Estava no intervalo em frente à cafeteria e perto de um grupo composto tanto por pessoas que faziam a mesma matéria do que eu, quanto por pessoas da sala ao lado - que estavam estudando: eu, você e nós na prosa contemporânea.
Resolvi voltar a uma formação que eu já havia feito para cursar uma matéria nova sobre “as crises do romance”. Como aquela era a terceira aula, eu ainda não tinha tido a oportunidade (ou melhor, não tinha aproveitado nenhuma oportunidade) de me enturmar. Exatamente por esse motivo, resolvi descer para conversar durante o intervalo.
Todos ali cursavam ficção e provavelmente tinham intenção de escrever um romance (ficcional). Eu, por outro lado, havia cursado não-ficção e escrito um livro que dificilmente conseguiria chamar de romance e que estava mais para uma mistura entre memórias e autoficção.
Estava curioso para entender como aquelas pessoas haviam assumido uma empreitada tão difícil quanto escrever um romance. De onde elas tiravam a criatividade para desenvolver personagens e criar enredos? Mais do que isso, como elas conseguiam se manter conectadas com o projeto - algo tão imaginário, tão descolado da realidade imediata? Já tentei escrever ficção algumas vezes, mas logo me sentia longe, distante daquele mundo, até meio bobo querendo inventar algo, como se aquilo fosse uma brincadeira de criança e não me trouxesse nada de concreto.
Puxei conversa com uma menina simpática de cabelo encaracolado que gradualmente esvaziava um pacote de biscoitos globo. Me ofereceu um ao perceber meu interesse pelo polvilho, mas logo recusei ao lembrar que a embalagem vermelha era dos biscoitos doces. Perguntei qual era o seu projeto. Disse que se tratava de uma história de uma menina que deixava o Rio de Janeiro, se mudava para São Paulo, e passava por uma série de eventos transformadores.
“Hummm. Tal qual a autora, que ainda come biscoitos globo e puxa um sotaque carioca?” Ela riu de boca fechada enquanto emitia um som crocante de polvilho que ainda não amoleceu.
Fiz a mesma pergunta a um rapaz que estava à minha esquerda. Seu projeto contava a trajetória de um jovem lidando com descobertas sobre si, relatando também como as suas mudanças acabavam o afastando de sua própria família. Não fiz nenhum comentário, mas aquele enredo tinha cheiro de autorreferencial.
Claro, eles não são exceções. Boa parte dos romances contemporâneos são autorreferenciais, ou autoficcionais (para usar o termo da vez).
Passados dez minutos, voltei a subir as escadas em direção à sala de aula para discutirmos as crises na história do romance. Crises que, no fundo, parecem ser uma constante ao longo da história da literatura ocidental.
Talvez seja pela própria pretensão de captar a realidade, de transmitir numa história algo que seja verossímil mesmo quando exagerado, algo que traduza elementos da existência, elementos que transcendam e criem identificações em leitores que não pertençam ao microcosmos retratado por aquela narrativa.
É essa enorme pretensão que põem, desde o início, o romance em crise. Há sempre algo que escapa, que não se permite ser captado por palavras, algo que quando traduzido em texto, muitas vezes parece pobre, fraco, clichê.
Acho que as metáforas são as figuras que mais se aproximam daquilo que não se capta por palavras. Por não pretender dar conta e descrever de forma direta, mas tangenciar e assim transmitir similaridades, elas habitam a fronteira entre dizível e indizível.
Essa crise da literatura parece ter se intensificado nos últimos cinquenta anos, como se já não desse nem para tentar, como se qualquer romance que buscasse tratar de um dos grandes assuntos, ou seja, que realmente quisesse compreender e discutir o que é estar vivo, estivesse desde o início fadado ao rótulo de piegas. A menos, claro, que ele esteja amparado pelo “lugar de fala” ou que se resguarde sobre o guarda-chuva da ficção autorreferencial. Ainda assim, frases muito afirmativas sobre temas existenciais, que não fossem acompanhadas de uma certa ironia na própria narrativa, seriam vistas com desdém, como ingenuamente pretenciosas.
David Foster Wallace escreveu um ensaio sobre a visão que Joseph Frank apresenta em seus cinco volumes sobre Dostoievski. Nesse ensaio, ele fala sobre um ceticismo contemporâneo, uma descrença de narrativas que tentam alcançar a realidade e falar sobre amor, angústia e morte. Um nível de crítica que acaba nos afastando daquilo que impulsiona a arte – motivo, sentimento e fé. Ele usa um trecho de “O Idiota” em que o personagem principal discorre sobre o impulso de fazer o bem que, segundo ele, é inerente à condição humana, para então discutir as motivações do suicídio. Segundo Wallace, se um escritor contemporâneo criasse um diálogo com afirmações tão ideológicas, ele não geraria indignação, mas muito pior do que isso, seria lido com uma sobrancelha erguida e um riso irônico de canto de boca.
Em “A Cultura do Narcisismo”, Christopher Lasch fala sobre um impulso em direção à autoconsciência que nos leva a um excessivo criticismo e a um afastamento da imaginação necessária para se criar algo artístico.
“Romancistas e dramaturgos destacam a artificialidade de suas próprias criações e desestimulam a identificação do leitor com suas personagens. Por meio da ironia e do ecletismo, o escritor se afasta de seu tema, mas, ao mesmo tempo fica tão consciente dessas técnicas de distanciamento que passa a ter cada vez mais dificuldade para escrever sobre qualquer outra coisa que não a dificuldade de escrever.”
Nos tornamos tão autoconscientes que nos distanciamos da imaginação que nos permitiria escrever romances que não se sustentem em experiência própria.
Esse movimento ensimesmado, essa guinada para dentro numa tentativa de compreender a si mesmo tem como consequência uma excessiva autocrítica e como indesejado efeito colateral um desengajamento, um distanciamento que nos afasta de posições ideológicas e nos aproxima de uma ceticismo protegido.
Por ideológico não me refiro a algo panfletário, mas à crença, a ideias. Falta tomada de posição, bem como falta uma postura lúdica e permissiva - algo que, à primeira vista, desdenhamos como infantil, mas que no fundo é extremamente sério e repleto de sentido.
É contra esse olhar ácido de quem não se arrisca que se destinam as palavras de Lasch. No fundo, a tomada de risco sequer aparece como possibilidade, pois estamos tão tomados por uma auto-vigília que sentidos grandiosos e as crenças necessárias são vistas como rasa, aquém da nossa pseudo-intelectualidade.
Até antes de Lasch e Bauman, Sennett enxergou esse movimento em sua análise do declínio do homem público. Ele descreve uma obsessão com o nosso “eu”, nosso mundo interno, com uma existência plena de significado e autêntica. Sendo que quanto mais nos analisamos, menos autenticas as nossas ações parecem ser.
Não à toa, existem romances sobre a impossibilidade de se escrever um romance. De tão autoconscientes, escritores se recusam a usar artifícios literários que buscam captar a realidade e transmitir por palavras o que é estar vivo.
Esse excesso de autoconsciência – e aqui eu uso a expressão sem a aura positiva de nosso tempo – nos afasta de elementos lúdicos, nos afasta de uma narrativa sobre a vida, colocando sob escrutínio cada sentido que mobiliza nossas ações. Nos tornamos excessivamente críticos, protegidos, e envolvidos somente com aquilo que nos permeia, limitados a uma órbita muito próxima ao nosso umbigo.
Esse não é um tema que eu consigo elaborar de forma tão clara numa única Newsletter, mas gostaria de passar essa impressão - há uma forte relação entre as reclamações contemporâneas que aparecem no consultório e a forma com a qual lidamos com a arte.
Por mais eficientes e objetivos que queiramos ser, sempre haverá uma camada subjetiva primordial - a conexão com sentido. Você faz o que faz, lê o que lê, pois está mobilizado por um sentido. Algo que antecede todas essas ações.
Excesso de escrutínio e autoanálise coloca em xeque as nossas ligações com aquilo que nos impulsiona à ação.
A arte, sem a conexão com sentido, perde completamente o propósito. Obras literárias pedem uma entrega e nos ensinam a ter fé. A nos mobilizarmos por algo que não é tão evidente, cujo valor e benefício não estão expostos na face. Arte nos ensina uma conexão com sentidos que transcendem a superfície da vida funcional e eficiente.
A vida, em todas as suas dimensões, também envolve esse tipo de engajamento. Uma volta ensimesmada ao mundo interno com excesso de análise sobre o porquê das nossas motivações pode nos distanciar da entrega e nos levar a um lugar protegido de cinismo e desconexão.
Esse tem sido o mote das reclamações atuais. Nos relacionamos de forma pobre com os sentidos que mobilizam as ações. Nos preocupamos cada vez mais com saúde mental e autenticidade e nos sentimos cada vez menos satisfeitos com as nossas escolhas. Escolhas que parecem tingidas de tons impessoais, que guardam pouca relação com a “nossa essência” – o que quer que isso seja.
O ponto aqui é realçar a relação entre arte e vida. Do mesmo modo que você precisa ter fé para se sentar e começar a escrever um romance ou um conto, para criar personagens e imaginar um enredo, você também precisa dar esse salto no cotidiano. Excesso de escrutínio sobre si pode enfraquecer os nossos laços com a vida, pode empalidecer a beleza daquilo que empreendemos, fazendo com que certas atividades pareçam despropositadas e infantis. Sem fé, sem conexão com os sentidos mobilizadores, acabaremos sozinhos (mesmo que acompanhados) e sempre munidos de comentários sarcásticos sobre o que vemos.
O romance é, de fato, um projeto fadado ao fracasso, mas ninguém (eu espero) realmente tem ou teve a pretensão de retratar a realidade de forma exaustiva. O importante é a tentativa, é a conexão com elementos da vida que te fazem querer transmitir aquilo que você está pensando ou sentindo. Se deixar permear por autopoliciamento, por críticas sobre a ingenuidade daquele esforço, é reduzir o espectro de cores da existência.
Existem vários indícios desse fenômeno que estou tentando descrever e que eu acredito que representa uma faceta relevante das questões contemporâneas.
Estava vendo, há algum tempo, cenas de jogos de futebol de décadas já bem distantes. As comemorações me chamaram a atenção e acabei me lembrando de partidas de tênis em que as raquetes ainda eram de madeira. O mesmo comportamento estava presente. Quanto mais antigas as imagens, mais discretas eram as comemorações.
Hoje, há uma afetação que não existia. Uma afetação que não parece ser apenas o resultado de uma maior liberdade de expressão. Os gestos levam a entender que há muita coisa em jogo, que é mais pessoal, mas sobre os jogadores do que sobre o jogo. As manifestações atuais ou trazem um quê de alívio de um peso quase insuportável ou se transformam em egotrips auto-afirmativas.
No livro de Lasch, encontrei uma explicação para essa diferença bem como para a tendência (de não-profissionais) a encarar jogos como perda de tempo, como meras diversões temporárias.
Segundo o autor, nos afastamos do elemento lúdico, da capacidade de levar um jogo a sério, de nos entregarmos a ponto de nele experenciarmos os desafios e superações inerentes à vida. Já não nos permitimos usar o contexto lúdico como um microuniverso onde se experimenta a existência com intensidade.
A mesma postura que nos afasta da arte, nos afasta dos jogos. Falta entrega aos sentidos mobilizadores. Um excesso de crítica, de envolvimento autorreferencial, contamina ambos com tons de inutilidade.
Amadores não enxergam o sentido nesse envolvimento e profissionais transformam o jogo em negócio, numa atividade que diz mais respeito a si do que ao esporte, sentindo, como consequência, cada vez mais pressão por desempenho.
Aqui, também, há uma realocação de energia (interesse), do objeto (jogo ou arte) para o próprio self – o que caracteriza a base do narcisismo.
Comecei nesses dias a ler um romance da Jean Stafford e, mesmo amando literatura, tive uma dificuldade inicial de me entregar ao enredo. O excesso de descrição, o tempo devagar e o inglês mais sofisticado me levaram para esse lugar que mencionei – para a desconfiança que aquilo seria perda de tempo, que eu teria mais a aprender com outros livros. Acabei persistindo e, de repente, entrei na história, comecei a entender a profundidade e sutileza da narrativa, como ela está constantemente lidando com percepções apuradas sobre comportamento humano. Estar em contato com um romance tão bem escrito, tão denso em questões existenciais, afirma os meus próprios laços com a vida e reforça a conexões com as minhas atividades.
Seria ingênuo achar que as nossas motivações cotidianas não demandam crença. Da mesma forma que você se entrega a uma obra e que você acredita num jogo, seu trabalho e suas relações também estão pautados num sentido que no fundo não é objetivo, mas depende da sua capacidade de saltar.