Pedro Cirri
 
Tédio e Fuga
Newsletter XXV - 27.03.2023
 
Estou lendo o sexto e último volume da série “Minha Luta” do Karl Ove Knausgard. Fiquei segurando esse livro por mais de um ano, me contentando com a mera possibilidade de um prazer futuro. O enorme lapso entre o quinto e este volume não prejudicou o meu envolvimento com a obra. Afinal, não se trata da narrativa em primeiro plano. Inclusive, boa parte dela eu já havia esquecido. Se trata da atmosfera em que sou colocado pelo autor.
 
Reli um ensaio que escrevi após o primeiro livro, que no fundo era uma tentativa de colocar em palavras, e assim compreender, o porquê de tanto fascínio com essa série literária.
 
Não vou falar diretamente sobre o livro. Ficaria chato. Vou falar das associações que foram surgindo ao longo da leitura. Acho que “foram surgindo” seria mesmo o melhor termo. Algo para além do meu controle. Não as criei voluntariamente.
 
Podem parecer aleatórias de início, mas quem sabe eu não consigo fechar o círculo ao final. Até lá, teremos algumas paradas. Um podcast, um filme de Ozu e uma obra de um filósofo coreano.
 
Karl Ove me transporta para um tempo diferente. Um tempo que não é do nosso tempo. Explico - a medida dos segundos é constante, claro, mas a relação do homem com esse transcurso é epocal. Não falo aqui apenas do tempo subjetivo vs objetivo, mas de um diagnóstico social sobre o modo de viver. Como o tempo é o horizonte de nossas ações, me refiro a uma maneira de estar no mundo que afeta a nossa relação com essa medida.
 
Obviamente, não sou eu que falo essas coisas, apenas replico a análise de pensadores conhecidos. Replico ideais que fizeram tanto sentido para mim que em algum nível pareciam previamente elaboradas em minha mente. No fundo, claro que não, mas suspeito que essa sensação seja o reflexo do contato com verdades profundas. Elas já estão presentes, escondidas em algum lugar. A informação externa não cria, apenas ilumina uma intuição.
 
Voltemos.
 
Não temos a mesma noção de tédio do que os gregos antigos. Se é que essa palavra existia para eles. Imagine se um de nós viajasse no tempo e caísse no meio de Atenas. Não demoraria muito tempo para sermos diagnosticado com algum distúrbio de inquietação aguda.
 
Você viu aquele documentário chamado “The Social Dilemma”? (vou direcionar as palavras). Caso não tenha visto, veja.
 
Então, os criadores desse documentário também têm um podcast – “Your Undivided Attention”. A cada episódio eles chamam um entrevistado diferente. Em um deles, uma profissional do mundo do cinema mencionou o processo de encurtamento de cenas de filmes, bem como o aumento de quantidade de situações que criam tensão para prender a atenção da audiência. Além de curiosa, achei essa informação triste – estúdios se adaptando a (e estimulando) mentes cada vez mais inquietas.
 
Alguns meses pós ouvir esse episódio, acabei lendo “A Elegância do Ouriço” da Muriel Barbery. Os dois principais personagens, uma zeladora de um prédio de alto padrão e um morador milionário, descobrem uma paixão em comum – os filmes do diretor japonês Yasujiro Ozu.
 
Fiquei intrigado e resolvi assistir suas principais obras - dentre eles Tokyo Story (Era uma Vez em Tóquio). Como nos outros, há algo de desconfortável, uma ausência de história que leva a uma inicial ânsia por movimento. Nada de extraordinário acontece.
 
Ao chegarem no spa, o casal de senhores se senta para tomar um chá enquanto admiram a paisagem. Comentam que nunca estiveram num lugar como aquele, ficam em silêncio por um tempo, ela diz que deve ter custado caro para os filhos, ele faz um barulho concordando, voltam ao silêncio, conversam pausadamente sobre as caminhadas ao redor, ela menciona que uma das faxineiras elogiou a natureza da região e, por fim, ele comenta sobre a calmaria do mar. Passam, então, a mostrar o mar.
 
Na próxima cena, eles estão deitados tentando dormir enquanto música ao vivo toca no lobby do hotel. A cena captura vários segundos em que os personagens estão mudos, cada um se abanando com um leque, ouvindo o zunido misturado de música, contato de copos com mesas e conversas sobrepostas. Ela comenta que está barulhento, ele faz um som concordando, ela pergunta que horas são, ele faz o mesmo som e acaba não respondendo. Voltam a ficar em silêncio.
 
As cenas não transmitem uma mensagem evidente, não são eficientes em termos de enredo. São desconfortavelmente próximas à vida real. Próximas a uma morosidade angustiante da qual tentamos escapar.
 
Ainda assim, prendeu a minha atenção. Não pela construção de intrigas, por subsequentes tensões e resoluções, mas por uma sensação que demorei para identificar.
 
O filme é atravessado por uma humanidade de significados capengas. Nada ali aparece com muito sentido, nada é feito porque evidentemente precisa ser feito. Nenhuma ação do filme é bem sustentada por motivos. Podem visitar ou não os filhos em Tóquio. Demoram para ir e, ao chegar, são obrigados a lidar com uma recepção estranha, mas nada que já engatilhe uma série de respostas. Eles vagam pela cidade, num ritmo à deriva e passam a se sentir um fardo para os filhos.
 
A história é repleta de momentos em que a frase “tanto faz” traduziria a atmosfera presente. Nada precisa ser feito. Nenhuma convicção impele os personagens à ação.
 
Isso que me prendeu. O filme carrega algo de muito real.
 
Relaciono o filme ao podcast não apenas pelas cenas longas e paradas, que entendedores de cinema chamam de técnica do tempo morto, mas principalmente por nos colocar no tempo do qual estamos constantemente tentando fugir. Talvez não somente um tempo, mas um modo de viver. Com menos certezas, sentidos menos firmes e com o vazio rondando o nosso estado de espírito.
 
Chul-Han em “A Sociedade da Transparência” apresenta uma análise parecida, sob um outro enfoque. Nos adaptamos a uma comunicação que prioriza a quantidade de informações em detrimento da profundidade. Tudo que processamos precisa conter uma mensagem facilmente assimilável. Caso contrário, não acompanhamos o ritmo da nossa época. As comunicações vão gradualmente se adaptando a esse formato. Como consequência, se descolam da ambiguidade que é inerente à vida. Mostra-se a maior quantidade de informações possível, passando batido por conteúdos velados e ângulos
incomuns.
 
A morosidade passa a ser inimiga da comunicação atual, não é mais viável se demorar com o conteúdo, muito menos abrir espaço para que ele se mostre.
 
É isso que, na minha visão, consegue fazer o brilhante diretor japonês. Com um enredo sem tensão, ele leva a audiência a abrir espaço, permitindo com que a humanidade dos personagens se mostre, com que eles compartilhem aspectos profundos da existência - a ausência de sentido, a tendência que a vida tem de escapar dos planos e, principalmente, a finitude.
 
Karl Ove compartilha a sua existência com todas as peculiaridades de quem é humano. De quem tem uma escuta apurada para suas incongruências, para o “tanto faz” que parece acompanhar as suas decisões. Ao aproximar a narrativa do seu pensamento, ele escancara a fragilidade dos sentidos que o mundo nos fornece.
 
Assim como Ozu nos transporta para esse tempo sem solavancos, Karl Ove entra em tantas minúcias do seu cotidiano que abandonamos o anseio por ação ou intrigas e direcionamos o olhar à profunda humanidade que ele nos revela. As duas obras parecem reduzir a nossa inquietação, abrindo espaço para a força do que já está ali presente – a condição humana, a indeterminação, imprevisibilidade e impermanência. [Curioso que essas três palavras começam com (in/im) como se não conseguíssemos definir o que é, apenas dizer o que não é.]
 
Entrar em contato com esse tempo e, no fundo, com essa verdade pressupõe aquietar as oscilações da mente e permitir com que o tédio se aproxime ao invés de se esforçar (em vão) para afastá-lo.
 
É nesse estado em que a vida pode se assentar um pouco mais e em que nos permitimos acessar a existência por inteiro, nos colocando em jogo.
 
Imagine uma pedra lançada na superfície ondulada de um mar. Quanta diferença fará aquele evento numa água cheia de movimentos? Já numa superfície de um lago sem vento, o lançamento da pedra irá reverberar longe, se destacando no plano liso. A agitação nos protege, fazendo com que os eventos se percam em meio a tanta marola. Não somos tão impactados, mas ao mesmo tempo, quando olhamos para trás, parece que nada aconteceu, que nada realmente nos marcou.
 
Os parágrafos de Karl Ove no meio de um enredo cheio de intrigas seriam desconfortavelmente sem graça. Já esses mesmos parágrafos numa obra que não cede ao ritmo contemporâneo criam no leitor uma abertura para tudo aquilo que já está presente e que, à primeira vista, pode parecer incômodo – o tédio, a indeterminação, a ausência de sentido...
 
Há algo nesse movimento que se assemelha à meditação. Os primeiros minutos carregam as oscilações mentais do cotidiano fazendo com que não sustentemos a quietude e o esvaziamento. Há uma vontade de sair, de pensar em assuntos específicos ou até de abrir os olhos e se levantar. O desafio é conseguir ficar um pouco mais. E, nesse tempo extra, talvez ter a possibilidade de sentir que aquela inquietação não é permanente. Em algumas meditações, algo acontece e você ultrapassa a arrebentação. Um silêncio se instala. De repente, você entra num tempo diferente, numa frequência mais baixa onde tudo se torna mais sutil e ao mesmo tempo intenso.
 
Quanto mais tentamos fugir do tédio, mais amedrontador ele se torna. Uma fuga eterna fadada ao fracasso.
 
Naquele ensaio que eu havia escrito, tinha uma frase dita por um professor de
fenomenologia – “amor é compartilhamento de solidão”. Ao reler, achei descolada, fora de contexto. Algumas horas depois, estava preparando um chá e uma associação surgiu na minha mente. Vou tentar elaborar.
 
De alguma maneira, eu me sinto menos sozinho ao ler Knausgard. Ao acessar as bases esboroadas de uma outra existência - as suas dúvidas, o tédio, suas inseguranças, as decisões pouco convictas, os momentos de tomada de risco e os êxtases temporários, me sinto acompanhado nesse estranho caminho. Enquanto o mundo finge saber o que fazer, há ali um autor que revela algo real.
 
Aqui não falo de uma solidão que seria apaziguada com um amor correspondido. Falo de uma solidão inafastável, decorrente do fato de que só eu posso viver por mim, de que por mais que eu tente me definir, algo sempre escapará. Tal como o tédio, se trata de uma emoção que acompanha qualquer tipo de fuga. Obras, filmes e pessoas que sustentam esse lugar são convites para que façamos as pazes com a nossa condição mais profunda.
 
Eis a explicação para a frase do professor de fenomenologia. Ajudar alguém a aceitar a sua própria condição existencial, não através de uma fala filosófica, mas através da sua própria conduta, é um enorme gesto de amor – principalmente pelo fato de que abrir essa camada pressupõe estar muito à vontade com esse alguém.
 
O mais doido é que eu li essa frase no ensaio anterior, achei desconexa, deletei e de repente surgiu esse pensamento enquanto eu preparava o chá. Incrível como a gente exagera o papel da racionalidade e da escolha. Somos muito mais responsivos do que imaginamos. Enfim, só uma digressão.
 
Espero que essas newsletters te coloquem num tempo mais devagar....
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
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