Pedro Cirri
 
Atmosferas Epocais 
Newsletter XXXII - 18.07.2023
 
Alguns livros antigos descrevem cenas que chegam a soar irreais, mesmo não se tratando de literatura fantástica. Trejeitos exagerados, caricaturais a tal ponto que parecem pouco fiéis ao comportamento humano. 
 
Filmes antigos também não fogem dessa estranheza. Há algo menos fluído. Percebemos os atores como rígidos e os diálogos como forçados, descolados de um contexto de fala, de situações onde as palavras fariam mais sentido. Tudo parece levemente abrupto. 
 
Certamente, não havia escassez de bons atores, diretores ou escritores. Talento não é um fenômeno epocal, mas comportamento é. 
 
O que havia de tão diferente naqueles contextos para que as pessoas agissem de uma maneira atualmente inconcebível? E – já entrando no tema central dessa Newsletter – o que isso diz sobre nós?
 
É nessa linha de pensamento, que eu acabo ficando um pouco indignado com filmes e séries de época que, apesar de servirem como um agradável entretenimento, acabam sedimentando uma falsa percepção existencial. Ao criar cenas e emular dinâmicas sociais de outras décadas ou séculos sem incorporar essas diferenças mencionadas acima, esses passatempos sustentam a ilusão de que o jeito que atualmente somos é o jeito humano de ser. 
 
Lógico, isso não é uma crítica cinematográfica. Primeiro porque eu não tenho a menor qualificação para opinar sobre cinema (Austin Powers é um dos meus filmes prediletos), segundo que exigir fidelidade dos diretores ao modo de ser de uma época seria condenar esses filmes e séries a atuações que perceberíamos como desencaixadas e antinaturais. Não pelo fato de ser difícil imitar o jeito de cada época, mas pelo fato de que esses jeitos são estranhos aos nossos olhos. 
 
Até aqueles filmes que se esforçam para ser fidedignos ao contexto acabam contando a história através de lentes contemporâneas. Não me refiro a etiqueta social, a figurino ou adequação tecnológica – tudo isso é normalmente muito bem-feito-, mas à experiência imediata, a como o mundo se abria para as pessoas numa determinada época. 
 
Vocês já pararam para assistir entrevistas antigas? Notaram que há algo de muito diferente nos maneirismos? Não só as palavras usadas, mas os trejeitos são muito distantes dos nossos. As entrevistas de rua, pela espontaneidade, são ainda mais representativas dessa diferença. É mais profundo do que hábito, é enraizado no modo de falar, de se expressar corporalmente, de lidar com o outro, com a câmera, com a publicidade de estar sendo filmado. 
 
Já viram discurso do Mussolini no Youtube? Vejam. Vale a pena. É impossível entender como alguém tão patético (pelos nossos padrões) teve tanto apoio popular. O mesmo comentário se aplica aos vídeos de Hitler. Há uma teatralidade histérica que atualmente apenas encontramos em comédias toscas. 
 
Não por acaso, filmes antigos parecem “teatrais”. Havia uma solenidade no trato. Talvez não uma incapacidade de relaxar, mas uma solenidade com a vida, como se as coisas fossem mais impactantes e por isso demandassem gestos que hoje consideramos curiosos.   
 
Os livros antigos descrevem comportamentos que jamais veríamos em nossa época. No primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido de Proust, Swann passa a frequentar a casa de uma senhora que sempre reúne pessoas para beber, comer e falar mal da alta sociedade. Em determinadas ocasiões, para deleite e também desespero da anfitriã, um pianista entretém os convidados com algumas peças. Ela é tão impactada pela habilidade do músico que precisa se retirar do ambiente e deitar.  
 
Tamanha mobilização diante de expressões artísticas atualmente soaria como distúrbio psicológico. No entanto, era mais comum do que imaginamos. Aos nossos olhos, a descrição de Proust tem tons de recurso literário que exagera as caraterísticas com o intuito de marcar os traços da personagem. Certamente, havia uma crítica do narrador na descrição, mas o retrato era verossímil para a época.
 
Tão verossímil que no final do século XIX, os relatos do escritor Stendhal sobre sua visita a Florença serviram para dar nome ao estado de incontrolável ansiedade, afetação e inebriamento diante de arte. 
 
I was already in a kind of ecstasy by the idea of being in Florence, and the proximity of the great men whose tombs I had just seen. Absorbed in contemplating sublime beauty, I saw it close-up—I touched it, so to speak. I had reached that point of emotion where the heavenly sensations of the fine arts meet passionate feeling. As I emerged from Santa Croce, I had palpitations (what they call an attack of the nerves in Berlin); the life went out of me, and I walked in fear of falling.
 
Síndrome de Stendhal não era recurso literário, mas descrição de experiência. 
 
Como isso era possível? Como “O Sofrimento do Jovem Werther” de Goethe levou tanta gente ao suicídio? 
 
Cada época tem uma atmosfera específica, um modo com o qual o mundo se abre para as pessoas. Tanto que alguns distúrbios mentais também são epocais. Fenômenos curiosos que brotam num determinado contexto para, após algumas décadas, perderem potência e se transformarem em lenda urbana.  
 
Dois exemplos vêm a mente de bate pronto. Os “mad travellers” da Europa do século XIX - pessoas que entravam num estado de confusão mental e começavam a andar sem rumo até a exaustão. Normalmente, chegavam em outra cidade e, quando confrontadas, se viam incapazes de explicar o paradeiro. Outro caso ocorreu por volta do século XVII e afetou um número considerável de pessoas em diferentes cidades. O distúrbio não levava a viagens inconscientes, mas à estranha certeza de que seus corpos eram feitos de vidro. Muitas delas conseguiam ter uma vida funcional, mas estavam sempre preocupadas com movimentos bruscos ou a proximidade de outros, evitando, assim, serem estilhaçadas pelo contato. 
 
Se a maneira com a qual o mundo se abre para nós fosse mera decorrência da biologia, não teríamos fenômenos psiquiátricos de época. Sequer teríamos tanta diferença em obras literárias. 
 
Há algo que é do tempo e que afeta a experiência imediata. 
 
E qual é a nossa atmosfera? Como isso impacta a nossa experiência? 
 
Chul Han, Bauman e Sennet fizeram diagnósticos similares dessa era. De modo generalizado, é possível dizer que são todos marcados pelo excesso, por uma sobrecarga que gera como resposta um contato fugidio, superficial e uma sensação de desconexão.
 
Seja pela perda de solenidade da esfera pública, pela perda da ritualização da vida que acaba nos jogando num espaço onde tudo é transparente, imediato, disponível, sem mistério e sem delonga. Seja pelo excesso de informações e a perversa noção de que temos que estar a par e atualizados, condenando ao impossível qualquer tipo de aprofundamento. 
 
As coisas chegam a nós com tamanha rapidez e acompanhadas de tanta alternativa que as recebemos extirpadas de complexidade, magras e moribundas. A dação dos fenômenos se tornou deficitária. Tudo é feito, cumprido, nada é realmente experenciado.  
 
Parece que as coisas, as atividades e nós mesmos perdemos substância, que nos tornamos ocos, movidos pelos sopros das circunstâncias. 
 
Chamamos de amigos os colegas de um contexto temporário e vamos nos habituando a laços gerados mais pela conjuntura do que por identidade. Empreendemos hobbies não pelo prazer da atividade, mas pelos benefícios. Hobbies atravessados por uma funcionalidade, escolhidos por algo que está além. É sempre “para”, sempre a mais, adiante, fugindo do insustentável presente. Nos tornamos entediantes para nós mesmos. Quanto mais fazemos, menos ócio suportamos. 
 
Sabe aquele desconforto que te inquieta logo que você se senta no sofá, que vive ecoando o mesmo disco riscado sobre eficiência e produtividade? Aquele estranhamento, a sensação de estar inapropriado por ter uma tarde livre durante a semana? Isso é epocal. A comunhão de carrasco e vítima num único ser. No mesmo corpo, estão o braço que estala o chicote a as costas que recebem o castigo. 
 
Não à toa, vivemos na era da depressão e da ansiedade. Algumas pessoas acham que esse aumento se deve à maior capacidade de diagnosticar. Essas mesmas pessoas devem achar que filmes de época são verossímeis em termos de comportamento.
 
Não à toa, a doença mais preocupante dos últimos cinquenta anos carrega esses mesmos traços – o aumento, a produção descontrolada e o corpo que agride a si mesmo. Câncer parece ser o reflexo de um modo de estar no mundo. 
 
Acho que ficou um pouco pessimista demais. Talvez seja importante. É um absurdo achar que essa dinâmica é da nossa natureza. Que essa abertura de mundo é inerente à nossa espécie. Não. É do nosso tempo. E dá para escapar? Heidegger acha que não. Qualquer tentativa se daria dentro desse horizonte. Seria como fazer um discurso sobre a importância do silêncio. 
 
Num nível menos profundo, acho que dá para ter momentos de atenuação. E por mais que essas quebras do ritmo atual sejam raros respiros em que tiramos a cabeça para fora da água antes de sermos novamente dragados pela correnteza, elas realçam uma diferença. Elas pontuam que o modo com o qual as coisas aparecem para nós não é a única maneira. Há um tipo de contato diferente, mais lento, mais marcante, menos oco, menos conjuntural. Talvez essa pontuação seja suficiente para você, por vezes, se lembrar que as coisas podem ser diferentes, que elas não precisam ser sempre assim. Que talvez o seu senso de urgência esteja enviesado ou seu olhar pouco acolhedor. 
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
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