Pedro Cirri
 
Liberdade Negativa
Newsletter XXXVII - 13.12.2023
 
Sobravam uma ou duas colheradas da moqueca que dividíamos. Aquele final que costuma se prolongar num limbo até que o transcurso de um tempo mínimo torne a próxima investida um gesto esperado ao invés de um avanço afoito e mal-educado. Esse momento de indefinição sobre as últimas bocadas de uma porção superestimada pelo garçom invadiu a mesa, suspendendo o diálogo.  
 
Pode ser também que já não tínhamos mais o que conversar. Ou pelo menos não de forma espontânea, em que os assuntos brotam de dentro sem intermediação da mente. 
 
Tinha sido, até então, bem-sucedido em evitar aquelas perguntas que quando lançadas escancaram a natureza do encontro, afastando qualquer narrativa ilusória, qualquer falsa pretensão de que aquele era um almoço entre amigos. Não. Era uma refeição entre colegas. 
 
Quando as perguntas são pescadas num reservatório mental de assuntos clichês com a mísera função de preencher um vazio, você se arrepende de não ter inventado uma desculpa ou de não ter abrasileirado ainda mais a resposta ao convite com um “vamos marcar, claro.... vamos nos falando”. 
 
E o casório, como vai? – perguntei já resignado com o nosso recém revelado coleguismo. 
 
Tudo certo! Em geral, a gente se dá super bem. Uma briguinha uma vez ou outra. 
 
Silêncio. 
 
Olhei para a moqueca, avancei minha mão até o centro da mesa, segurei a colher entre o indicador e o polegar, apontei o cabo em seu sentido e ergui uma das sobrancelhas. Ele fez um não com a cabeça e ergueu a mão à meia altura, lavando-a em minha direção, num gesto de “siga em frente”. 
 
Me servi aliviado. 
 
Continuamos em silêncio. 
 
Pensando em ter filhos? – procurando qualquer pretexto para não comer aquela última porção sob a observação atenta de um colega. 
 
Cara, tinha muita vontade. A gente tinha muita vontade
 
Eu não estava prestando muita atenção na resposta. O último montinho de arroz e molho contava com um dos poucos pedaços do calamari frito que acompanhava o prato. Ainda estava crocante. 
 
Ainda assim, a continuação daquela fala pouco chamativas acabou me levando a dias de ruminação e a essa Newsletter.   
 
Após passarem uma semana de férias com a irmã, cunhado e o filho recém-nascido, desromantizaram a maternidade. As olheiras que, segundo ele, faziam com que ela mais parecesse um membro da Família Adams do que sua irmã caçula, o mau humor e a atenção fugidia de quem não dorme há meses guilhotinaram o projeto de herdeiro. 
 
Ela não tem mais vida. Está exausta. Miserável. É isso.... não queremos abrir mão das nossas vidas. As coisas estão bem do jeito que estão
 
Fiquei ouvindo e fazendo movimentos afirmativos com a cabeça. Que hipócrita!! E se os seus pais tivessem pensado dessa forma? Você não estaria aqui... não teria comido dois terços da moqueca e subido no pedestal do altruísmo para me “oferecer” a última colherada como quem reduz a velocidade bem em cima da faixa e faz aquele gesto magnânimo com a mão, abrindo o mar vermelho para o pedestre passar.  
 
Sim... faz sentido. Quem bom que percebeu isso logo
 
Não demorou para eu sacar que penso da mesma forma. Que minha enorme hesitação vem desse mesmo lugar, do medo de perder a liberdade, de relegar as minhas prioridades aos curtos intervalos de um tempo que já não é mais apenas meu. Tem tanta coisa que eu ainda quero fazer. Tanto lugar que quero visitar. Tanto tempo que eu preciso gastar pensando no que eu gostaria de fazer, mas acabo não fazendo.
 
Sob essa ótica, procriar soa quase como uma temporária incapacitação física. 
 
Algo mudou das gerações anteriores para cá. 
 
Suspeito que a análise da socióloga Eva Illouz explique esse fenômeno. (E você já estava achando que esse texto seria mais literário e sem citações...)
 
Claro. A análise do Baumam, que as pessoas amam ecoar pelas mesas de bar, também toca nesse tema, mas acredito que essa brilhante socióloga traz um olhar novo e até mais interessante. 
 
Logo no início, ela faz uma autocrítica ao denunciar um ponto cego da sociologia. Segundo ela, esse campo de estudo sempre esteve preocupado em combater a visão do liberalismo que colocava em primeiro plano o poder de decisão e a racionalidade do ser humano. Os sociólogos buscavam demonstrar que somos seres de hábito e reféns dos nossos contextos e, portanto, sujeitos a uma liberdade condicionada. 
 
Obviamente, não é esse ponto que ela disputa, mas o fato de que boa parte dos sociólogos não compreendeu que, no capitalismo pós-industrial, escolha virou sinônimo de autodeterminação. O desfazimento das amarradas de uma sociedade impositiva, com regras de conduta em relações profissionais, familiares e civis, colocou a liberdade individual em destaque. Tanto no campo econômico, quanto no jurídico, mas principalmente no psicológico.
 
Com a perda dos absolutos, identidade deixou de ser uma questão de encaixe em moldes sólidos, em que corpos maleáveis se adaptam buscando, na conformidade, um sentido existencial. 
 
As conquistas dos movimentos civis nos devolveram as rédeas da nossa própria identidade. Ou, pelo menos, assim pensávamos naquela época. Mas é exatamente esse o ponto da autora. A escolha continua ilusória e secundária. A imposição externa já não nos oprime, mas continuamos falando a fala do mundo e replicado as suas ações. No entanto algo mudou na esfera psicológica: a ideia de liberdade e autodeterminação preencheu o vácuo da extinta sociedade disciplinar.   
 
Nos nossos tempos, escolha é a gramática através da qual escrevemos a nossa subjetividade. 
 
The perspective offered here is different: while sociology has accumulated an indisputable amount of data showing that constraints of class and gender operate and structure choice from within, it remains that whether illusory or not, choice is a fundamental mode for modern subjects to relate to their environment and to their own self.” 
 
(...)
 
Choice is a practical relation one has to oneself where one aims to live according to one’s ‘true’ and ‘ideal’ self by transcending and overcoming the determinism of class, age, or gender (by getting a college degree, by undergoing cosmetic surgery, by changing one’s sexual assignation.)
 
Com as conquistas de liberdade individual, a escolha positiva (a expressão do desejo e o comprometimento com uma decisão) foi apropriada pelo sistema econômico, que criou uma arena não apenas de produtos, mas também de encontros românticos (através de aplicativos) e estilos de vida altamente disponíveis. Um enorme mercado para você dar asas às suas expressões identitárias. 
 
Só que a banalidade dessa dinâmica sugou a aura autoafirmativa das escolhas positivas. O afrouxamento de regras sociais e a fácil disponibilidade fez com que o comprometimento deixasse de envolver uma declaração de quem se é. Já não escolhemos rompendo com normas, numa afronta em que assumimos a nossa própria individualidade. Pelo contrário, a liberdade e o excesso de oferta esvaziaram a vontade manifesta de qualquer pessoalidade. 
 
Como consequência, a escolha negativa assumiu um papel de destaque. E “negativa” ou “positiva” não têm conotações valorativas, mas apenas descrevem a natureza da decisão. Escolher não escolher, não se comprometer ou se desfazer de um comprometimento, passou a ser a forma primordial de exercício de individualidade. É esse tipo de escolha que, atualmente, traz consigo uma atmosfera de autodeterminação, de preservação de si e até de autocuidado. 
 
É nesse cenário - no qual afirmação da sua própria subjetividade se confunde com não-comprometimento -, que entrar num relacionamento e, principalmente, ter um filho soam como perda de liberdade e, em última instância, perda de si. 
 
Como se a preservação de si dependesse da manutenção de todas as possibilidades ali disponíveis...
 
Nos tornamos alérgicos a compromisso e entrega, regredindo a um modo de estar no mundo cada vez mais adolescente. 
 
Para dar um pouco mais de complexidade ao assunto e afastar a noção de que fomos acometidos por um surto infantil, essa postura de abstenção é também reflexo do nosso contexto. 
 
As conquistas por liberdade condenaram os rituais sociais ao ridículo e démodé. No entanto, eram exatamente essas regras (como o cortejamento) que davam previsibilidade às relações. Por trás da teatralidade dos atos, havia toda uma trama de significados que garantia aos participante segurança em relação aos próximos passos. 
 
O derretimento dessa trama atiçou a nossa aversão a risco. 
 
Se relacionar se tornou mais desafiador tanto pela incerteza sobre as regras do jogo e sobre as intenções dos jogadores, como pela sensação de perda de individualidade. Num mundo permissivo, nenhuma escolha parece afirmar a sua identidade, pelo contrário, parece privá-la da futura possibilidade de exercer essa identidade.
 
Não se trata de um saudosismo reacionário. A autora apenas se propõe a estudar as interações atuais sob a ótica da liberdade negativa, sem formular juízos, mas ainda assim tentando entender as suas consequências. 
 
E todos conhecem bem essas consequências. Nunca nos sentimos tão sozinhos, desconectados e sem propósito. #Newslettermotivacional 
 
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
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