Pedro Cirri
 
Eros e Agape
Newsletter XXXVI - 16.10.2023
 
A organização das linhas de produção com as infindáveis peças enfileiradas em direção ao próximo posto de soldagem. A robustez da indústria elétrica e de seus imponentes postes de transmissão. O aspecto reluzente, sem desgaste e sem imperfeições do maquinário das montadoras de veículos. Tudo isso remetendo ao progresso, à fartura, à perspectiva de melhoria de condições de vida. Sinalizando um promissor compartilhamento dos avanços proporcionadas pela tecnologia, pelo aço, pelos engenheiros de jaleco branco e pelos trabalhadores disciplinados que aprendiam a operar esses complexos instrumentos.  
 
É interessante como bons fotógrafos são capazes de capturar uma atmosfera em cenas estáticas. Conseguem transmitir o contexto se valendo de poucos elementos. 
 
Fui com o meu pai ao IMS ver a exposição do Hans Gunter Flieg. Na verdade, o Instituto Moreira Salles já tinha virado um programa padrão ao qual recorremos quando ele está em São Paulo e nos falta criatividade. Ao chegarmos lá, só havia uma sala aberta ao público.  
 
Entre as décadas de cinquenta e setenta, Flieg fez trabalhos comissionados por grandes indústrias, trabalhos contratados para retratar um avanço civilizatório em forma de máquinas (para a época) modernas. Foram fotografias nesse estilo que a curadoria do IMS selecionou para a exposição “Tudo que é Sólido”.
 
Além das gigantescas máquinas com seus painéis de controle que remetiam a filmes de ficção científica, ele também fotografou os parques industriais que as abrigavam. Dentre eles, a antiga fábrica Duchen, projetada por Niemeyer e cujo projeto arquitetônico foi vencedor na Bienal de São Paulo de 1951. 
 
Pelo texto ao lado das fotos, descobrimos que aquela fábrica havia sido demolida na década de noventa. Provavelmente para a construção de um parque industrial que otimizasse o espaço e permitisse uma maior produtividade com menos custo. 
 
Como de hábito, fizemos comentários que flertam com uma síndrome dos anos dourados, criticando o contemporâneo e enaltecendo o passado. Acho que com certa razão, mas uma razão que não captura o contexto maior, que não compreende as mudanças epocais. 
 
Alguns dias após a ida à exposição, estava sentado no sofá de casa folheando um livro de fotografias de construções “cósmicas” em países da extinta União Soviética. As fotos estão separadas tematicamente: construções atreladas à ciência, esporte, entretenimento, repartições governamentais, etc. Apesar da diferença na função de cada estabelecimento, todas impressionavam não apenas pelas dimensões, mas pelos desenhos pouco comuns. Claramente não haviam sido construídas apenas para atender ao uso ao qual se destinavam. Tais obras se justificavam por atender a uma demanda de época. Foram feitas para impactar, para reforçar uma atmosfera ideológica, para mostrar a solidez e potência de um estado, para lembrar o público de que eles pertenciam à União Soviética, de que antes de serem maridos, esposas, pais, mães, filhos ou amigos, eles eram membros de uma comunidade.  
 
Independente das distinções políticas entre os soviéticos e as empresas que se instalaram em solo brasileiro, as fotos de Flieg remetem exatamente a essa simbologia.
 
A modernidade do maquinário, a grandeza dos parques e a quantidade de funcionários aludiam a algo sólido e confiável. Proporcionavam um contexto, uma narrativa cheia de sentido que estreitava o vínculo entre indivíduo e grupo – seja uma nação ou o coletivo de uma indústria.  
 
Talvez seja coincidência, mas estou lendo “The Denial of Death” de Ernest Becker – que endereça exatamente esse aspecto que eu acabei de escrever – o poder de sentidos transcendentes, do vínculo com algo maior.
 
O autor aponta a ausência desse vínculo como o principal motivo do sofrimento psicológico. Se baseando em Kierkegaard e Otto Rank, ele analisa como a transformação de um contexto epocal, o fim do absoluto, a perda de referências e a assunção de dinâmicas fugazes, deixou o indivíduo sozinho para buscar um sentido que justificasse a existência.
 
Justificar a existência não é somente encontrar um propósito, mas contornar um conflito estrutural que se dá pelo fato de termos uma consciência de nós mesmos e sabermos que vamos morrer. O incompreensível conflito entre conseguir acessar o passado, imaginar um futuro e, ainda assim, saber da nossa absoluta irrelevância. Um nada que logo se juntará à matéria orgânica do mundo. É esse paradoxo que demanda um contorno, uma saída. Não uma resolução, pois o absurdo é estrutural, inerente à existência. 
 
Camus brinca com esse problema ao dizer: “ah, meu querido, a qualquer um que esteja sozinho, sem Deus e sem um mestre, o peso do cotidiano se torna insuportável. Portanto, é necessário escolher um mestre, dado que Deus se tornou démodé.” 
 
Quando Deus não era démodé, dava para superar esse conflito com a crença numa vida posterior que recompensasse as penúrias da encarnação. A mudança de contexto epocal, a quebra de dogmas religiosos e o enaltecimento do indivíduo aproximou o desespero, aumentando a ansiedade por sentido. 
 
It begins to look as though modern man cannot find his heroism in everyday life any more as men did in traditional societies just by doing their daily duty of raising children, working, and worshipping. He needs revolutions and wars and ‘continuing’ revolutions to last when the revolutions and wars end. That is the price modern man pays for the eclipse of the sacred dimension. When he dethroned the ideas of soul and God he was thrown back hopelessly on his own resources, on himself and those few around him.” 
 
Becker enxerga a neurose como consequência da perda ideológica e espiritual. Segundo ele, o maior hospital psiquiátrico da França se esvaziou na época da revolução francesa. Todos os “doentes” puderam se apropriar de “um drama” de proporções transcendentais para dar sentido à própria existência. 
 
Na mesma linha que Sennett e Lasch, o autor aponta uma hiper autoconsciência que deixou o humano abandonado aos seus próprios recursos, resultando no “homem psicológico”. 
 
Modern man became psychological because he became isolated from protective collective ideologies. He had to justify himself from within himself. But he also became psychological because modern thought itself evolved that way when it developed out of religion.” 
 
O homem precisa sair de si para encontrar suporte. Tentar encontrar fundamento para a existência dentro da própria existência é o equivalente filosófico de enxugar gelo. 
 
Com o modernismo, a igreja perdeu seu lugar de referência. Mesmos os crentes atuais não encontram na fé um alívio existencial. As ideologias também já se foram há décadas. As bandeiras que hoje se levantam mais respondem a anseios identitários do que verdadeiras crenças em valores transcendentes. 
 
Procurar sentido existencial no outro – seja na relação parental ou amorosa – é depositar excessiva expectativa e garantir a frustração. 
 
Ao tentar encontrar em si mesmo os sentidos transcendentes que aliviem a angústia, o sujeito moderno recorre à narrativa heroica, ao olhar narcisista de quem tem certeza de que se destaca do rebanho, de que é especial. Obviamente, algo que não convence, que não desfaz o incômodo subjacente - a inquietação que atravessa o cotidiano e gera essa epidemia de desconexão, de ansiedade e depressão.  
 
Já que perdemos o absoluto, que os outros não são depósitos de carências existenciais e que a mera narrativa narcisista não convence, Becker (se baseando em Rank) propõe uma saída um pouco melhor. O uso do potencial criativo. 
 
A arte é uma expressão desse heroísmo e, ao mesmo tempo, a sua justificativa. Uma expressão da individualidade, um ato de resistência à indiferença, uma revolta contra a nossa irrelevância. 
 
No entanto, quanto mais artística a pessoa se torna, mais ela se isola, mas diferente ela se sente. E paradoxalmente, ao mesmo tempo que queremos reafirmar nosso heroísmo, nossa individualidade, queremos pertencer, encontrar num coletivo a sensação de proteção e identificação.  
 
Como saída e se aproximando de Kierkegaard, ele tenta resgatar os valores transcendes. Como a arte também é impermanente e também pode ser vista como irrelevante, um nada fadado ao esquecimento, Becker propõe o uso da força artística como presente, como empreendida não com o intuito de embasar um narcisismo infantil, a convicção de que eu sou especial, mas empreendida em prol do coletivo ou do divino. 
 
De início, isso daria a entender que é necessário resgatar um valor absoluto que caiu em desuso, que para sentir essa conexão através da arte, eu precisaria acessar uma crença - seja ideológica ou religiosa. 
 
Isso seria impossível, a orfandade não se suspende por vontade. No entanto, mesmo de início descrente, é possível estar aberto para o desconhecido. 
 
Não sou nenhum grande artista, mas nos raros momentos em que consegui escrever algo realmente literário, senti que aquilo não tinha sido escrito por mim, que eu tinha tido um vislumbre de profunda conexão com algo que não está em mim. Uma conexão com a escrita, com a compreensão de um aspecto da vida. Ou seja, o vínculo com algo transcendente não precisa anteceder a atividade, mas pode se revelar a partir dela, quando há uma verdadeira entrega. 
 
In the creative genius we see the need to combine the most intensive Eros of self-expression with the most complete Agape of self-surrender.” 
 
Estreitar sua relação com a verdade das coisas é se aproximar desse sentido transcendental, é se esquecer de si, se ver como veículo para que um texto se escreva, um quadro se pinte ou uma música se toque. 
 
No fundo, não precisa de genialidade, basta estar aberto e se conectar com a atividade, abafando os ruídos narcisistas e permitindo com que algo apareça.  
 
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
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