Todas as Coisas que Brilham (Every Brilliant Thing) é um documentário disponível na plataforma da HBO. Mais precisamente, é a filmagem de um monólogo, com frequente participação do público, sobre depressão e suicídio. Tanto a atuação quanto o texto são surpreendentemente bons. Apesar do tema, a profundidade é intercalada com momentos cômicos que dão leveza e tornam o documentário facilmente digerível.
A história narrada descreve um menino de sete anos que desenvolve uma maneira criativa de lidar com a tentativa de suicídio da própria mãe. Ele elabora uma lista de coisas brilhantes, coisas pelas quais vale a pena viver.
O passar dos anos não interrompe esse longo argumento contra o suicídio e as diferentes fases se refletem nos itens escolhidos - que de “sorvete” e “filmes de Kung Fu” passam para coisas mais específicas como o início de um determinado álbum de jazz ou a perspectiva de se vestir como um lutador mexicano. A lista atravessa a infância e a adolescência até atingir um milhão de itens, sendo os últimos escritos por um adulto divorciado que, assim como a mãe, também luta contra a depressão.
Todo o monólogo, apresentado por um ator em seus quarenta anos, é marcado por uma empolgação, por um entusiasmo de alguém que, apesar dos percalços, enxerga a beleza de estar vivo. Beleza que, na maioria das vezes, se encontra em objetos ou gestos simples, em elementos cotidianos que poderiam muito bem passar despercebidos.
Entusiasmo, de in theos – estar com Deus em você, tomado por algo divino – que muito se assemelha à curiosidade infantil, me parece ser uma maneira de se aproximar da vida. Entusiasmo é se afastar das certezas, afinal, são as convicções que tornam o mundo previsível, monótono e carente de beleza.
Já fui muito seguro das minhas próprias opiniões. Mesmo jovem, era envelhecido. Não experiente, mas envelhecido.
Segundo Gadamer, experiente é aquela pessoa que permitiu com que suas opiniões fossem revisadas por novas situações. Exatamente por esse motivo, a pessoa experiente nunca se gabaria de sua experiência, pois amanhã todo o seu conhecimento poderia ser contrariado por uma nova vivência.
Pessoas muito convictas não se tornam experientes, apenas velhas.
Agarrado às minhas opiniões, enxergava o entorno e as pessoas como previsíveis e incapazes de me surpreender. Se naquela época eu fosse escrever uma lista, suspeito que a maioria dos itens estaria atrelada a um porvir, àquilo que eu gostaria de conquistar. Tão autocentrado a ponto não apreciar o já disponível.
Schopenhauer tem uma brilhante e terrível expressão – de que a vida é um pêndulo que oscila entre o sofrimento por não ter algo desejado e o tédio quando se finalmente obtém o objeto de desejo.
Enfim.... voltemos ao tema do documentário, mas se possível guardando em mente essa oposição entre entusiasmo e olhar autorreferente.
Logo após assistir o monólogo, três livros sobre depressão vieram à mente. Lost Connections do Johann Hari, O Demônio do Meio-dia do Andrew Solomom e Depressão: Doença ou Fenômeno Epocal da Cristine Mattar. (Caso alguém esteja interessado, a ordem listada corresponde à facilidade da leitura).
No primeiro livro, Johann Hari explora uma tese através de inúmeras conversas com cientistas, médicos e com pessoas que vivem e já viveram com depressão e ansiedade. Além da sua própria experiência com questões de saúde mental, o que motivou essa pesquisa foi o desejo de entender o porquê do desproporcional crescimento de casos. O desejo de ultrapassar a explicação que ele ouviu do médico quando adolescente – de que algumas pessoas tinham um desequilíbrio químico no cérebro e que o remédio resolveria esse problema.
Segundo o autor, ele de fato melhorou por um período, mas a depressão foi gradualmente voltando, até o ponto em que ele estava tomando a maior dosagem possível sem que isso o tirasse daquele estado.
Após muita pesquisa e incontáveis entrevistas, ele chegou a nove causas, apenas duas das quais são de fato biológicas – genética (que torna algumas pessoas mais propensas) e desequilíbrio químico (sendo que somente 5% dos casos são gerados por esse fator, apesar do desequilíbrio ser uma consequência dos outros fatores que geram depressão). Ou seja, a maioria das causas está atrelada a maneira com a qual vivemos.
Como demonstra Andrew Solomom, a discussão sobre fatores endógenos e externos ganhou uma complexidade quando as pesquisas começaram a demonstrar que experiência e interpretação da experiência moldam o cérebro, de modo que as causas se misturam – a reiterada influência externa chega a alterar a nossa química e, portanto, vira um fator endógeno. Boa parte dessa interpretação surge com a descoberta que o cérebro possui uma enorme plasticidade.
“O cérebro que entrou em depressão algumas vezes continuará a retornar à depressão repetidamente. Isso sugere que a depressão, mesmo que ocasionada por tragédia externa, no fim das contas muda a estrutura do cérebro, assim como a sua bioquímica.”
“Tradicionalmente, traçou-se uma linha entre os modelos endógenos e os modelos reativos da depressão. O endógeno começa internamente, sem motivo aparente, enquanto o reativo aparece como uma resposta extremada a uma situação triste. Essa distinção desmoronou na última década, quando se tornou claro que a maioria das depressões mistura fatores internos e reativos.” (SOLOMOM)
O que indica – conforme demonstram vários estudos – que o caminho oposto também é verdadeiro. Mudanças (positivas) de hábitos afetam a nossa química cerebral.
“‘Eu não acredito que problemas com causas psicossociais exijam, necessariamente, um tratamento biológico’, disse Ellen Frank, da Universidade de Pittsburgh. É surpreendente ver que pacientes que se recuperam da depressão através da psicoterapia mostram as mesmas mudanças biológicas – por exemplo, no eletroencefalograma do sono (EEG) – que aqueles que recebem medicação.’”
Nenhum dos autores se opõe à utilização de remédios, mas apontam que resumir a causa da depressão a um desequilíbrio químico é uma medonha simplificação.
Das nove causas de depressão listadas por Johann Hari, uma das principais é solidão – o que me lembra de um outro livro que eu já discuti aqui em que uma professora de psicologia (Lisa Miller) diferencia dois tipos de atenção, de cima para baixo (a mais usada na nossa sociedade) e a de baixo para cima. Aqui eu vou transcrever o trecho da Newsletter XVI: