Pedro Cirri
 
Todas as Coisas que Brilham
Newsletter XXVI - 10.04.2023
 
Todas as Coisas que Brilham (Every Brilliant Thing) é um documentário disponível na plataforma da HBO. Mais precisamente, é a filmagem de um monólogo, com frequente participação do público, sobre depressão e suicídio. Tanto a atuação quanto o texto são surpreendentemente bons. Apesar do tema, a profundidade é intercalada com momentos cômicos que dão leveza e tornam o documentário facilmente digerível.
 
A história narrada descreve um menino de sete anos que desenvolve uma maneira criativa de lidar com a tentativa de suicídio da própria mãe. Ele elabora uma lista de coisas brilhantes, coisas pelas quais vale a pena viver.
 
O passar dos anos não interrompe esse longo argumento contra o suicídio e as diferentes fases se refletem nos itens escolhidos - que de “sorvete” e “filmes de Kung Fu” passam para coisas mais específicas como o início de um determinado álbum de jazz ou a perspectiva de se vestir como um lutador mexicano. A lista atravessa a infância e a adolescência até atingir um milhão de itens, sendo os últimos escritos por um adulto divorciado que, assim como a mãe, também luta contra a depressão.
 
Todo o monólogo, apresentado por um ator em seus quarenta anos, é marcado por uma empolgação, por um entusiasmo de alguém que, apesar dos percalços, enxerga a beleza de estar vivo. Beleza que, na maioria das vezes, se encontra em objetos ou gestos simples, em elementos cotidianos que poderiam muito bem passar despercebidos.
 
Entusiasmo, de in theos – estar com Deus em você, tomado por algo divino – que muito se assemelha à curiosidade infantil, me parece ser uma maneira de se aproximar da vida. Entusiasmo é se afastar das certezas, afinal, são as convicções que tornam o mundo previsível, monótono e carente de beleza.
 
Já fui muito seguro das minhas próprias opiniões. Mesmo jovem, era envelhecido. Não experiente, mas envelhecido.
 
Segundo Gadamer, experiente é aquela pessoa que permitiu com que suas opiniões fossem revisadas por novas situações. Exatamente por esse motivo, a pessoa experiente nunca se gabaria de sua experiência, pois amanhã todo o seu conhecimento poderia ser contrariado por uma nova vivência.
 
Pessoas muito convictas não se tornam experientes, apenas velhas.
 
Agarrado às minhas opiniões, enxergava o entorno e as pessoas como previsíveis e incapazes de me surpreender. Se naquela época eu fosse escrever uma lista, suspeito que a maioria dos itens estaria atrelada a um porvir, àquilo que eu gostaria de conquistar. Tão autocentrado a ponto não apreciar o já disponível.
 
Schopenhauer tem uma brilhante e terrível expressão – de que a vida é um pêndulo que oscila entre o sofrimento por não ter algo desejado e o tédio quando se finalmente obtém o objeto de desejo.
 
Enfim.... voltemos ao tema do documentário, mas se possível guardando em mente essa oposição entre entusiasmo e olhar autorreferente.
 
Logo após assistir o monólogo, três livros sobre depressão vieram à mente. Lost Connections do Johann Hari, O Demônio do Meio-dia do Andrew Solomom e Depressão: Doença ou Fenômeno Epocal da Cristine Mattar. (Caso alguém esteja interessado, a ordem listada corresponde à facilidade da leitura).
 
No primeiro livro, Johann Hari explora uma tese através de inúmeras conversas com cientistas, médicos e com pessoas que vivem e já viveram com depressão e ansiedade. Além da sua própria experiência com questões de saúde mental, o que motivou essa pesquisa foi o desejo de entender o porquê do desproporcional crescimento de casos. O desejo de ultrapassar a explicação que ele ouviu do médico quando adolescente – de que algumas pessoas tinham um desequilíbrio químico no cérebro e que o remédio resolveria esse problema.
 
Segundo o autor, ele de fato melhorou por um período, mas a depressão foi gradualmente voltando, até o ponto em que ele estava tomando a maior dosagem possível sem que isso o tirasse daquele estado.
 
Após muita pesquisa e incontáveis entrevistas, ele chegou a nove causas, apenas duas das quais são de fato biológicas – genética (que torna algumas pessoas mais propensas) e desequilíbrio químico (sendo que somente 5% dos casos são gerados por esse fator, apesar do desequilíbrio ser uma consequência dos outros fatores que geram depressão). Ou seja, a maioria das causas está atrelada a maneira com a qual vivemos.
 
Como demonstra Andrew Solomom, a discussão sobre fatores endógenos e externos ganhou uma complexidade quando as pesquisas começaram a demonstrar que experiência e interpretação da experiência moldam o cérebro, de modo que as causas se misturam – a reiterada influência externa chega a alterar a nossa química e, portanto, vira um fator endógeno. Boa parte dessa interpretação surge com a descoberta que o cérebro possui uma enorme plasticidade.
 
“O cérebro que entrou em depressão algumas vezes continuará a retornar à depressão repetidamente. Isso sugere que a depressão, mesmo que ocasionada por tragédia externa, no fim das contas muda a estrutura do cérebro, assim como a sua bioquímica.”
 
“Tradicionalmente, traçou-se uma linha entre os modelos endógenos e os modelos reativos da depressão. O endógeno começa internamente, sem motivo aparente, enquanto o reativo aparece como uma resposta extremada a uma situação triste. Essa distinção desmoronou na última década, quando se tornou claro que a maioria das depressões mistura fatores internos e reativos.” (SOLOMOM)
 
O que indica – conforme demonstram vários estudos – que o caminho oposto também é verdadeiro. Mudanças (positivas) de hábitos afetam a nossa química cerebral.
 
“‘Eu não acredito que problemas com causas psicossociais exijam, necessariamente, um tratamento biológico’,  disse Ellen Frank, da Universidade de Pittsburgh. É surpreendente ver que pacientes que se recuperam da depressão através da psicoterapia mostram as mesmas mudanças biológicas – por exemplo, no eletroencefalograma do sono (EEG) – que aqueles que recebem medicação.’”
 
Nenhum dos autores se opõe à utilização de remédios, mas apontam que resumir a causa da depressão a um desequilíbrio químico é uma medonha simplificação.
 
Das nove causas de depressão listadas por Johann Hari, uma das principais é solidão – o que me lembra de um outro livro que eu já discuti aqui em que uma professora de psicologia (Lisa Miller) diferencia dois tipos de atenção, de cima para baixo (a mais usada na nossa sociedade) e a de baixo para cima. Aqui eu vou transcrever o trecho da Newsletter XVI:
 
Na atenção de cima para baixo, interagimos e percebemos o mundo já com um objetivo em mente. A nossa percepção filtra, de modo automático e inconsciente, aquelas informações que não têm relação com esse objetivo. Quando você está procurando a chave do carro pela sua casa, passa batido por todos os objetos dos quais você não precisa naquele momento. Pode até não se dar conta de que a televisão está ligada e passando um programa que você queria muito assistir. O mesmo fenômeno se dá em tarefas mais complexas. Ao estar muito envolvido com um projeto no seu trabalho, você pode não se dar conta de que uma pessoa da sua equipe está passando por um período difícil. A dificuldade dessa pessoa não aparece para você devido ao foco excessivamente restrito.
 
Esse tipo de atenção, que é essencial para que consigamos alcançar nossos objetivos, pode trazer a sensação de isolamento se usado em excesso e/ou com muita intensidade. Chega até a moldar os caminhos neurais do cérebro, formando padrões de depressão, ansiedade e stress. O uso exclusivo desse tipo de atenção leva a uma desconexão com sentidos maiores, a um isolamento em função de pensamentos exageradamente autorreferenciais.
 
O mundo se torna um espaço neutro sobre o qual podemos agir. É um modo de ser que, ao focar na nossa individualidade, nos segrega de contextos maiores. Como consequência, qualquer frustração passa a ser resultado da nossa incapacidade e, mesmo quando as coisas estão indo bem, esse funcionamento tende a criar uma obsessão com a manutenção do status quo.
 
Em linhas gerais, estamos falando de um tipo de foco que dá ênfase aos nossos atos, chegando muitas vezes a reduzir as situações a simples relações de causa e consequência, o que confere um peso desproporcional ao nosso agir.
 
Não é à toa que a intensificação dessa atitude go get it é acompanhada por uma epidemia de questões mentais.
 
E é nesse ponto em que o tema se liga ao livro da Cristine Mattar. Ela resgata um diagnóstico social feito por Chul-Han no início de seu livro e usa essa análise para diferenciar os fatores causadores de depressão e ansiedade na época do surgimento da psicanálise dos fatores da nossa época.
 
“O neurótico, que poderia responsabilizar a cultura social e a dinâmica familiar primária, sobretudo os pais, pelos seus conflitos e mal-estar tratados no divã, vai se metamorfoseando, nas queixas clínicas, no depressivo ou no insatisfeito que culpa a si mesmo pelo seu sofrimento.”
 
“Na sociedade da positividade produtiva, tudo é super: supercomunicação, superrendimento, superprodução. O problema é que a fadiga, a exaustão e a sensação de sufoco experimentados não são imunológicos, não constituem defesas ou expulsão do estranho excesso de ritmo que o produz, mas são alinhadas com ele. O indivíduo não só fica sem defesa, como procura ainda mais cultivar e retomar o elemento patógeno.”
 
“No lugar do limite imposto pelo superego, a imposição é a de projetar-se no eu ideal, o que passou a ser entendido como um ato de liberdade. Na impossibilidade de alcançar o eu ideal, o eu percebe-se como deficitário, fracassado, e passa à autocondenação.” (MATTAR)
 
O ganho da liberdade com conquistas sociais, com estados e famílias menos autoritárias, com mais possibilidades de transições profissionais, acabou unificando vítima e carrasco na mesma pessoa. Agora, você imprime o seu próprio sofrimento através da assunção dessa “liberdade”. Liberdade para ser feliz e bem-sucedido.
 
Não vou me esticar nesse ponto – que já é meio batido e já foi explorado em outras newsletters. O que eu quero é demonstrar como todas essas coisas estão ligadas.
 
O olhar autorreferencial – com tamanha liberdade, tudo se torna sobre você, tudo recai sobre você -, olhar esse que traz um isolamento, já que a atenção passa a ser exclusivamente de cima para baixo, onde o entorno é ofuscado em prol da iluminação dos seus objetivos. Como consequência você se impõe um modo de estar no mundo distanciado dos outros e, principalmente da beleza do que já está lá, disponível. Não à toa, com tamanha pressão (autoimposta) por desempenho, simplificamos tudo aquilo que não possui direta relação com o “chegar lá”. Nessa simplificação, as coisas deixam de ser intrigantes e passam a ser conhecidas e sem graça. O entorno e as pessoas se tornam previsíveis, afinal, sequer há abertura para que elas te surpreendam.
 
A explicação a partir de teorias e diagnósticos sociais é apenas secundária. Se você prestar atenção, a sua própria experiência já deixa tudo isso evidente. Pense nas pessoas que são muito assertivas, muito seguras da própria opinião. São sérias demais e até envelhecidas para a própria idade. Não há nada mais sem vida do que alguém que chega ao cúmulo de fazer referência a si próprio num discurso - “como eu sempre digo...”. É chata a vida desse lugar. Eu bem sei. Chata e angustiante, como o pêndulo de Schopenhauer. A ponto de ser impossível escrever uma lista de coisas brilhantes, impossível de ter prazer no ordinário e ver beleza no supostamente trivial.
 
Como é fácil esquecer que isso é um curto intervalo entre dois enormes vazios. Na melhor hipótese, entre dois enormes desconhecidos. Quando você poderá ter sensações senão nessa vida? Ver cores, sentir gostos e cheiros? 
 
E como é difícil resgatar a curiosidade que um dia já tivemos pelas coisas, pelas pessoas e pela natureza. Há toda uma desconstrução para nos reaproximarmos da vida. Uma desconstrução que parte do desfazimento de opiniões e da abertura de espaço para que voltemos a nos surpreender pelo cotidiano.
 
Momentos de um hedonismo pouco ambicioso não são apenas resgates de uma postura doce e infantil, mas são modos de, aos poucos e com recorrência, reestruturar sua química cerebral e seus circuitos neurais.
 
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
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