Pedro Cirri
 
Síndrome do Impostor
Newsletter XXXI - 02.07.2023
 
Um pouco estranho usar esse título. Chega a dar um desconforto de tão batido que é o tema, como se as linhas seguintes fossem um suporte para que você finalmente seja a sua melhor versão.  
 
Talvez essa seja a minha síndrome do impostor gritando “eu não sou convencional”, “não escrevo coisas evidentes”. Não à toa, costumo recorrer a citações, dando um caráter de profundidade às palavras que saem das minhas mãos. Sempre tentando me revestir de um manto especial para esconder a minha própria mediocridade. 
 
Enfim. Vamos lá (outra expressão que eu detesto, especialmente quando alguém a usa para explicar algo, te tratando como um mentecapto). Vamos lá, seu idiota. 
 
Ouvi recentemente um episódio do Adam Grant em que ele entrevista a comediante Taylor Tomlinson e trata do assunto “insegurança”. Ele abre o podcast falando que quando pensamos em insegurança normalmente a associamos a baixa autoestima, sendo que, na verdade, esses dois conceitos não descrevem o mesmo fenômeno. 
 
Autoestima, como a palavra já indica, é uma estima de si, uma mensuração que fazemos de nós mesmos. E segurança, por sua vez, guarda uma relação com duração, com a estabilidade de uma estima saudável. 
 
Como exemplo, ele recorre ao clichê de pessoas que fazem bullying com os outros. É natural pensarmos que eles, no fundo, têm baixa autoestima e, portanto, sentem a necessidade de humilhar os demais. 
 
Se pararmos para refletir um pouco mais a fundo, perceberemos que é mais provável que essas pessoas tenham uma avaliação de si oscilante ao invés de constantemente baixa. Afinal, em vários momentos, essas pessoas que fazem bullying parecem estar confiantes, cheias de si. E de fato, estão - só que se trata de uma confiança em corda bamba, uma confiança que se sustenta em premissas frágeis, que demanda constante comprovação sob o risco de despencar no vale da mediocridade.   
 
Claro, esse racional extrapola o clichê das pessoas que fazem bullying e atravessa todas as versões um pouco mais maduras e talvez disfarçadas desse tipo – o hétero top, o executivo assertivo, o pedante que cita a si mesmo (“como eu sempre digo...”)...  
 
Mas, afinal, o que seriam premissas frágeis que não conseguem dar estabilidade à mensuração de si? 
 
Adam Grant diferencia a estima que se pauta na opinião alheia daquela que se baseia na sua opinião sobre si. Interessante, mas utópico. Dificilmente estaremos imunes à validação externa. Acredito que uma distinção um pouco mais realista iria na linha da seletividade de opiniões que realmente importam para cada um. 
 
Outra diferenciação que quase nunca fazemos é segregar os domínios, compreendendo que cada seara envolve habilidades distintas. Normalmente, atribuímos relevância a todo tipo de opinião emitida por uma pessoa que respeitamos, esquecendo que todo mundo tem maiores aptidões em determinadas áreas e menores em outras. É interessante selecionar opiniões relevantes, mas tão importante quanto é delimitar o campo desses juízos. Em quais domínios aquela pessoa tem muito a contribuir? 
 
Outro dia vi um vídeo de um youtuber famoso no programa Roda Viva. Para a minha surpresa, boa parte da entrevista foi sobre política. Apesar de o tema não ter sido o que o levou ao sucesso, ele havia começado a se aventurar nesse campo – certamente aproveitando o fato de que as pessoas doam sua atenção de forma irrefletida, sem distinguir o assunto tratado e apenas se apegando à notoriedade do interlocutor. A certa altura, o rapaz (que, por sinal, não era nada burro) disse que havia pouca gente capacitada falando sobre política nos espaços públicos. Ele pode até ser inteligente, mas esse comentário demonstra uma ignorância abissal sobre o fenômeno que estou tentando descrever. Não é que tem pouca gente capacitada discorrendo sobre política. Existe muito cientista político apto por aí. Eles apenas não têm acesso aos holofotes, dado que nós preferimos saber como que o Neymar ou a Bruna Marquezine enxergam o governo. 
 
Numa escala exagerada (como feito acima), o argumento parece evidente. Já numa escala atenuada, ela revela uma falta de reflexão muito comum. Damos relevância de forma personalíssima, não por área de expertise. Se o Gilberto Gil ou a Gal Costa postassem um vídeo debatendo as propostas do Elon Musk sobre a colonização de outro planeta, vocês não ouviriam com a mesma predisposição que confeririam a uma especialista sobre o tema? Talvez até uma predisposição maior, relaxando o senso crítico.
 
Claro, em assuntos mais existenciais, essas fronteiras tendem a se embaçar, o que pode até enfraquecer o ponto acima, mas não o invalida.  
 
Voltando ao podcast, o que a comediante Taylor Tomlinson diz ter ajudado a lidar com a insegurança foi uma tentativa de voltar a si, de lembrar do seu empenho, de sua trajetória e, assim, ter distanciamento suficiente para aceitar que algumas pessoas não vão gostar das suas apresentações. 
 
Segundo ela, o ato de se recordar de todo o esforço empreendido traz uma sensação de solidez. A cada momento em que o presente não faz jus às expectativas, ela encontra em sua própria história um ponto de apoio. 
 
Isso seria o que Grant denomina uma mudança de valores extrínsecos para valores intrínsecos. 
 
O episódio dá algumas voltas no assunto, mas acaba não saindo dessa camada. É, sem dúvida, interessante, pois levanta distinções que raramente fazemos e, no fundo, nos lembra de algo básico e extremamente importante: de que pautar nossa autoestima em critérios externos leva à instabilidade. Pior do que isso, leva à insaciabilidade, ao eterno não assentamento, dado que a confiança, quando alcançada, requer constante confirmação, validações cada vez mais extenuantes que nos empurram em direção à frustração. 
 
Há um desdobramento curioso dessa visão que combina com mais uma distinção possível que o podcast (salvo engano) não trouxe. A comediante diz ter a impressão de estar enganando as pessoas. Quando a Netflix lhe propôs um show de uma hora, ela tinha certeza de que eles haviam cometido um erro e de que estariam mais bem servidos se contratassem outra comediante. Grant faz uma provocação: ela se julga excelente em se avaliar, muito melhor que o pessoal da Netflix e, no entanto, se julga pouco engraçada, uma comediante mediana. Ela concorda, ri e complementa dizendo que ao mesmo tempo em que essa dinâmica gera ansiedade, é exatamente isso que faz com que ela tenha sucesso. É essa autoestima capenga que faz com que ela se esforce tanto e acabe agradando as pessoas. 
 
Taylor parece reconhecer que ela é boa em sua profissão apesar de se achar medíocre. Segundo ela, tem sucesso devido ao esforço. Uma sem-talento esforçada. 
 
Há uma diferenciação importante a ser feita – que inclusive aparece no livro sobre inteligência emocional do Daniel Goleman – entre quem você é e aquilo que você faz. Goleman critica comentários de pais que confundem êxito em uma atividade com qualidades intrínsecas. Quando uma criança vai bem em uma prova na escola, os cuidadores tendem a elogiar a sua inteligência ao invés de parabenizá-la pelo esforço realizado. Essa distinção que pode parecer inofensiva vai aos poucos gerando uma mistura maléfica entre autoestima (avaliação de si) e resultados externos. Ou seja, é um péssimo jeito de educar a criança a atribuir valor a essas marcações externas e a acreditar que seus atributos estão relacionados a tais eventos. 
 
Feito esse enorme parênteses, ainda não endereçamos a angústia da comediante entrevistada por Adam Grant. Sua questão não é a de uma autoestima oscilante e nem de uma incapacidade de separar quem ela é daquilo que ela faz. Sua questão é uma estima constantemente baixa e, provavelmente, o fato de atribuir muito peso à maneira como ela se enxerga. 
 
Entendo que isso soe até estranho – como não atribuir peso à maneira com a qual nos enxergamos? 
 
Acho que existe um modo de não se tornar tão refém das análises que fazemos de nós mesmos, de não termos um olhar tão autorreferencial. Falo de um regresso às coisas. Um contato mais profundo com a atividade, uma tentativa de acessar a verdade daquilo que está diante de nós. O que pressupõe uma disponibilidade para se pôr em obra do fenômeno. Se abrir para o tempo que não é seu, mas da atividade, se deixar atravessar por atmosferas, por ritmos, por lógicas diferentes da sua. 
 
Fazer a coisa pela coisa. Não por si, mas pela atividade, honrando cada tarefa, permitindo com que a lida se realize através de você. Certas culturas estão um pouco mais próximas dessa relação do que a nossa. Generalizando muito, o oriente parece não ter se afastado tanto de uma dinâmica originária. Quando fui ao Japão, fiquei impressionado com a dedicação que cada pessoa com sua respectiva atividade. Quando o cobrador entrava no vagão do trem, ele parava por alguns segundos, reconhecia o espaço e então se curvava em cumprimento. Ao me devolver o bilhete, seus gestos eram realizados com um enorme zelo. Após dez dias naquela ilha, lembro de ter me impressionado com a primeira pessoa que me entregou algo sem atenção, meio de saco cheio. Depois, fiquei chocado com o fato de estar chocado, sendo que essa conduta já tinha virado regra em boa parte do ocidente. Quão acostumado eu já estava a esse modo presente e respeitoso, a esse modo que se doa ao afazer. 
 
Essa dedicação afasta o foco de si e o direciona à atividade. Só que para que isso seja uma possibilidade, ou seja, para que esse modo de lidar com as tarefas se torne possível precisa haver pelo menos um engajamento inicial, uma predisposição que faça com que você se doe. 
 
Há um interessante documentário chamado “Being in the World” que, dentre outras coisas, mostra um carpinteiro japonês escolhendo cada madeira que ele utilizará para construir uma casa. Aquilo não é apenas um trabalho, uma fonte de renda, é uma arte, uma profunda relação com o mundo das árvores, distinguindo cada formato, visualizando os encaixes mais harmônicos para uma arquitetura que se faz sem pregos, sem junções forçadas, mas apenas com madeira.  
 
A visão utilitarista empobrece o cotidiano. 
 
Ao mesmo tempo, uma apologia à lida conectada, presente, de namastê iluminado (que na verdade apenas reencarnou por um erro cósmico), também soa distante da realidade. 
 
Num mundo com tanto estímulo, com seres como aquele Andrew Huberman que vive esfregando na sua cara que você é um asno preguiçoso que precisa de oito horas de sono, é difícil ter disponibilidade para se aprofundar, para se demorar junto a, para encontrar a beleza das coisas e suspender aquilo que você espera da atividade. 
 
Sísifo é condenado ao eterno labor de levar uma pedra até o topo de uma montanha para então soltá-la, descer a montanha e carregá-la novamente, ad infinitum, mas acaba por encontrar satisfação em fazer por fazer (pelo menos, segundo a leitura existencial de Camus). Ninguém aqui é Sísifo. Esse não é um desafio ao abandono do ego em direção à verdade das atividades, uma rendição em benefício da manifestabilidade dos fenômenos. Não é uma convocação natimorta para que você se torne uma clareira na qual as coisas podem se mostrar como são. Seria lindo, mas é irreal. 
 
Essas linhas são apenas um convite para esquecer de si por alguns instantes e se conectar com aquilo que está à sua frente, para se alongar um pouco mais naquilo que você faz até perceber nuances que antes passavam despercebidas.  
 
Fui à sala São Paulo recentemente para ver uma apresentação de piano e clarinete. Confesso que tendo a achar clarinete um pouco enfadonho e até infantil. Ao mesmo tempo, não dou muito peso à minha própria opinião, pois conheço tanto de música clássica quanto conheço de astrofísica. Os primeiros minutos foram de fato mais simples e desinteressantes, só que aos poucos a música foi se fazendo presente, alterando a atmosfera, me alterando, modificando a respiração e os pensamentos. De repente, clarinete não era infantil ou chato, mas lúdico e hipnótico. 
 
Jesus, eu fui longe com esse tema de hoje. O curioso é que eu tendo a cair na mesma visão. Em quase toda newsletter, independente do assunto inicial, eu volto ao mesmo modo de encarar as coisas, advogando por uma suspensão daquilo que sabemos para que não encaixemos a experiência em concepções empobrecidas. Vejo essas pessoas que não conseguem mais se surpreender com a vida e sempre acho que algo deu muito errado.
 
Essa postura curiosa e aberta é tão distante de uma preocupação com a nossa própria estima. Nela, o foco desliza das suas características, de quem você é, para um mundo pronto para se revelar em sua complexidade. 
 
Mas, sim... é difícil ser um poço de encantamento à lá pequeno príncipe. Então, vale lembrar das diferenciações feitas acima. 
 
Mas no fundo, no fundo, a mensagem que eu realmente gosto é essa da abertura, da doação à atividade, do fazer pela beleza do ofício, do “se demorar junto a”.  
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
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