Pedro Cirri
 
Vrittis
Newsletter XXX - 19.06.2023
 
Não tenho propriedade para falar sobre a teoria da yoga, mas vou me apropriar de um conceito com o intuito de discorrer sobre o tema que vem me acompanhando nos últimos anos. Vrittis são flutuações da mente e a yoga é a arte de controlar ou aquietar tais flutuações. 
 
O que seriam exatamente essas flutuações? Não faço ideia de como os estudiosos iogues responderiam essa pergunta. Sei que nos últimos anos eu tenho conseguido perceber um pouco melhor o que seria a natureza da minha mente. Talvez não “natureza”, pois suspeito que não temos algo como uma “natureza” ou “essência”. Então chamemos de “tendência” ou “padrão” da minha mente. 
 
Se paro para pensar o que nos últimos anos permitiu essa tomada de consciência, diria que a repetição. Soa estranho, mas é isso mesmo. A repetição traz à tona aquilo costuma ser subjacente, que não está no primeiro plano, mas que não por isso é menos importante. Algo sutil à percepção, mas de suma relevância – o funcionamento da psique. 
 
Ao repetir com frequência uma atividade, você se familiariza com ela a tal ponto que seu foco não precisa se prender aos movimentos a serem realizados ou às palavras a serem ditas. Com esse descolamento através da familiaridade, funcionamentos mais profundos se tornam observáveis. Funcionamentos que passam despercebidos no dinamismo de práticas mutáveis. A recorrência desvela aquilo que contamina as nossas vivências - as identificações, os apegos – e, em um certo nível, ao trazer essa revelação, nos proporciona um distanciamento saudável. 
 
Enquanto não houver distanciamento, há identificação.  
 
Nessa quarta-feira, eu acordei um pouco mais cansado do que o normal. Resisti à tentação de desligar o despertador, saí da cama e segui a rotina de sempre: banheiro, meditação e aprontar a mochila da yoga. Antes de sair, olhei para o sofá, caminhei até a sua beirada, me sentei e fiquei pensando sobre o tempo que a prática me tomaria, sobre todas as posturas que eu teria que fazer, sobre a ida e a volta de metrô. Para quê? Por que me submeter a todo aquele esforço se eu poderia fazer um café e ler no sofá?
 
A reflexão sobre todo aquele esforço trouxe uma inquietação imediata. Quanto mais eu ponderava, mais exaustiva parecia ser yoga. O mero pensamento na beirada do sofá já impôs um desconforto. Uma possibilidade de sofrimento futuro que eu antecipei e tornei real, desagradável no tempo presente. O pior é que não apenas antecipei, mas potencializei o sofrimento, sendo que eu sei que quando eu estou praticando e focado, não há desconforto.  
 
Há incômodo quando, no meio da prática, eu desfoco e começo a calcular quanto tempo ainda falta. Essa perspectiva sobre o futuro próximo torna o presente pesado, demandando mais energia de cada movimento. Se eu afasto essa reflexão e volto a prestar atenção em cada respiração ou em quais partes do meu corpo estão ativas, o desconforto passa. 
 
Dado que é a mesma sequência todo santo dia, eu não preciso prestar atenção nas posturas para conseguir executá-las - e é exatamente isso que possibilita o aprofundamento. A repetição realça os movimentos da mente, grifa seus gatilhos e armadilhas. 
 
Por armadilhar, me refiro principalmente à identificação e ao apego. À minha tendência de ceder à sensação que me atravessa, como se de repente eu me esquecesse da sua natureza passageira e de que ela e eu somos distintos.   
 
Sinto que a maioria das situações têm um momento-chave, um momento de tensão máxima, um ápice da sensação. É nesse instante que normalmente cedemos, que guiamos a nossa decisão pelo sentimento presente. O curioso é que se conseguimos ultrapassá-lo, a sensação se dissolve. 
 
Acho que essa é uma percepção interessante, mais detalhada e que revela de modo mais preciso o que se passa na mente. Há, de fato (na minha experiência), um crescendo musical da sensação. Se ultrapassarmos essa intensidade, veremos que, como em toda a partitura, o crescendo atinge um ápice e se suaviza. 
 
Às vezes, sinto um desconforto meditando, esse desconforto me leva a cogitar abrir os olhos e me levantar. Penso em como vai ser ficar mais tempo sentado e essa perspectiva me angustia. Os olhos começam a se mexer querendo sair daquele estado. Em várias ocasiões, cedo e encerro a meditação. Em outras, pareço não estar tão identificado com aquela sensação e sustento a permanência. O sofrimento logo se dissolve e em alguns segundos a meditação se torna prazerosa.  
 
Desconfio que o cultivo desse hábito, de repetir uma prática, vai nos familiarizando com a própria mente. Ao ganhar essa familiaridade, parece que a frequência existencial se aquieta. Não disse isso para combinar com “flutuações da mente”, mas realmente tenho a impressão de que passamos a funcionar num ritmo com menos ondulações.
 
Algumas pessoas, por exemplo, estão sempre inquietas. Seus gestos a até suas respirações apontam para uma dificuldade em se demorar nas atividades e sustentar os momentos. Parecem reféns das flutuações mentais. Suspeito que todos nós, em algum nível, vivemos essa relação com os estados mentais, sucumbindo às sensações com as quais nos identificamos. Quanto mais cedemos, mais alimentamos esse funcionamento. Como consequência, vamos nos afastando das coisas, deixando de nos relacionar com a essência dos fenômenos. Não nos assentamos em nenhuma experiência e gradualmente empobrecemos a nossa vida. 
 
Vivemos numa época de interações vazias, funcionais e carentes de um contato com a essência das coisas. Sendo que tudo, no fundo, tem uma verdade própria. Toda pequena atividade, se sustentada e vivida com presença, tem o potencial de se mostrar numa vasta complexidade. Os afazeres supostamente triviais apenas se apresentam assim em função da domesticação que impomos através de um olhar que não permite se surpreender. Para se surpreender é preciso estar aberto e a abertura requer sustentação. Sustentação pressupõe não ceder às flutuações da mente. Haja treino.... jesus.  
 
Acho que o oposto de treinar esse distanciamento (e aqui eu me refiro a um distanciamento saudável em relação às flutuações da mente) seria passar muito tempo em mídia social, se condicionando a uma atenção curta e fugidia, a apenas conseguir focar na presença de muito estímulo.
 
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
pcirri84@hotmail.com