Ainda tínhamos uma hora até o embarque. Estávamos no aeroporto de Porto Seguro, esperando o voo para São Paulo. Aquele aeroporto que sempre está prestes a ser substituído por um novo. Aquele mesmo em que eu desembarcava com o aviso de “menor desacompanhado” pendurado no pescoço, segurando a mão de uma aeromoça a contragosto, morrendo de vergonha por ser tratado como uma criança mentecapta incapaz de achar o próprio pai naquele cubículo.
Meus irmãos e meu cunhado entraram no espaço exclusivo de um dos cafés. Na verdade, o café era um pequeno balcão e havia uma sala ao lado com ar-condicionado e quatro mesas que também funcionava como estoque do estabelecimento. Vi de longe, pois eu já havia comido um pão de queijo borrachudo e tomado um café amargo enquanto eles cometiam a heresia de despachar a bagagem de uma viagem de seis dias.
Em poucos segundos, me juntei a eles naquele espaço refrigerado. Puxei uma cadeira e um assunto, mas logo caímos no silêncio. Não rendeu. As frases exigiram esforço e o diálogo minguou. Dá para sentir quando alguém fala com esforço. Não vem de dentro. A boca fala sozinha como se a mensagem tivesse nascido nas cordas vocais e não no coração, tampouco nas entranhas.
Aliás, aquela foi uma viagem de conversas instáveis. Papos que duravam pouco em seu estado natural e logo se dissipavam pelo ar. Acho que suas fórmulas não interagiam bem com o ambiente. Eram forçadas, sintéticas, construídas para preencher as lacunas.
Foram dias que se arrastaram, dias em que o prazer dava lugar a um anseio por atravessar o tempo da forma menos incômoda possível. O prazer sequer surgiu como uma possibilidade.
Saí do café e passei pela vitrine de uma loja de pedras. A cada volta para São Paulo, eu compro uma nova que se soma à pequena coleção. Depois de escolhê-la, busco o seu significado em algum site duvidoso. Fico intrigado para saber se aquele minério tem relação com a minha temporada no sul da Bahia. Na maioria das vezes, acabo me desanimando com as mensagens vazias que encontro na internet, mas... numa única ocasião, as características da pedra caíram como uma luva para o que eu estava vivendo.
Comprei a primeira que chamou a minha atenção. Diopisidio. Verde acinzentada. Abri o primeiro site que surgiu na pesquisa do Google. Vago. Sobre afastar energias negativas – o que eu imagino seja a premissa de qualquer coisa esotérica. A segunda era curiosamente específica: uma pedra que traz humildade e serve para entender a intenção por trás das atitudes. Como consequência, ajuda a evitar conflito, pois te permite atravessar o ruído e acessar a essência daquilo que foi comunicado – por mais torto que tenha sido (isso já é contribuição/projeção minha).
Expliquei o meu ritual aos meus irmão e ao meu cunhado. Minha irmã leu e ficou impressionada, já o meu irmão entortou a boca e disse que se fosse outra pedra eu também acharia alguma descrição que se encaixasse na minha experiência.
Meu primeiro ímpeto foi responder que qualquer quadrúpede que se protege atrás de uma frágil racionalidade conseguiria elaborar essa linha de pensamento, mas, em parte, eu concordo com ele.
Meu irmão tem razão, mas é uma razão pobre.
Kierkegaard dizia que a existência de Deus era irrelevante para a sua fé. O que importa é a conexão, o salto, afinal, a verdade é relacional e não objetiva. É como você se relaciona, não com o que você se relaciona.
Dá para dizer que a conexão entre os “poderes” da pedra e a minha temporada no sul da Bahia é falaciosa, resultado de um viés de confirmação. Claro. Somos cheios de pontos-cegos e influenciadas por inúmeras variáveis que sequer notamos. Mas não importa. Não para esse tipo de situação em que não estou tomando nenhuma decisão relevante.
Não é sobre me manter esperto e não ceder a crenças de bases frágeis. É sobre me sentir menos isolado e em constante comunicação com o meu entorno. Me sentir aberto a mensagens que podem surgir de elementos cotidianos.
Se há uma relação entre a minha escolha da pedra e o que eu estou vivendo, eu não sei. Mas essa abertura certamente me faz pensar mais a fundo sobre o que eu vivi nessa temporada baiana. Esse é o ponto – me sentir ligado ao meu ambiente por algo que transcende a mera materialidade.
As músicas que escuto, os livros que leio e até as pedras que compro servem como material para reflexão. E, no fundo, não apenas para reflexão, mas para sentir com mais intensidade.
Se há de fato algo pré-reflexivo e energético influenciando minhas escolhas.... não sei, mas seguindo a lógica de Kierkegaard, não importa.
Segundo Rollo May, “a verdade se torna realidade somente quando o indivíduo a produz em ação, o que inclui produzi-la em sua própria consciência”. Comprometimento com a verdade precede o aparecimento de tal verdade.
E aquela pedrinha esverdeada tinha relação com a minha temporada. Passei seis dias numa desagradável tensão com o meu pai. Uma tensão diferente das anteriores, que eram silentes e varridas sob o tapete. Dessa vez, os incômodos foram verbalizados e, exatamente por isso, ficaram reverberando no grupo e não apenas em mim.
É provável que a minha escolha da pedra tenha sido aleatória ao invés de guiada por algo que foge de uma compreensão racional, mas eu gosto de acreditar que há algo em jogo. E é essa crença que aprofunda meu contato com as questões.
Tomaria decisões importantes baseadas apenas em intuição? Jamais. Isso seria virar a cara para os inúmeros estudos de psicologia comportamental. Mas isso não quer dizer que preciso viver meu dia-a-dia desconectado de qualquer magia, como um ser pensante alheio ao meu entorno, usando os elementos cotidianos por suas meras funcionalidades, cego e surdo às “coincidências”.
Tudo é material para análise e as coisas certamente estão mais conectadas do que imaginamos. Talvez não seja no nível abraça-árvore-gratiluz que quer negar o ego numa trip paradoxalmente egóica. Não. Só de ouvir essas pessoas, eu já me vejo migrando para o discurso cético.
É questão de ampliação ou restrição do diálogo com o entorno. Seguindo a lógica da fenomenologia, que considera a existência como responsiva aos campos de possibilidade disponíveis em cada abertura de mundo, podemos dizer que é uma questão de apurar a escuta para aquilo que te convoca. Em outras palavras, considerando que a existência responde àquilo que aparece como possível para cada indivíduo (ao invés de entender o ser humano como autônomo e dotado de um puro livre-arbítrio), trata-se de afinar a escuta, de ampliar o leque para abranger diferentes frequências. A pedra poderia não me trazer nenhuma reflexão se eu a encarasse como apenas um objeto desprovido de qualquer sentido, mas ao me abrir para mensagens mais “místicas”, acabo me aprofundando no que se passou nesses seis dias na Bahia.
Afinal, se trata de sincronicidade ou autoengano? Não importa. Se trata de uma atitude perante a vida. Se trata de “como”, não do “quê”.
Talvez você tenha lido essa newsletter e se perguntado, mas por que não usar essa lógica também para tomada de decisões estruturais? Por que apenas se abrir para esse “misticismo” em coisas mais cotidianas? Por que usar aspas quando se refere a assuntos não suportados por uma racionalidade? Esse é um bom ponto, (imaginário interlocutor). Se é sobre o “como” e não o “quê”, em tese também seria sobre como eu lido com a decisão uma vez que ela já foi tomada, mesmo que racionalmente ela não tenha sido eficiente, mesmo que numa lista de prós e contras, ela se mostre subótima (para usar o jargão dos céticos/cabeçudos).
É um bom ponto e eu certamente ainda me protejo e desdenho de discursos “místicos”. Mas não acho que seja tão lá ou cá.
Sim. Dá para defender essa linha também para decisões estruturais. Só que o universo amostral que temos a nossa disposição – pessoas que se escondem atrás de atitudes esotéricas para não lidar com a complexidade dos próprios sentimentos – indica que é um campo escorregadio. É uma postura convidativa à fuga, a virar a cara para a nossa própria sombra. Tão fácil falar em “aceitação” quando vivemos nos esquivando do nosso lado mesquinho ou falar em impermanência quando vivemos apegados. A vantagem da postura racional, das listas, do sopesamento, é que te faz encarar os aspectos de frente, te obriga a nomear o que está em jogo. Aí, a fuga fica mais difícil.
Ao mesmo tempo, racionalidade também pode funcionar como proteção, como modo de evitar uma entrega.
Difícil...
Namastê.