Pedro Cirri
 
Autopromoção
Newsletter XXIII - 27.02.2023
 
 
O ato de se promover, de se lançar como uma oferta aos outros.
 
Quando chegam esses momentos, sinto uma saudade do mundo corporativo, de estruturas renomadas que implicitamente legitimavam qualquer movimento que eu fizesse. Era mais fácil me apresentar. Não era tanto sobre mim, mas sobre o escritório.
 
Essa saudade passa rápido. Já a preguiça em me promover, não. Permanece lá com uma coloração de auto-boicote.
 
O tema desta Newsletter tem relação com esse desafio que tenho enfrentado nos últimos anos. Como eu sei que muita gente transita em algum nível dessa dificuldade, acho vale tentar elaborar o assunto.
 
Por que algumas pessoas têm facilidade em se ofertar, enquanto outras acham que nunca estão prontas?
 
O que está por trás dessa diferença? Quais são as emoções associadas e, principalmente, o modo de estar no mundo que viabiliza o ato de se divulgar?
 
O que normalmente me impede de seguir com uma autopromoção é a sensação de aquilo que eu pretendo divulgar talvez esteja tosco, pouco elaborado, não bom o suficiente.
 
Vamos segurar a pergunta evidente (“e se não gostarem.... qual é o problema”?). Essa indagação não muda meu estado interno, ou pelo menos, não nesse momento inicial da reflexão.
 
Alguns de vocês podem dizer que isso não faz muito sentido, afinal, quinzenalmente eu publico essa newsletter e também a divulgo pelo instragram. Só que escrever envolve uma exposição diferida no tempo. Eu escrevo ao longo das duas semanas e vocês leem alguns dias depois em suas respectivas telas. Não é imediato. Além disso, estou sempre me “protegendo” por trás de livros que acabo citando. Sinto que em algum nível eles me validam.
 
Algo diferente de uma newsletter, como uma aula online ou um workshop, faz com que eu me sinta mais exposto e, como consequência, eleve a autocrítica. Esse rigor, por diversas vezes, acaba impedindo com que projetos saiam do papel.
 
Além do sarrafo alto que tinge as ideais com uma tonalidade pouco atraente, tendo a me sentir falso quando faço alguma autopromoção, como se o aspecto comercial me distanciasse de algo mais genuíno.
 
E é exatamente esse aspecto de autenticidade que eu gostaria de explorar como uma possível saída para aqueles que, como eu, são excessivamente críticos e não gostam de se promover.
 
Pensando sobre maneiras de afrouxar essa rigidez interna, acabei me lembrando de um livro “Quiet – The Power of Introverts in a World that Can’t Stop Talking” escrito pela Susan Cain (que coincidentemente também era advogada de fusões e aquisições).
 
Apesar do título, eu não pretendo tratar esse tema como uma questão pertinente apenas a pessoas introvertidas. Claro... acho que há uma correlação entre essa dificuldade e o tipo de personalidade, mas sei que existem pessoas extrovertidas que às vezes patinam com esse movimento.
 
O que me chamou a atenção no livro e me levou a alguns insights foi uma descrição que a autora faz de um professor psicologia chamado Brian Little. Suas aulas e suas palestras estavam sempre lotadas. Ele tinha uma capacidade de se adaptar ao público, de fazer piadas quando apropriado e de falar com uma entonação séria e pausada quando o contexto assim solicitava. Segundo Susan, Little conduzia uma audiência como poucos. O curioso é que essa figura, que de longe aparenta ser extrovertida e confortável com contatos sociais, era na verdade extremamente introvertida. Quando dava uma palestra anual num colégio militar perto de Montreal, para evitar ter que almoçar com outras pessoas entre as suas duas apresentações, ele fingia ser aficionado por design de barcos e se deslocava até a beira do rio para se isolar. Quando o colégio militar mudou de campus, Little já não tinha mais desculpas e ao invés de se juntar aos outros professores, se escondia no box do banheiro.
 
Susan levanta a seguinte pergunta: se alguém tão introvertido também consegue ser espontâneo, aberto e à vontade com as pessoas, faz sentido falarmos em traços de personalidades? Essas características não seriam determinadas pela situação ao invés de serem um aspecto inato?
 
Bem na época das palestras de Little, o campo da psicologia estava dividido entre essas duas visões, uma que acreditava na existências de características de personalidade e outra que acreditava que não existe um core self, mas personas diferentes em situações diferentes, de modo que a análise do contexto fosse um instrumento mais eficaz para prever o comportamento do que esses supostos traços individuais.
 
Por algumas décadas, prevaleceram os “situacionistas” - o que, no fundo, combina muito bem com o discurso crescente sobre performance das décadas de 80 e 90. Afinal, se o comportamento é determinado pelo contexto, há uma maleabilidade, um vasto espaço para manuseio até que se chegue estado ótimo da eficiência.
 
No entanto, na mesma linha tomada pela discussão nature vs nurture, os pesquisadores entenderam que ambos os aspectos existem e influenciam o comportamento.
 
A autora coloca uma outra questão – tendo isso em mente, deveríamos tentar manipular o nosso comportamento dentro do espectro de cada um ou deveríamos permanecer verdadeiros às nossas características? Em que ponto tentar controlar o nosso comportamento perde o sentido?
 
É aí que entra o pensamento do próprio Brian Little. Por mais que nasçamos com certas características, é possível desviar desses traços inatos sem ferirmos a nossa essência. A resposta está no que impulsiona esse novo agir, no motivo que nos leva a um comportamento fora do nosso estado natural. Quando há verdade, quando nos conectamos com um sentido estrutural, o desvio não agride, não nos percebemos como falsos ou manipuladores, mas obedientes a algo que nos move. O que em outros caso poderia ser visto como falta de integridade se transforma em algo belo com tons até espirituais – você seguindo o seu propósito, navegando entre modos de ser como meios para um fim.
 
Essa exploração de novos modos de agir requer coragem. Não apenas no aspecto de superar desconfortos, mas no sentido mais próximo à etimologia do termo - agir com o coração.
 
Era para terminar com a frase de efeito acima rs... mas vou fazer um adendo, pois conheço algumas pessoas que talvez precisem se lembrar de algo. Num mundo como o nosso, onde tudo é submetido a uma tentativa de objetificação e mensuração, talentos mais sutis tendem a ser relegados a um plano carente de credibilidade. Talentos que são sutis em termos de percepção, mas que no fundo permeiam todo o agir. Ou seja, são de difícil mensuração, principalmente em termos comparativos, mas têm uma influência maior que habilidades mais objetivas. São dessas características, tão estruturais que chegam a passar despercebidas, que precisamos nos recordar. O fato de você ser sensível, de ter um senso crítico apurado, de ser perspicaz e intuitiva. Ao nos lembrarmos dos nossos talentos mais subjetivos, talvez nos aproximemos um pouco mais da possibilidade de ser uma oferta para as outras pessoas.
 
Outro ponto que me veio à mente (mais um adendo) foi um trecho do livro Presence da Amy Cuddy (que eu já mencionei em algum newsletter). (muitos parênteses aqui). (ok)
 
Num experimento, tanto um grupo de alunos que realizaria os exames finais, quanto um grupo de profissionais do meio corporativo prestes a fazer uma apresentação para o Board da empresa foram instruídos a manter um diário sobre seus valores mais estruturais. A ideia era escrever sobre esses temas e também narrar situações em que esses assuntos foram vivenciados.
 
O fato de terem entrado em contato, durante alguns dias, com aquilo que mais importava para eles, fez com essas pessoas, antes da prova e da apresentação, estivessem com os níveis de stress reduzidos (em comparação aos grupos de controle). Níveis mais baixos de cortisol e adrenalina indicam uma menor percepção de ameaça, ou seja, eles estavam menos preocupados com a avaliação. Não por terem estudado e se preparado mais do que o grupo de controle, mas pelo fato de que eles estavam mais seguros de si, mais próximos a quem realmente eram e, portanto, menos suscetíveis ao olhar alheio.
 
Ao lembrarmos dos nossos valores mais estruturais, nos conectamos com uma verdade e, quem sabe, com o motivo de estarmos vivos. Esse resgate relativiza a autocrítica e abre espaço para um novo agir, possivelmente distante dos seus traços inatos.
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
pcirri84@hotmail.com