Pedro Cirri

NEWSLETTER XIII - 10/10/2022 
Transformação, Experiência e Humildade.
 
 
 
Há uma bela noção de experiência que encontrei num dos livros de Alice Holzney-Kunz.
Experiente não é alguém com uma extensa vivência, mas quem se permitiu mudar de opinião, quem abriu espaço para que novos eventos contrariassem suas concepções prévias.
 
Se tornar experiente é ser mobilizado por acontecimentos e, como consequência, mudar o lugar a partir do qual se enxerga o mundo.
 
Ser mobilizado por algo não corresponde ao ato de se direcionar a algum novo lugar por sua própria iniciativa.
 
É essa diferença que carrega, a meu ver, a essência de processos de mudança. Eles não são resultados de vontade. Eles acontecem.
 
Sinto certa legitimidade para falar sobre isso, não por ter dominado a doutrina sobre o tema, mas por ter vivenciado uma grande mudança. Não só profissional, de hobbies e de estilo de vida, mas de maneira de enxergar as coisas.
 
Quando olho para trás, não sinto que foi algo que escolhi. Parece que o processo me escolheu. Soa estranho e místico, eu sei. Mas achar que processos de mudança são resultados de um planejamento de sair do ponto A e chegar ao ponto B também soa estranho. Não místico, mas ingênuo.
 
Se assim fosse, processos terapêuticos que ganharam expressão na década de noventa como Tethahealing e outros métodos do estilo “new age” seriam suficientes para realizar uma transformação. Sabemos que não é assim – por mais que cada uma dessas técnicas possa ter um enorme valor.
 
O mesmo ponto se aplica à psicoterapia. Quantas pessoas não passam anos repetindo o
mesmo padrão apesar de semanalmente encontrarem uma psicoterapeuta?
 
Eu passei mais de cinco anos frequentando um consultório sem que quase nada mudasse. Claro, conseguia nomear um ou outro comportamento, mas parava por aí. Meus maiores medos sequer eram verbalizados. Quando a conversa começava a se aproximar de algo espinhoso, eu mudava o assunto com uma piada. “Me fala um pouco sobre você, a gente passa todo esse tempo aqui só falando sobre mim...”
 
O curioso dessa transformação que me ocorreu é que ela foi profetizada por uma mulher um tanto quanto peculiar. Halu Gamashi.
 
Amiga de longa data do meu pai, passei a frequentá-la por um tempo. Não lembro muito o porquê.
 
Halu é paranormal – dessas pessoas com uma sensibilidade diferente da nossa, que acessam informações por meios não usais. Não sei de que maneira, mas ela sabe de coisas precisas sem nunca ter tido contato com a matéria. Adivinha fatos específicos sobre quem ela nunca viu, intui o que as pessoas estão sentindo e, de certo modo, prevê o porvir.
 
Enfim, quando eu tinha dezesseis, Halu disse para o meu pai: “Pedro vai passar por uma
mudança muito forte na sua vida e isso pode ser feito de uma maneira que não gere tanto estrago.... se ele souber se trabalhar.”
 
Meu pai acabou me contanto sobre essa “profecia”. Eu desdenhei com um “pfff, que coisa mais genérica”. Ele logo me lembrou das coisas que já tínhamos visto ela fazer. Não dei o braço a torcer, pelo menos não ali na sua frente.
 
No auge da minha adolescência e já levando aquela possibilidade um pouco mais a sério, pensei “será que eu vou começar a gostar de homens? Que outra mudança relevante haveria?”.
 
Não foi na esfera sexual, mas essa mudança realmente aconteceu. E não foi qualquer
mudança.
 
Começou com um estranhamento que eu logo abafava. Sentia uma angústia, uma sensação que se manifestava fisicamente, apertando o meu peito. Era algo que eu ainda não conseguia nomear, mas que de algum modo eu percebia que era estrutural – principalmente por surgir em momentos diversos, até naqueles que deveriam ser leves e gostosos.
 
Não se tratava de algo pontual na minha vida, de algum problema que precisava ser resolvido.
 
Afinal, eu tinha um cargo legal num baita escritório de advocacia, estava rodeado de amigos e morava com uma mulher simpática, divertida, linda, e que me amava. Viajava com frequência, tinha uma relação relativamente saudável com a minha família, praticava esportes e estava bem satisfeito com a minha aparência física.
 
Ainda assim, algo me incomodava e eu fazia de tudo para afastar esse incômodo.
 
Essa decisão de abafar o ruído não era consciente, mas provavelmente derivada da intuição de que eu não teria condições de lidar com as mensagens daquele desconforto. Por não ter condição, me refiro a um potencial de desorganizar, desestruturar.
 
Acredito que há uma autotutela não consciente – que não necessariamente está sempre certa, mas que claramente opera a partir de premissas tiradas da nossa bagagem biográfica. Isso, no fundo, é apenas outro modo de descrever o “lugar a partir do qual eu enxergo as coisas”.
 
Há algo da ordem do rígido vs fluído nessa questão. Não é à toa que tonalidades de rigidez se fazem presentes nessas pessoas que normalmente não mudam. São sempre muito certas de si, falam como se o futuro tivesse pouca capacidade de nos surpreender. No fundo, trata-se de uma tentativa de ignorar o fato de que tudo é mais aleatório e caótico do que gostaríamos de crer. Algumas pessoas são bem-sucedidas nessa tentativa de não se deixar levar pela maré, de manter as bases do lugar a partir do qual falam. Mas a que custo? Insônia, ansiedade, uma constante inquietação, ataques de pânico...
 
Novamente, não estou tratando disso como se fosse escolha. Não acho que mudamos por escolha.
 
No entanto, algumas coisas podem nos aproximar de um estado de menos rigidez e esse estado de menos rigidez pode nos aproximar de uma mudança. Agora, se ela vai acontecer ou não...
 
No meu caso – e ainda tenho um longo caminho – foram a yoga e a meditação que começaram a me mostrar um modo diferente de estar no mundo.
 
A recorrência da prática foi me mostrando que eu era capaz de suportar desconforto. Claro, mostrando corporalmente – mas se não nos atermos à diferenciação entre mente e corpo, podemos dizer que eu fui (como um todo) aprendendo a sustentar o desconforto. Afinal, posturas de yoga tendem a ser exigentes.
 
As sessões de terapia passaram a ser menos esquivas. Não por decisão minha, mas como consequência de uma postura mais aberta – pré-reflexivamente mais aberta.
 
Essa tolerância ao aprofundamento permitiu com que os incômodos pudessem ser nomeados com mais clareza. O ato de nomear dá contornos ao que sentimos, de modo que quando esses sentimentos voltam, fica mais fácil de identificá-los e de entender os seus gatilhos.
 
São nesses momentos de encarar seus maiores medos em que fica mais evidente que a
existência não se opera por processos racionais. Você é mobilizado pelas emoções que te atravessam. Não se trata de um amplo livre-arbítrio. Afinal, de antemão temos possibilidades que são abertas e outras que são fechadas, que simplesmente não aparecem. Hoje, entrar para a Igreja, praticar alguma arte marcial ou me matar não são possibilidades que se apresentam para mim. Eu sequer reflito sobre. Por outro lado, treinar mergulho de apneia, cursar um mestrado em filosofia e fazer um retiro de vipassana são coisas que se mostram como possíveis.
 
Certos eventos ou atividades nos colocam num lugar com maior chance de algo ocorrer, de alguma mudança começar a quebrar nossos padrões. O que significa que possibilidades até então fechadas passem a se abrir. Antes de começar a praticar yoga, me demitir não era uma possibilidade.
 
Acredito que a recorrência em “modos de ser” diferentes do nosso padrão ajudam a flexibilizar a rigidez, nos aproximando de uma capacidade de dançar conforme a música. Por mais que transformações não possam ser planejadas e implementadas, empreender atividades fora do habitual tem o poder de fazer com que nos sintamos de forma diferente, com que enxerguemos o mundo de um outro ângulo. Esse “desvio”, por mais temporário que seja, mostra que o nosso padrão é apenas um modo e, potencialmente, reduz a nossa identificação, abrindo espaço para transformações. Que podem ou não acontecer.
 
São essas tomadas de risco, esse se lançar em algo novo, que têm a capacidade de te tornar uma pessoa mais experiente, ou seja, menos apegada à sua própria maneira de enxergar as coisas, mais aberta a mudar de opinião. Experiência tem uma forte relação com humildade.
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
Pedro Cirri
pcirri84@hotmail.com