Quase toda manhã, por volta das 6h30, eu saio da Estação República e caminho até a Galeria Metrópole. Se eu fosse pensar nesse percurso em abstrato, afastado da experiência, me imaginaria um pouco desconfortável diante de tantas pessoas em condição de rua, dormindo na calçada e se cobrindo com cobertores sujos ou pedido esmola e, muitas vezes, revirando lixo.
Curiosamente e é até estranho dizer isso - a experiência me faz bem. Enquanto os meus entornos habituais funcionam como lembretes do que eu preciso fazer e aonde eu quero chegar, esse pequeno percurso desfaz um olhar autocentrado. Chega até a redimensionar os meus problemas. Não seria exatamente aquela desqualificação tosca de quem olha suas próprias questões e as minimiza como “white people problem”, afinal, cada subjetividade, independente da condição social, tem potencial para sofrimento. Ainda assim, mesmo não as descartando, elas se tornam mais leves. Presentes, mas menos incômodas.
Não é um movimento de olhar para fora, se assustar e voltar a atenção ao meu microuniverso, feliz por ter dado sorte. Se trata de perceber que eu estou implicado nesse mundo e sentir que essa implicação, ao invés de pesar sobre mim, dá mais de sentido a todo esse absurdo. Sem tentar criar justificativas para o inexplicável, mas apontando a uma direção, dando um norte – a percepção de que eu faço parte e de que as minhas ações geram impacto.
Se eu fizesse esse percurso há alguns anos, talvez lidaria com essas pessoas da maneira como sempre lidei, passando batido sem desviar minha atenção. Caminhando entre corpos desprovidos de dignidade como se também fossem desprovidos de consciência, como se eles não estivessem percebendo aquela realidade da forma como eu perceberia se trocássemos de posição.
Essa noção – de que eles se anestesiaram e, aos poucos, foram se acostumando com uma vida marginalizada – me permitia passear pelas ruas de São Paulo sem ser afetado. Me convencendo de que neles, aquela realidade não era tão impactante, de que eles sentiam menos, sofriam menos. Óbvio... eu não elaborava esses pensamentos desta maneira... mas havia uma tonalidade dessa lógica presente nos meus atos, uma suposição crua que nunca havia sido colocada em xeque.
Até que eu comecei a distribuir comida durante o início da pandemia. Preparava sanduiches em casa, colocava na mochila e ia de bicicleta até o centro.
Foi a primeira vez que realmente parei para conversar com pessoas em condição de rua. Foi só nesse momento em que eu me dei conta da premissa irracional que me permitia lidar de forma fria e distanciada com todo esse absurdo. A premissa de que eles tinham uma percepção diferente da realidade. Que aquela vida era menos desagradável para eles do que seria para mim.
Claro, algumas pessoas na rua estão entorpecidas por álcool ou craque, mas isso de modo algum legitima um pensamento tão surreal quanto o meu.
O terceiro morador de rua que encontrei havia perdido o emprego e, em poucos meses, já não conseguia pagar o aluguel. Sem ter a quem recorrer após o despejo, arranjou uma barraca e foi parar num viaduto. Não tão distante da nossa realidade quanto a gente imagina.
Passamos um bom tempo conversando. Era uma fala lógica e concatenada. Provavelmente muito mais equilibrada do que a minha se eu estivesse naquele lugar.
Passei a fazer isso com mais frequência. Antes de sair para a yoga, preparo alguns lanches e os distribuo no caminho para a Galeria Metrópole.
Nada que vá gerar mudanças estruturais, mas já é uma ajuda. Além de alimentar algumas poucas pessoas, esses gestos me lembram de que eu faço parte desse mundo estranho e injusto, mas também meu, de minha responsabilidade.
Bastante gente doa dinheiro a instituições de caridade, o que certamente contribui para amenizar algumas necessidades. No entanto, o ato de doar mensalmente (por mais incrível que seja) não me afeta tanto quanto a distribuição de lanches no dia a dia. Quando a doação é debitada automaticamente da minha conta, nada me transforma. Por outro lado, dedicar
alguns minutos do meu tempo, entrar em contato com essas pessoas, olhar no olho e reconhecer a situação em que elas se encontram é me implicar nesse mundo, é um lembrete de que cada gesto pode melhorar ou piorar o ambiente que compartilhamos.
É esse aspecto que eu gostaria de destacar – um modo de se enxergar no mundo e os efeitos que esse modo tem sobre nós.
Resgatar essa conexão é aliviar o peso de uma vida autocentrada. E, convenhamos, quase toda vida sofre desse olhar isolacionista, um olhar que não enxerga os laços que estão sempre presentes.
Não se trata aqui de buscar sentido na vida através de altruísmo, mas de encontrar um ética através da sensibilidade. De como agir num mundo que talvez seja desprovido de sentido.
Não tenho certeza sobre o que significa tudo isso. Por que nasci? Qual é a razão de estar vivo? Ainda assim, uma sensibilidade às outras pessoas me direciona a uma postura.
É isso que eu considero espiritualidade. Mesmo sem algumas respostas estruturais, encontrar um modo de estar no mundo que seja coerente com a sua percepção sobre o seu entorno.
A ideia deste tema surgiu a partir da leitura de um trecho do livro Snow Country do Sebastian Faulks. Um dos personagens, um jornalista que vai visitar um sanatório com a missão de escrever um artigo, acaba estendendo a sua permanência e tendo um contato mais próximo com os pacientes. Além dessa lida diária, o jornalista passa a ter acesso aos relatórios médicos, às minúcias de cada vida afetada por psicopatologias.
“It was hard to accept that the existence of each one, its every second, had been as real to them as his life was to him at that moment, on a warm morning with the aftertaste of the Seeblick’s breakfast coffee in his mouth. The weight of the idea was intolerable. Better to believe, like a child, that others were no more than painted figures jigsawed from a hardboard sheet who ceased to exist once you had left the room or turned your gaze away from them. //
Era difícil aceitar que a existência de cada um, que cada segundo vivido, era tão real para essas pessoas quanto a sua vida era para ele naquele momento, numa manhã quente com gosto residual de café na boca. O peso dessa ideia era intolerável. Era melhor acreditar, como uma criança, que os outros eram apenas figuras pintadas numa cartolina que deixavam de existir assim que você saía da sala ou desviava o olhar.”
Curioso como eu recorria a noções altamente preconceituosas com o objetivo de não lidar com aquela realidade. Quase tão infantis quanto a alternativa levantada pelo narrador do parágrafo acima.
Que caminho tortuoso pode levar alguém a não se implicar nesse mundo? Essa pergunta leva a um dos modos de atenção descritos na penúltima Newsletter.
Na atenção de cima para baixo, interagimos e percebemos o mundo já com um objetivo em mente. A nossa percepção filtra, de modo automático e inconsciente, aquelas informações que não têm relação com esse objetivo. Quando você está procurando a chave do carro pela sua casa, passa batido por todos os objetos dos quais você não precisa naquele momento. Pode até não se dar conta de que a televisão está ligada e passando um programa que você queria muito assistir. O mesmo fenômeno se dá em tarefas mais complexas. Ao estar muito envolvido com um projeto no seu trabalho, você pode não se dar conta de que uma pessoa da sua equipe está passando por um período difícil. A dificuldade dessa pessoa não aparece para você devido ao foco excessivamente restrito.
Esse tipo de atenção, que é essencial para que consigamos alcançar nossos objetivos, pode trazer a sensação de isolamento se usado em excesso e/ou com muita intensidade. Chega até a moldar os caminhos neurais do cérebro, formando padrões de depressão, ansiedade e stress. O uso exclusivo desse tipo de atenção leva a uma desconexão com sentidos maiores, a um isolamento em função de pensamentos exageradamente autorreferenciais.
O mais triste é que o nosso mundo respira esse modo de ser. Se afastar um pouco dessa medida requer consciência e disciplina.
Tirar a cabeça para fora d’água demanda uma atenção que abra espaço para que o mundo se mostre, para que as dores alheias se façam presentes. Ao se sensibilizar com o entorno, talvez uma nova ética possa surgir.
“Formulado de outro modo, o decisivo para Husserl não está na posse da verdade absoluta, mas na tentativa de viver uma vida em uma absoluta responsabilidade por si, isto é, a tentativa de fundar os próprio pensamentos e atos sobre tanta intelecção quanto possível. E como Husserl se exprime em um dos manuscritos ainda inéditos, a responsabilidade por si do indivíduo inclui também uma responsabilidade pela comunidade. Responsabilidade por si só é realizável na ligação com outros sujeitos.” (Dan Zahavi, A Fenomenologia de Husserl)