Pedro Cirri
 
 
Mistério
Newsletter XXI - 30.01.2023
 
 
Reli a Newsletter sobre intuição e tomada de decisão (a de número II). Alguns textos têm o poder de nos recordar de algo essencial que foi esquecido, algo tão próximo a nós que muitas vezes deixamos de lado. São textos que resgatam laços dormentes como um sopro de ar em brasas ainda quentes. Esse sobre intuição não foi um deles. Instrui, traz informações interessantes, mas não reascende nenhuma chama, não me reconecta com um sentido maior, tampouco cobre de encanto o áspero cotidiano.
 
Que maneira de escrever sobre intuição... reduzindo-a a regras de ouro (rules of thumb) do inconsciente, a simplificações que utilizamos para navegar num mundo complexo. Não está errado, de fato usamos tais regras binárias para tirar conclusões que sequer passam pela nossa consciência, mas acredito que intuição seja algo maior, parte de um mistério que se anuncia nessas aparições desprovidas de rastro.
 
Sofrendo de febre alta e mal-estar e trancado em seu quarto num centro de tratamento, Schrodinger se debruçou por horas sobre o caderno de anotações, rabiscando soluções para problemas ainda não resolvidos. Alguns dias depois, recuperado e sem sã consciência, revisou o que havia escrito. Nada fazia sentido, as frases eram incompreensíveis como se alguém da ala psiquiátrica houvesse capturado o seu caderno. Talvez ele estivesse mesmo perdendo a cabeça. Só que a fórmula desenvolvida explicava o incompreensível comportamento das partículas subatômicas. Como ele conseguira chegar àquela equação?
 
Em outro capítulo de “Quando Deixamos de Entender o Mundo”, Labatut nos conta que, antes que Einstein publicasse a Teoria da Relatividade Geral, Schwarschild intuiu que a geometria do universo não era uma simples caixa em três dimensões, mas algo complexo que pudesse se torcer e se deformar.
 
Em 1915, poucas semanas após a publicação e lutando no front da Primeira Guerra, Schwarschild recebeu uma cópia da tese de Einstein que ainda não contava com as fórmulas matemáticas que comprovariam a proposta. Em poucos dias, obcecado pelo tema, conseguiu resolver as equações da relatividade geral.
 
Já em seus últimos dias no leito do hospital militar, esse astrônomo e matemático genial teve outra poderosa intuição.
 
Ao resolver as equações, notou um indesejado desdobramento - a singularidade. Indesejado por parecer uma aberração matemática, pois seus cálculos diziam que no momento em que uma estrela perdesse seu combustível e se reduzisse até um ponto infinitesimal, a força da gravidade se tornaria tão forte que o espaço se curvaria de forma infinita, fechando-se sobre si, o que faria com que esse ponto fosse separado do universo para sempre, como se tivesse caído no fundo do poço.
 
“Segundo Karl (Schwarschild), o pior da massa concentrada a esse nível não era a forma como alterava o espaço e nem os estranhos efeitos que tinha sobre o tempo: o verdadeiro horror – ele disse – é que a singularidade era um ponto cego, fundamentalmente incognoscível. Como a luz não podia sair dali, nunca poderíamos entendê-la com a mente, já que a matemática da relatividade geral perdia sua validez na singularidade. A física simplesmente deixava de fazer sentido.”
 
Schwarschild fez uma última pergunta ao seu companheiro de hospital antes de os enfermeiros o levarem: se esse tipo de aberração era possível para a matéria, haveria um correlato na mente humana? Uma concentração suficiente de vontades, milhões de seres humanos submetidos a um só propósito desencadeariam algo similar à singularidade, algo que fugiria de qualquer explicação física?
 
Hoje, alguns pesquisadores atestam que sim, que várias mentes reunidas, focadas num mesmo evento têm a capacidade de influenciar a matéria de maneira inexplicável. Segundo um longo projeto da Universidade de Princeton chamado Global Consciousness Project, quando várias consciências humanas se tornam coerentes, o comportamento de sistemas randômicos é alterado.
 
É difícil explicar essas intuições recorrendo apenas a regras de ouro da consciência, em acúmulo de experiência que acabam por formar simplificações que acessamos de modo automático. Acredito que intuição também seja o acesso a um conhecimento mais amplo, que vem da nossa conexão com o mundo e não apenas do acúmulo de informações a partir da nossa vivência. Como se em alguns momentos bebêssemos de uma fonte que não é apenas nossa, que não está restrita aos limites do nosso corpo. Talvez qualquer racionalização seja posterior, uma tentativa de explicar, de dar coerência a esse misterioso conhecimento.
 
Quando Heinsenberg (não... não o alter ego do Walter White em Breaking Bad) finalmente abraçou a genialidade da teoria de Schrodinger e entendeu que sua fórmula reunia os possíveis destinos de uma partícula de modo que todas essas possibilidades estavam sobrepostas em uma onda, foi questionado por Bohr sobre o que determinaria a localização de um elétron. Por que ele aparece no ponto X e não no Y? Para responder, Heinseneberg recorreu ao acaso.
 
“Para Heinsenberg, não era mais possível falar de nenhum fenômeno subatômico com certeza absoluta. Onde antes havia uma causa para cada efeito, agora existia um leque de probabilidades”.
 
Recorrer ao acaso é ter a humildade de reconhecer as nossas limitações diante do mistério. Diferente de Einstein, que buscou até os seus últimos dias uma lógica para o mundo subatômico, Heisenberg havia compreendido que “a física não devia mais se preocupar com a realidade, mas com o que podemos dizer sobre a realidade”.
 
Tentar reduzir o universo e suas interações a regras compreensíveis pela nossa limitada cognição é ignorar o fato de que apenas tateamos uma vida complexa. Talvez intuição seja um vislumbre desse mistério, um vislumbre que raramente conseguimos traduzir em racionalidade.
 
Carlo Rovelli em um lindo capítulo de Sete Breves Lições de Física nos lembra das limitações da nossa cognição diante da complexidade do mundo.
 
A pergunta que os cientistas não conseguiam responder soava quase infantil, mas escondia um funcionamento que escapava da nossa compreensão. Por que o calor vai das coisas quentes às frias e não o oposto? Ou seja, por que durante o contato de dois corpos, o mais frio se esquenta e o mais quente se esfria e não o inverso – o mais frio cede o pouco calor ao mais quente, esquentando-o ainda mais?
 
Essa questão permanecera indecifrável por muito tempo até que um físico austríaco chamado Ludwig Boltzmann forneceu uma resposta baseada em probabilidade. Segundo ele, não havia uma lei física que determinasse que o calor fosse do quente para o frio, mas era apenas mais provável. Estatisticamente, é mais provável que um átomo de substância quente, que se move depressa e com maior intensidade, se choque contra um átomo frio e lhe deixe um pouco de sua energia, do que o oposto. Por trás dessa resposta baseada em probabilidade, que acabou sendo aceita pela comunidade científica, reside a nossa crua ignorância. Não temos informações suficientes para dizer exatamente o que se passa nesse fenômeno, mas conseguimos atribuir uma maior ou menor probabilidade.
 
Nas palavras de Carlo Rovelli: “À primeira vista, a ideia de que nossa ignorância implique algo em relação ao comportamento do mundo parece pouco razoável: a colher fria se aquece no chá quente, e o balão esvoaça quando é deixado livre, independentemente daquilo que eu sei ou não sei. O que tem a ver aquilo que sabemos ou não sabemos com as leis que governam o mundo? A pergunta é legítima, e a resposta é sutil. Colher e balão se comportam como devem, seguindo as leis da física de modo totalmente independente do que sabemos ou não sabemos sobre eles. A previsibilidade ou imprevisibilidade de seu comportamento não concernem ao seu estado exato. Concernem à limitada classe de suas propriedades com as quais nós interagimos.”
 
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“O Universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha ideia de noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.”
Alberto Caeiro
 
Viver de maneira fluída pressupõe saber o momento de aceitar os mistérios. Claro, a investigação é base de quase todo desenvolvimento, mas ela só nos leva até um certo ponto. Dali em diante, temos apenas esses vislumbres que, quando percebidos, indicam um caminho, um percurso que compreendemos com o corpo e não com a mente. Talvez algumas intuições sejam raras espiadas por frestas que logo se fecham, anúncios um pouco embaçados de conhecimentos que transcendem a lógica e que não pedem argumentos, apenas aceitação.
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
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