O perigo é maior naquilo que não se anuncia, nos elementos cujos contornos permanecem invisíveis. Não por estarem tão longe que suas formas se misturam ao pano de fundo ou por falarem tão baixo que suas vozes se perdem em meio ao ruído cotidiano. Pelo contrário, passam despercebidos pela excessiva proximidade.
Falo sobre premissas que se camuflam de realidade, que escondem posicionamentos atrás de uma pretensas neutralidades.
A fenomenologia circula e grifa tais premissas, sendo que esse identificação abre a possibilidade de prescindirmos delas.
Conquanto libertário, a aproximação desse novo horizonte não se dá sem aflição ou estranheza.
“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.” (Clarice Lispector. A Paixão Segundo G.H.)
O filósofo Edmund Husserl se debruçou sobre o problema epistemológico, sobre qual seria a explicação para o conhecimento da realidade. Como acessamos a realidade? E se isso que acessamos é de fato a realidade?
A elaboração de uma investigação rigorosa da experiência humana trouxe à tona algumas revelações. Talvez “revelações” não seja o termo apropriado, mas recordações, afinal, apesar de estranhas, algo nessas revelações soa familiar.
Pensemos na percepção que temos de objetos. Sempre se dá em perspectivas, dado que nunca temos acesso à totalidade daquilo que está diante de nós. Dependendo de onde olhamos, um lado está visível e outro oculto. É a soma de diferentes ângulos que nos confere um olhar mais cuidadoso, mais próximo à verdade daquilo que se mostra.
Um dos pressupostos do olhar fenomenológico é a suspensão de teorias, uma suspensão daquilo que você acha que sabe quando está diante de um objeto – o que possibilita que você abra espaço para acessar a realidade.
Não se trata de esquecer e apagar o conhecimento prévio, mas colocá-lo entre colchetes para que sua experiência não seja afetada, para que aquilo que se mostra não seja contaminado por um viés de confirmação.
É essa abertura que permite com que novas informações surjam e posteriormente sejam somadas ao conhecimento que permaneceu entre colchetes.
Em termos fenomenológicos, a experiência é uma síntese de vivências em fluxo. Sendo “síntese’” um processo de agregar informações diferentes num todo (não
necessariamente coerente, mas certamente integrado).
Ou seja, se houver suspensão do passado e abertura para o presente, não estancaremos o conhecimento, mas continuaremos desenvolvendo-o. Afinal, estaremos abertos a novas perspectivas.
Outros elementos da percepção merecem menção, sendo um deles a diferenciação entre partes e todos.
Certas partes de um todo podem ser destacas e subsistir como um novo todo. Outros componentes, não. Chamaremos de “momentos” esses elementos não passíveis de destacamento.
A pétala da rosa pode ser segregada e virar um todo. Já a sua cor vermelha jamais será separada de outros elementos virando algo em si.
Ainda assim, a linguagem nos permite falar sobre os “momentos” de forma abstrata como se eles fossem separáveis do resto. Quando, no fundo, tais elementos são sempre experenciados em conjunto com outros aspectos.
A linguagem cria a possibilidade de falar de modo isolado de coisas que não se
apresentam de modo isolado, induzindo ao erro de coisificar o objeto da fala como se independente fosse.
O que eu gostaria de destacar nos dois pontos levantados acima é uma mania de coisificar tudo com o que nos relacionamos.
Essa tendência é oposta à suspensão fenomenológica. Temos o péssimo hábito de já tentar encaixar o objeto da nossa experiência em conceitos advindos de vivências passadas.
Além disso, o mero fato de falarmos de algo de modo abstrato nos induz a erro e acabamos dando contornos fixos àquilo que é fluído.
Lembremos da expressão acima – síntese de vivências em fluxo.
Ainda no tema percepção, mas agora adentrando um conceito um pouco mais complexo, pensemos sobre a identidade dos objetos. Reconheço uma corda ou uma caneta como tais. Normalmente, preciso de alguns perfis (miradas) para me assegurar sobre a respectiva identidade. No entanto, se paro para pensar sobre a natureza disso que chamo de identidade, não posso afirmar que ela é a soma dos diferentes perfis a que tenho acesso, das diferentes perspectivas que tenho de um objeto.
Ela depende da múltiplas manifestações, mas não pode ser a soma dessas múltiplas manifestações, afinal, se eu adiciono um novo ângulo, ou seja, se eu passo a olhar o objeto por uma nova perspectiva, ele não mudará de identidade, apenas terei uma atualização.
Identidade é reconhecível por meio das manifestações, das diferentes perspectivas, mas as transcende.
É fácil falar sobre as manifestações, mas a identidade é algo complexo. Ela se revela e esconde a si mesma. O que a fenomenologia tenta fazer é tentar mostrar que, apesar de escorregadia, a identidade é mesmo parte da nossa experiência – porém não como algo fixo e dotado de propriedades.
Ao falarmos sobre esse tema, naturalmente voltamos à diferenciação feita acima em relação a pedaços e momentos. Identidade não é algo isolável, é parte daquilo que se mostra sem possibilidade de destacamento. O fato de podermos falarmos abstratamente sobre identidade (pois a língua assim nos permite) não significa que identidade seja algo concreto.
Então, por que insistimos em achar que identidade é algo como um conjunto de
propriedades?
E aqui eu não estou falando apenas de identidade de objetos, mas da nossa própria identidade.
Numa entrevista com Adam Grant, a escritora Glennon Doyle contou sobre como o desmantelamento de um casamento e de uma vida pautada em dogmas comportamentais acabou levando não apenas à desconstrução de uma identidade, mas à constatação das restrições geradas pela rigidez da história que contamos sobre nós mesmos.
Sem dúvida, a coisificação da identidade, a ilusão de que temos propriedades e de que somos algo, gera um conforto existencial - pois pretensamente solidifica algo muito etéreo. No entanto, é essa mesma solidificação que passa a exigir das nossas escolhas coerência com aquilo que alegamos ser.
Glennon diz que qualquer definição seria colocar um peso demasiado em suas futuras ações.
Ao criarmos uma identidade sólida, temos dificuldade para explicar para nós mesmos algumas ações que não se encaixam na história sobre quem somos. Muitas vezes aplicamos um double standard e enquanto julgamos as ações dos outros como prova de caráter, julgamos as nossas ações questionáveis como resultado das circunstâncias externas.
Não somos nada para além dos nossos atos e a verdade nunca se encontra em algo sólido como caráter ou personalidade, mas na maneira como cuidamos da nossa existência (sendo).
Essa é uma noção que pode causar angústia. Não à toa, como descreve Sartre, fingimos cegueira diante das nossas possibilidades. Sucumbimos à má-fé e dizemos a nós mesmos que somos algo concreto. Nos portamos de maneira a corroborar aquela identidade. Um advogado agindo como advogado, sendo afirmativo e sempre alerta. Um terapeuta se esforçando para ser empático mesmo fora do expediente, abafando a irritação atrás de uma fachada calma. Um professor de yoga se comunicando por mensagens supostamente espirituais e de sentido enigmático...
Tudo isso é perigoso. Confundir algo fluído, atualizável e, portanto, mutável com algo fixo é restringir o seu futuro, é demandar um maior dispêndio de energias para ações inusitadas.
Perigoso principalmente pelo fato de adotamos essas noções rígidas sem sequer perceber.