso, acaba nos aprisionando, principalmente quando insistimos em classificar aquilo que vem ao nosso encontro, adequando o novo ao já conhecido.
 
A possibilidade de reviver (não imaginar, mas reviver) uma situação da qual você sequer se lembrava mostra como a vida é muito maior do que a compreensão racional, do que uma história que mantemos sobre nós.
 
Esses momentos de suspensão servem como um bom lembrete sobre o presente que é viver. 
 
Sem leviandade, sem ignorar os percalços, mas colocando tudo isso na perspectiva mais crua que há, de que logo não estaremos mais aqui e que tudo isso é gratuito. Até a dor.
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
Pedro Cirri
pcirri84@hotmail.com