Pedro Cirri
 
Verdade
Newsletter XXXIII - 31.07.2023
 
Vou tentar elaborar uma ideia sobre verdade que, na minha visão, tem o potencial de restaurar um entusiasmo em relação ao cotidiano. Digo “restaurar”, pois acredito que vamos perdendo esse traço ao longo da vida, vamos nos tornando menos curiosos. Não acho que essa mudança seja natural, que o passar dos anos necessariamente leve a uma sobriedade meio desinteressada, mas sinto que maioria de nós acaba tomando (de forma irrefletida) esse triste rumo. Associando amadurecimento à solidez dos conhecimentos acumulados, à capacidade de antecipar situações e, por fim, à convicção de que poucas coisas podem surpreender. 
 
A imobilidade das coisas que nos cercam talvez lhes seja imposta por nossa certeza de que essas coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento perante elas.” (Proust)
 
Pois uma estranha noção sobre verdade, que de início pode soar dogmática e lacradora, talvez refresque o olhar, abrindo espaço para o inusitado. Uma noção criada com o intuito de combater a crença de que conhecimento (acesso à verdade das coisas) era um ato psicológico. 
 
Mas como o conhecimento não é um ato psicológico? O que mais poderia ser?
 
Acesso à verdade certamente envolve atos psicológicos mas não se restringe apenas a essa esfera. Se assim fosse, cairíamos num relativismo incontornável em que a verdade seria somente subjetiva. Tanto a verdade imediata da aparição de um objeto (percepção), quanto uma enunciação sobre o seu estado, estariam pautadas em atos mentais internos não compartilhados por outros seres. Verdade nesse caso não seria tão diferente de um estado cognitivo temporário, algo que naquele momento ocorreu no seu cérebro. Uma maneira que a sua mente encontrou de lidar com o mundo externo. Claro, atividades psíquicas estão envolvidas no acesso ao conhecimento, mas são apenas um meio para se alcançar algo maior, algo que não se restringe à sua mente e que pertence a um espaço compartilhado. 
 
Lembro de um curso que fiz no Chile em que as pessoas viviam dizendo “meu observador” (ou seja, o observador que elas eram da realidade), com o intuito de relativizar as afirmações e se desfazer da pretensão de dizer como as coisas são de fato. Com essa expressão, elas esclareciam que aquela era a maneira como as coisas apareciam para elas
 
Entendo usar o relativismo para realçar os padrões de cada um, para destacar que quando distorcemos os fatos, normalmente os distorcemos de uma forma específica, só nossa e que diz sobre o observador que somos da realidade. No entanto, não é um olhar que faz jus à experiência. 
 
Sim... as coisas não são necessariamente como eu as vejo. Posso muito bem ter uma visão obstruída ou uma concepção privativa de um assunto. O que não quer dizer que não haja algo para além desse relativismo. 
 
Levar esse subjetivismo a sério traz tanto descrença na experiência como desejo de se apegar a algo para além da vivência distorcida através de lentes parciais. 
 
Não à toa, desde a modernidade somos atravessados por uma desconfiança científica. Percepção e enunciação não bastam, elas precisam de comprovação, de premissas, de axiomas que sustentem a verdade. 
 
Dá para entender o caminho, afinal, se conhecimento é apenas interno, precisamos de algo menos “contaminado” e mais objetivo para termos um denominador comum sobre o qual atuar em sociedade. Daí que vem a obsessão por métodos científicos que buscam esterilizar os objetos de estudo de qualquer subjetividade. 
 
Talvez o caminho não seja limpar o conhecimento de subjetividade para que somente então não haja diferença entre o que eu vejo e o que você vê - pois estaríamos tratando de um tema objetivo, imune a relativismos. Talvez haja como incorporar a subjetividade no olhar científico, aprimorando a percepção e fazendo com que as enunciações se aproximem cada vez mais da experiência.
 
A proposta aqui é aguçar o olhar, esperar ter uma multiplicidade de perfis e ângulos antes de formar uma opinião e, acima de tudo, suspender o que você acha que sabe antes de a experiência acontecer. 
 
O que a fenomenologia defende é pensar não em um ato psicológico interno, mas em um movimento que fazemos para dentro do mundo da razão. Que não está em nós, restrito à nossa psique, mas fora, compartilhado por outros seres que, como nós, são clareiras, são espaços de manifestação. 
 
Os entes do mundo – físicos ou abstratos – tem seus conteúdos ideais. Eles têm suas verdades. 
 
É por isso que essa linha filosófica usa o termo “evidência/evidenciar”, para transmitir a noção de algo menos passivo que perceber ou registrar. Evidenciar pressupõe um movimento para que possibilitemos a manifestação das coisas como elas são. Sem obstrução. É um deixar aparecer ativo. 
 
Nossa fala não é apenas um tagarelar entre nós mesmos; é também, se escapamos da névoa da vaguidade, a revelação das coisas, que vêm à luz naquilo que dizemos.” (Sokolowski)
 
Abrir espaço para que as coisas se manifestem em suas verdades soa passivo, mas requer um árduo trabalho de desobstrução, tirando do caminho tanto entulhos biográficos, quanto culturais. 
 
Entulho biográfico é aquele saco de lixo que você carrega em suas novas experiências, sentindo o peso e principalmente o odor das vivências passadas, deixando com que elas contaminem a aparição dos fenômenos presentes. É se deixar sequestrar por emoções geradas em eventos pregressos. É ir a um primeiro encontro já à procura de sinais de que aquele match não tem futuro. Iniciar um curso com a sensação de perda de tempo, de que as pessoas ali não têm tanto a te agregar. É não enxergar a ruína de um relacionamento por apego à idealização. Se livrar do entulho não leva uma ausência de julgamentos, mas te leva a julgar somente a partir daquela experiência e não do que você acha que sabe ou de como você gostaria que ela fosse. 
 
Entulho cultural são noções distorcidas, conceitos ecoados pelo coletivo que, se questionados, não param de pé. 
 
Talvez aqui haja um interessante caminho para se reaproximar de uma lida mais genuína com a vida. O quanto você realmente pensa sobre os grandes temas? Afinal, seu dia certamente é preenchido por noções como trabalho, sucesso, identidade, amor etc. 
 
Se você se debruçar sobre tais assuntos, chegará à conclusão de que a sua vivência espelha suas convicções? O que você vive chamando de sucesso é coerente com a sua noção sobre sucesso? Seu entendimento a respeito de identidade sobrevive aos seus próprios questionamentos?
 
Pensemos sobre amor, por exemplo. O que significa essa palavra que vivemos repetindo? Seria estar disponível para a outra pessoa? Ou abrir concessões, renunciando a certos desejos? Uma aceitação incondicional do outro?
 
Bora analisar.
 
Sobre disponibilidade como sinônimo de amor.... acho que não, em determinados contextos a disponibilidade pode ser escassa e ainda assim haver amor. Não acho que esse sentimento signifique necessariamente priorização a todo custo.  
 
Capacidade de fazer renúncias? Talvez, mas isso me parece mais uma possível consequência do que o sentimento em si. Alguns arranjos podem dispensar essas renúncias e ainda assim ser permeados por amor. Em outros, é possível que mudanças de hábito sequer sejam percebidos como renúncia (no sentido de sacrifício). 
 
Aceitação incondicional? Incondicional soa utópico, mas acho que esse traço está mais próximo do centro da questão. Ainda acredito que algo precede essa aceitação do outro. Algo dentro de nós que nos permite ter uma maior compreensão sobre alteridade. 
 
O que então é amor? Acho que compartilhamento do nada que somos. Conseguir se despir de pretensões, sentindo que, com aquela pessoa, você não precisa ser algo, pode ser apenas você, o que quer que isso signifique. 
 
Acho que é essa capacidade que nos leva a uma maior aceitação das diferenças do outro. 
 
Apesar das lacrações acima, tenho convicção de que essa é a ideia que hoje eu tenho de amor. Isso não significa que estou tingindo com um relativismo os parágrafos que acabei de escrever, para então concluir que cada um tem a sua concepção e de que não existe certo ou errado. 
 
Acho que existe, mas não acredito que a resposta perfeita seja alcançável. Penso em verdades como faróis em alto mar. A abertura para experiência permite com que você enxergue um pouco melhor, se aproximando da fonte a cada vivência e, por vezes, percebendo que ajustes de curso se fazem necessários. 
 
Afinal, os fenômenos se assemelham a objetos radioativos que não param de emitir radiação, com a diferença que eles não têm meia-vida, eles nunca param de fornecer ângulos novos para quem está aberto. 
 
Isso me lembra de um conceito de experiência que encontrei num livro de filosofia. Experiente não é aquele que acumulou muita vivência, mas quem permitiu com que suas opiniões fossem contrariadas por novos eventos. 
 
Os fenômenos têm as suas verdades. Quanto menos entulho trouxermos para as experiências, mais aptos estaremos a acessá-las. 
 
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
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