Gosto da evolução do vitimismo para a auto-responsabilização, bem como da marcação em etapas, deixando claro que entre percepção e mudança há um longo caminho.
O que esse texto não deixa tão marcado é que esse percurso não se atravessa por mera determinação. Transformações não são resultados da somatória entre vontade e dedicação.
Se assim fosse...
Então, que está em jogo num processo de mudança?
Desvelar a origem dos padrões, escavando traumas soterrados? Acho que sim. Compreensão traz contornos e contornos nos ajudam a dimensionar questões e ajustar reações.
Não é à toa que algumas linhas terapêuticas dão bastante enfoque à infância.
O que mais?
Medard Boss aprendeu com Heidegger que o termo “análise” apareceu pela primeira vez em Odisseia e se referia ao desfazimento da trama de um tear. Bonito, não?
Penélope, na tentativa de adiar o seu novo casamento, havia pedido para que a união somente se realizasse uma vez que ela houvesse terminado uma determinada peça. Toda noite, ela desfazia a trama que tecera durante o dia.
Nas palavras de Boss: “Em grego, significa também soltar, por exemplo, soltar as algemas de um preso, libertar alguém da prisão; analysein pode significar também desmontar os pedaços de uma constrição, por exemplo, desmontar as barracas”.
Podemos pensar no desemaranhar de fios embolados, fazendo com que cada desfazimento (cada análise) leve à compreensão sobre a origem daquela ponta que conseguimos ver e puxar.
Só que ainda estaríamos apenas na esfera da nomeação e dos contornos.
Tenho as minhas dúvidas se apenas isso é suficiente. Talvez para algumas pessoas seja. A nomeação e a clareza podem gerar um novo movimento, trincando gessos antigos e ganhando novos espaços. Ou não. Quantas pessoas não passam anos em terapia e continuam iguais?
Com base nessa noção de desfazimento e soltura, Paulo Evangelista fala em uma “libertação da existência para o seu poder ser”.
“Libertação para o seu poder ser” sugere um rompimento, abertura de espaço para um novo modo de estar no mundo.
Não há fórmulas para como se chegar a essa etapa da transformação. Isso seria sucumbir à vontade de controlar o desfecho dos processos e (novamente) qualquer lacração nesse sentido seria altamente suspeita. No entanto, acredito que existem posturas que podem abrir mais espaço para que as mudanças (incontroláveis) aconteçam.
Na toada mais fenomenológica, vamos falar sobre uma disposição para revisar os nossos compromissos identitários.
Entrando um pouco numa visão heideggeriana, nós apaziguamos a nossa indeterminação existencial (o fato de não sermos nada a priori, não termos essência, não sermos coisa e não termos uma razão evidente para estarmos aqui) com os sentidos que o mundo nos fornece. Há uma identificação com sentidos historicamente estabelecidos e, com isso, vamos criando uma identidade. A depender do caso, uma identidade mais ou menos flexível. Ou seja, mais ou menos apegada a certos compromissos, a certas noções que parecem sustentar a existência.
Dependendo da rigidez, essas identificações podem gerar obstruções na lida cotidiana, podem empobrecer o contato com o mundo, impedindo uma abertura aos fenômenos, impossibilitando que tais fenômenos se mostrem como são.
Ficou denso e meio enigmático. Vamos aos exemplos.
Pensemos em alguém que cresceu se apoiando em julgamentos sobre força e fraqueza, em concepções que valorizam autossuficiência a tal ponto que pedidos de ajuda apareçam como atestados de incompetência. Essa rigidez empobreceria o contato com certos fenômenos como a amizade. Uma relação entre amigos jamais poderia se mostrar em seu máximo potencial enquanto tiver que se moldar a tais noções, a um formato onde não se pode contar com o outro em momentos de dificuldade.
O que eu acho muito bonito desse olhar é a noção de que os fenômenos (as coisas, as relações...) têm uma verdade e que precisamos abrir espaço para que eles se mostrem por inteiro. Noções rígidas sobre a vida muitas vezes limitam tais aparições.
Questionar as suas próprias concepções é abrir espaço para que o mundo se revele em sua inteireza.
Uma lida mais rica pressupõe abertura, suspensão de juízos e, acima de tudo, uma curiosidade quase infantil sobre a vida.
Todos nós temos compromissos identitários. Segundo o olhar da psicologia fenomenológica, é assim que escapamos da angustiante indeterminação existencial. O que varia é o grau de rigidez e, consequentemente, o quanto esses compromissos empobrecem a nossa vida, como nos impedem de acessar as verdades dos fenômenos.
“No sentido de que aquele que se conhece é quem tem clareza a respeito dos compromissos prévios em jogo no projeto de sentido que é, e de qual o âmbito de suas possibilidades e restrições.” (Paulo Roberto Machado, 2021).
Veja... falar de compromissos identitários não é a mesma coisa que falar sobre padrões comportamentais. Compromissos muitas vezes estão na base desses padrões.
Ainda assim, poderíamos fazer a mesma pergunta. Basta reconhecer os seus compromisso para que eles comecem a se dissolver? Talvez...
Uma coisa que eu aprendi na pele e não nos livros foi o poder de atividades que te colocam num modo de ser distante do seu padrão.
Também meio enigmático... vou tentar deixar mais claro.
Todos nós temos uma predisposição maior a agir de um modo e não de outro. Ninguém que eu conheço tem uma total plasticidade.
Por plasticidade, eu me refiro a uma fluidez, a uma capacidade de plenamente se adaptar às situações, a ser resolutivo ou compreensivo quando preciso, a acessar compaixão com a mesma facilidade que acessamos a raiva, a entrar num estado de entusiasmo do mesmo modo que às vezes buscamos estabilidade.
Na realidade, os variados recursos nunca estão equidistantes, enquanto alguns estão bem próximos, outros estão tão longe a ponto de serem inalcançáveis.
Fomos nos moldando desde pequenos através da relação de estímulo e resposta com o nosso entorno, nos apegando às formas que surtiam mais efeito e dispensando aquelas que pareciam ineficazes. Aprendemos por um longo caminho adaptativo a sermos de uma certa forma, a ter emoções mais acessíveis e outras mais distantes, a corporalmente estarmos no mundo de modo a refletir essas nossas predisposições. Afinal, nossa corporalidade reflete a forma como interpretamos a realidade e vice-versa.
Ou seja, você tem um modo específico e esse modo específico de estar no mundo influencia a sua corporalidade, o modo como você interpreta a realidade e as suas emoções.
Começar a se colocar em modos distintos de ser é abrir caminho para que mudanças aconteçam, que emoções pouco familiares se tornem mais recorrentes, que o corpo aprenda novos movimentos e, como consequência, que o cérebro crie ligações neurais até então desconhecidas.
Para mim, isso veio através da yoga. Uma rigidez física, mental e emocional foi gradualmente sendo flexibilizada. Não nasci novamente, óbvio... mas muita coisa foi sendo transformada.
Isso não é receita para mudança, mas eu realmente acredito que o fato de experimentarmos lugares novos nos ensina (de alguma forma não racionalizada) que podemos abrir mão de algumas coisas, talvez de alguns compromissos identitários e, assim, ir ganhando mais plasticidade, mais fluidez até que o punho cerrado vá se abrindo, gastando menos energia para ser.
Tem algo sobre um apego à imagem que mantemos de nós mesmos que me parece estranho. Não só à imagem, mas à narrativa que construímos. Apego não no aspecto da vaidade, mas no sentido de querer se agarrar àquilo que achamos que somos. A minha sensação é que, em algum nível, isso nos afasta de uma vida plena, de uma vida mais intensa, aberta aos fenômenos.
Nas palavras de Alan Watts: “to define has come to mean almost the same thing as to understand. More important still, words have enabled man to define himself – to label a certain part of his experience as I. (…) But because it is the use and nature of words and thoughts to be fixed, definite, isolated, it is extremely hard to describe the most important characteristic of life – its movement and fluidity.”
Resumo de tudo.... miga, sua loka, se joga.