Pedro Cirri
 
Ideais
Newsletter XXIV - 13.03.2023
 
Nesses dias, eu estava lendo um livro do Osho chamado “Love, Freedom, Aloneness” – o que eu encarei de forma auto-elogiosa como um ato de desprendimento, uma tentativa de suspender os meus julgamentos (ainda mais depois de assistir Wild Wild Country) e abrir espaço para um novo olhar.
 
Que Osho acessou algo que poucos acessam, eu não tenho dúvida. Há uma profundidade nas palavras que denota um outro contato com a vida, uma capacidade de ver para além das pequenezas nas quais nos atolamos.
 
Ele descreve uma linda maneira de estar no mundo - aberta, desapegada e livre. De um desprendimento tão grande que o seu amor confere liberdade aos outros, permitindo com que cada ser viva a sua essência sem as amarras da insegurança. Um sentimento que se afasta de pensamentos autorreferenciais, afinal, quem realmente ama está num estado de paz meditativa, distante da falta e próximo à abundância.
 
“When you are absolutely happy in your aloneness – when you don’t need the other at all, when the other is not a need – then you are capable of love. If the other is your need you can only exploit, manipulate, dominate, but you cannot love.”
 
Esse trecho me lembrou aquele livro de ilustração que fez bastante sucesso recentemente (“A Parte que Falta”), cuja principal mensagem era sobre um amor que não se busca para suprir vazios, que na verdade nem se busca, mas que surge para aqueles que se sentem inteiros em suas imperfeições, que estão dispostos a crescer com outros ao invés de usá-los como muletas.
 
É difícil não se deixar levar por essas palavras. Elas revelam sentimentos tão nobres, tão próximos ao que eu imagino ser uma vida mais evoluída.
 
Também é difícil não cair na tentação de confundir um ideal com a realidade, se impondo uma filosofia de vida que no fundo não traduz o seu mundo interno, mas apenas abafa desconfortos.
 
É sedutora a ideia de um amor desprendido, afinal, quem não quer viver livre de inseguranças?
 
Talvez o guru do Rolls-Royce realmente acessasse essa plenitude meditativa que viabiliza um amor “verdadeiro”, só que como ele mesmo afirma: esse estado se atinge com a extinção do ego.
 
Apesar de meditar e praticar yoga todos os dias, tenho ciência que faço parte da ralé da roda cármica e de que não existem atalhos. Um mantra matinal não vai dissolver as minhas questões egóicas.
 
Suspeito que usar esses belos conceitos como prática e não como norte é virar o rosto para o que incomoda, tentando tamponar com racionalidade as emoções que nos mobilizam.
 
Então, para que servem ensinamentos como o do Osho? Acho que para referência, como um marco para os momentos em que você consegue se afastar do seu turbilhão emocional e se perguntar o que motiva aquela sua atitude? É medo ou amor? Você consegue bancar a insegurança ou precisa aliviá-la? São essas belas referências que nos provocam reflexões e quem sabe a coragem de largar hábitos que sobrevivem por inércia e não por real necessidade.
 
No documentário sobre o Yogananda, alguns discípulos foram entrevistados sobre o início da vida em retiro. Um deles, mais dado a festas e birita, ficou chocado com a ausência de restrições impostas pelo mestre. Yogananda sabia que se ele seguisse os seus ensinamentos, mais cedo ou mais tarde não sentiria tanta necessidade de viver daquela maneira.
 
Seja qual for o aspecto espiritual em questão, a sua incorporação deveria se dar mais pelo desdobramento orgânico de algo que já se encontra presente, do que pela identificação com os preceitos difundidos. Para isso, os sentimentos são termômetros muito mais fiéis do que a razão, que muitas vezes traduz o que você gostaria de ser ao invés de quem você realmente é.
 
Diferente do Osho, o Prem Baba escreve sobre relações mais mundanas (as citações estão controversas nessa Newsletter... já já vem uma oração bacana do João de Deus).
 
Não... jamais colocaria essas figuras no mesmo balaio.
 
No livro cujo título mais parece o slogan do Rivotril – Transformando Sofrimento em Alegria –, ele fala da relação amorosa como um espaço para desenvolvimento pessoal, como um lugar que pede abertura sob o risco de perda do Eros, como uma oportunidade de fazer diferente, de não sucumbir aos medos que reverberam feridas antigas, mas revelar ao seu parceiro e a si própria aquilo que você sempre escondeu.
 
Gosto mais dessa visão de um amor imperfeito em construção, de sentimentos complexos que transitam entre o elevado e o egóico, descobrindo com alegria e sofrimento o que é estar com outra pessoa. É aí que está o verdadeiro desafio. Autoimposição de filosofias utópicas que seduzem pela racionalidade é tentar enterrar um ego que ainda tem muito o que viver.
 
Se abrir em relação e ver surgir na dinâmica a dois a suas questões mais profundas é, na minha opinião, o que há de mais bonito.
 
O Ted Talk da Brene Brown toca exatamente nesses pontos. Em vários anos de pesquisa, ela entendeu que tanto medo e vergonha quanto amor-próprio e conexão têm a mesma base – vulnerabilidade. O diferencial é com as pessoas lidam com esse sentimento. Enquanto algumas se fecham, evitando revelar um lado que elas julgam sem valor, outras não se esquivam da abertura, por mais desconfortável que essa exposição possa ser. O que permite sustentar o desconforto é a percepção de que mesmo com os seus aspectos menos vistosos, você como um todo tem muito valor. Acho que é essa compreensão (mais emocional do que racional) que pode aos poucos te aproximar de um amor à la Osho.
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
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