A longevidade da minha solteirice tem servido como material para análise do meu próprio comportamento. Talvez, de um comportamento que não seja apenas meu, mas do nosso tempo. Afinal, ações individuais refletem uma medida epocal, replicando um modo implícito de como estar no mundo.
Nesse horizonte tanto de encontros amorosos quanto de novas amizades, um curioso padrão começou a despontar – o descasamento entre a boa intenção em conversas iniciais e um estranho feeling ao final. Não chega e estragar o momento, mas um resíduo permanece ali sem ser absorvido pela situação.
Algumas passagens do livro que estava lendo na semana passada me lembraram dessa sensação de vazio.
“‘Yes, you do understand - with your mind. You say: true/false, this way/that way, right/wrong. But what’s the result? I watch your arms, feet, chest while you talk, and they remain silent, say nothing, as though they’re bloodless. So, you do understand, but what? The head? Phooey!!’”
(…)
"I remained alone next to the extinguished fire, weighting Zorba’s words that were so filed with substance, with warm earthly aroma and human weight. Those words rose from his loin and innards still maintaining human warmth within. My words were made of paper; they descended from the head and were sprinkled with only a trickle of blood. Whatever value they possessed derived from that trickle.”
Você já imagina aonde quero chegar. Em falas vazias, carentes de vida, desconectadas de uma essência.
Sim.
Talvez, como contraponto, você imagine diálogos que chamaria de genuínos, que alcancem o mundo interno dos interlocutores, revelando o que se passa sob uma máscara social.
Não, esse não seria o contraponto.
Soa contraditório, eu sei. Foi essa mesma incompreensão que tive ao ler os primeiros capítulos de “O Declínio do Homem Público” de Sennett, especialmente aqueles parágrafos que falavam sobre uma tirania da “intimidade”.
Vamos por partes... vamos voltar aos encontros atuais, às conversas em que eu me pego repetindo a mesma história...
Não demora para perguntarem sobre a o que faço da vida. Ao mencionar a mudança de profissão, novas interrogações seguem o rastro deixado pela reposta. Acabo descrevendo o meu processo - como uma despretensiosa ida a uma astróloga colocou em movimentos interesses latentes, sendo que eu sequer acreditava em astrologia.
Só que a cada repetição, essa história perde cor, vai empalidecendo e se distanciando de mim. O conteúdo permanece inalterado, mas sua reprodução cobre a verdade com tons de mentira.
Lembro das primeiras vezes que formulei essas ligações sobre a ida à astróloga, os insights, o medo e as transformações... contava para organizar as descobertas sobre o meu próprio processo, contava pois eram ideias que ainda vibravam dentro de mim.
Hoje, esses insights estão sedimentados. Sua transmissão já não pulsa e as palavras saem da minha boca apenas como um conjunto de informações. Mesmo assim, por algum motivo, eu me sinto compelido a dividir algo pessoal, revelando as profundezas dessa mudança de vida. É nesse momento em que sobra um resíduo estranho.
Foi Chul Han, em “O Desaparecimento dos Rituais” que ligou os pontos entre Sennett e essa minha sensação de vazio ao falar sobre algo íntimo.
Rituais “transformam o estar-no-mundo em um estar-em-casa. Fazem do mundo um localconfiável. São no tempo o que uma habitação é no espaço. Fazem o tempo se tornar habitável.”
Ao citar Hannah Arendt, o autor diz que rituais têm o potencial de conservar as coisas e criar uma independência em relação aos indivíduos. A repetição acaba estabilizando a vida.
Mais adiante, se fala sobre o poder de costumes sociais, sobre como as interações obedeciam a formas, a protocolos que deveriam ser incorporados pelos participantes.
Participantes e não protagonistas.
Rituais criam ressonância e estabelecem um ritmo comum. Sem essa ressonância, acabamos ecoando a nós mesmos.
Acabamos nos tornamos reféns de um ritmo que não comporta repetições. Com o futuro sempre se avizinhando, o cotidiano perde solo firme. Não há mais espaço para morosidade, para sedimentação de coisas que duram, para a criação de protocolos.
Esses costumes sociais perderam a estabilidade, se tornando amorfos. Hoje, os eventos já não possuem uma dinâmica própria dotada de solenidade à qual aderem os indivíduos.
Rituais possuíam atmosferas afetivas próprias. Atmosferas que influenciavam o estado interno de cada participante, de modo que emoções individuais eram reflexo do coletivo. Se enlutava em comunidade e o sofrimento era sentido independente da proximidade com o falecido. Se dançava não por predisposição interna, mas seguindo uma dinâmica que aos poucos te levava a absorver o espírito daquela festividade.
Não era sobre você, sobre os suas emoções. Sua psicologia era secundária ao coletivo. Também se sofria por amor, melancolia ou luto, só que o espaço ocupado pela vida em sociedade impedia potencializações desnecessárias.
Sem os rituais (religiosos e sociais), criou-se um vácuo onde se interage sem a força de uma atmosfera comunitária.
É natural que olhemos apenas para os benefícios de uma dinâmica descolada de obrigações.
As conversas soam mais honestas. A quebra de tabus, a diminuição dos preconceitos e a busca por liberdade afrouxou certas amarras. Já não temos que assumir papeis pré-definidos e se encaixar num esquema teatral de interações sociais. Livres de protocolos, escrevemos nossos próprios roteiros.
As trocas são abertas. Tão abertas que já não dão voltas e logo mergulham em intimidade. Há um genuíno anseio de se extrair algo real e alcançar conexão.
Uma conexão antes travada com o público. Desfeita essa relação, buscamos nos ligar a algo.
Conversamos sobre traumas, sonhos frustrados ou conquistas realizadas.
Você querendo ser sua versão mais autêntica, falando sobre suas relações familiares, destrinchando seus conflitos, revelando quem você realmente é. Chega até a mencionar a posição dos astros no momento do seu nascimento, como eles contribuem para a sua timidez ou para o seu anseio em desbravar o mundo. Como a sua lua te torna mais sensível ou o seu mercúrio te impulsiona a dialogar. Toda a sua personalidade traduzida em planetas que são logo enumerados nos primeiros encontros.
Quantas conversas não acabam se apoiando em papos astrológicos para ganhar um aspecto mais pessoal?
Há uma pressão implícita por autenticidade. Implícita e talvez inafastável. Os novos tempos são libertadores, mas também jogam uma perigosa luz sobre a subjetividade. Ao invés de participar, conduzimos o nosso próprio show. A perda dos rituais leva a uma transparência quase obscena, onde tudo orbita ao redor “eu”.
Aqui, não importa tanto o motivo que gerou a perda dos rituais e o declínio do homem público. Sennett alega que um interesse em deixar de ser refém dos próprios desejos e de começar a agir de modo mais consciente e racional trouxe a um boom da psicologia. Como consequência, as questões egóicas tomaram os holofotes, levando a um desinteresse por assuntos “impessoais”. Poderíamos argumentar que essa tendência jogou uma pá de cal nos rituais, que sempre relegavam individualidades ao segundo plano. Órfãs de protocolos
comunitários, as pessoas tentaram preencher esse vácuo com conversas profundas e sentimentais. O ponto que vale ser destacado é que se instaurou uma dinâmica nova e que essas pretensões de conexão acabam em auto-implosão.
Troca de dados pessoais não gera conexão. Compartilhamos informações íntimas sem sermos realmente íntimos. Recorremos a conversas supostamente reais para preencher um vácuo de sentido, de falta de pertencimento, de ausência de ressonância – tanto horizontal (comunitária), quanto vertical (espiritual).
Intimidade é não precisar ser nada perto de alguém.
Desafiador é sustentar esse vácuo sem querer preenchê-lo.
Quando paro para pensar, as conversas mais íntimas apenas acompanharam os assuntos que se anunciaram. As falas davam forma às sensações presentes, eram compartilhamento em tempo real. Sem pressão por autenticidade, sem necessidade de trocar informações pessoais.
“A coação de autenticidade leva a uma introspecção narcísica, a uma ocupação permanente com a própria psicologia. A comunicação também está ordenada psicologicamente. A sociedade da autenticidade é uma sociedade de intimidade e desnudamento. Um nudismo da alma concede seus traços pornográficos. Relações sociais são tão mais genuínas e autênticas quanto mais revelam de privacidade e intimidade.”
Esse aspecto pornográfico suprime o mistério e a morosidade de quem conhece aos poucos, acompanhando o fluxo daquilo que se anuncia na relação.
É nessa sintonia com a atmosfera da situação em que as falas voltam a se inflar de vida, em que as palavras deixam de empilhar informações e passam a narrar uma história, uma história com calor humano, em que a comunicação apenas reflete o que se mostra ao invés de se impor, tentando preencher um vazio.
“A comunidade ritual é uma comunidade da escuta e do pertencimento mútuo, uma comunidade em concórdia calada do silêncio. Justamente ali onde desaparece a proximidade primordial, se comunica de maneira excessiva. A comunidade sem comunicação dá lugar à comunicação sem comunidade.”
A proposta não é um regresso aos tempos antigos, mas um dar-se conta dessa inquietação por compartilhamento de informações pessoais como se isso fosse criar intimidade e preencher o vazio deixado por uma extinta vida comunitária.
Uma vez que isso se tornou consciente, talvez se perguntar pelo porquê de certos compartilhamentos e, quem sabe, ensaiar um estar junto que apenas acompanhe aquilo que se anuncia, os assuntos que organicamente se manifestam.
Ceder de modo irrefletido a essa dinâmica é fulminar o mistério daquilo que se constrói aos poucos, é solapar as bases sólidas dessa construção em etapas.
Por melhor que seja a intenção, eu sinto que essa ansiedade em ter conexão acaba por esterilizar um solo fértil.