O barulho me espantou, muito maior do que eu poderia imaginar. Alto e seco, se alongando pela rua e ecoando pelos cantos. Muito som para pouco sangue. Na verdade, acho que sequer havia sangue.
Fiquei sem reação.
A memória que guardo desse instante é fragmentada, salta de um ponto a outro, deixando uma lacuna no momento do impacto. Não se trata de uma lembrança que se desfez no tempo, ela nunca se fixou.
Enquanto eu observava, ele se mexia tentando se levantar. Talvez, como eu, ainda formando uma imagem do que havia ocorrido.
Não senti dó.
A adrenalina domina e te afasta do outro. Não há espaço para dó.
Percebia algo forte, esquentando meu peito, abrindo meus ombros e escorrendo pelas veias dos braços até as extremidades dos meus dedos. Algo que naquela época eu chamaria de virilidade.
O passar dos dias foi aquietando a intensidade e decantando as emoções.
Já não havia nada de viril, somente culpa e vergonha. Uma vergonha que apertava o meu passo e abaixava o meu olhar a cada vez que eu cruzava os corredores da faculdade. A culpa, por outro lado, era só minha, interna. Independia da proximidade com outros.
Eu havia quebrado o maxilar de um amigo da faculdade. Por uma menina que já não era minha namorada, que eu sequer queria voltar a namorar. Uma marcação de território.
Uma violência primata.
Por mais que se distanciem de uma ética interna, atos menores são facilmente justificáveis. Não criam instabilidade.
Já outros, mais raros, destoam. Destoam a ponto de não se encaixar na nossa narrativa.
Permanecem isolados, fora do traçado, reluzindo algo incômodo e impossível de ignorar.
Há uma sensação de desnorteamento quando uma ação contraria a sua autoimagem.
Talvez eu não fosse quem acreditava ser e minha essência menos polida do que eu gostaria.
Todo mundo tem seu gatilho. Esse foi o meu. Há doze anos.
Também faz doze anos que eu toquei pela primeira vez a campainha do conjunto 808.
Apertei o botão e entrei para aguardar na sala de espera. Às oito e meia, ele abriu a porta da sala, me chamou pelo nome e estendeu o braço em minha direção.
O mesmo ritual que se repetiria toda quarta-feira.
Uma década desfazendo emaranhados neuróticos na esperança de conseguir seguir cada fio. Freud havia descoberto que atos aparentemente estranhos, considerados anormais, tinham no fundo um significado.
Eu precisava de significado, saber de onde vinham as minhas ações, descobrir o que se passava sob o radar da consciência.
É aflitiva a sensação de não se conhecer, de poder ser surpreendido por palavras expulsas pela própria boca ou por um soco que escapa pelo punho.
Quando se sente fragmentado, o passado se revela numa falsa estabilidade e você se pergunta quantos pequenos desvios sua própria narrativa não acobertou.
Chega até a notar uma assimetria. Os atos dos outros, você interpreta como reflexo de caráter. Já os seus, principalmente aqueles mais baixos, você justifica pelo contexto.
No divã, as falas indigestas eram antecedidas por um descompasso. Dava tontura. A voz encolhia e eu fechava os olhos para não ver o conteúdo desfilando sobre mim. O corpo se tornava incongruente. Enquanto parte se arrastava em direção aos holofotes, o resto se agarrava à escuridão.
E, então, saía, ascendendo num percurso tortuoso como uma bolha que emerge das profundezas em direção à superfície. Envelopando um medo infantil ou um desejo vergonhoso até ceder à pressão e se abrir.
A repetição tranquilizava e restaurava o solo firme. Cada angústia pré-revelação era seguida por um alívio.
Mais um véu suspenso.
Você já não vira o rosto, agora, consegue sustentar o olhar que se volta para dentro. Vai aos poucos juntando um quebra-cabeça de peças criadas em diferentes épocas. Algumas mais lisas, de fácil encaixe, outras ásperas, tão cheias de arestas que parecem não pertencer àquele jogo. Com o tempo, surge uma imagem que clareia conforme você se distancia.
Você passa a agir de outro lugar, sentindo os pés firmes. Passa a dar contorno a si, a conhecer alguns dos desejos que te movem.
Minha natureza não era violenta, mas recorri à agressão como válvula de escape.
Sustentando o olhar, enxergava um menino encolhido, cheio de armaduras e se esforçando para impressionar.
Você cria metáforas que descrevem seu estado interno e as características identificadas sedimentam uma nova autoimagem. Algo elaborado com anos de divã, estável a ponto de entregar o que tanto buscamos. Compreensão.
Compreensão e previsibilidade.
Os incômodos te levam a novas análises, que partem do mesmo lugar, de quem você é.
Ligam sua essência às circunstâncias, se perguntando como seu mundo interno irá reagir ao contingente.
A certa altura dos mergulhos livres, a alteração da pressão faz com que você não precise se esforçar para descer. Há um momento de virada, onde surge uma inércia em direção ao fundo que dispensa o movimento das pernas.
Fazia tempo que me falavam sobre astrologia.
O que antes soava como um desejo ingênuo por respostas simples começou a despertar minha curiosidade. Marquei uma sessão com uma mulher recomendada pela minha irmã. Enfaticamente recomendada.
Entrei naquele apartamento na Vila Buarque desconfiado de que ouviria uma sequência de generalidades. Daquelas que arrancam concordâncias surpresas de quem desespera por definição. Três horas depois, saí pela mesma porta atordoado, ainda tentando formar uma imagem do que havia ocorrido.
Ao invés de recorrer a falas vazias, ela navegou pela minha vida com a precisão de quem se orienta por mapa e bússola. Tentando confirmar o meu ceticismo, não dividi nenhum detalhe pessoal e me sentei de braços cruzados na cadeira à sua frente.
Com três míseras informações - data, horário e local de nascimento – ela teve acesso aos meus mais íntimos desejos e aos meus maiores medos. Nomeou meus conflitos de relacionamento como se dividíssemos o mesmo apartamento e escancarou meu tédio profissional como se ouvisse minhas bufadas em frente ao computador.
Fez uma pausa dramática, suspirou, ergueu a cabeça sustentando o contato e me perguntou até quando eu achava que tinha me provar como advogado. Desviei o olhar, me servindo de mais água.
Ela se despediu com um cumprimento gelado, um ar de “te vira, mané” e fechou a porta logo que pisei no tapete de boas-vindas. Caminhei por aquela rua como quem vagueia sem rumo, criando coragem para me apropriar dos segredos escancarados.
Com mais véus suspensos, já não dava para alegar visão embaçada. É difícil explicar o impacto de algo tão inesperado. Foge daquele desejo por previsibilidade.
Um inominável à deriva até que você consiga enquadrá-lo.
Como efeito colateral daquele episódio, confirmei certas suspeitas sobre a minha própria pessoa e os meus contornos ganharam um ademão.
Também fiz duas leituras de tarô e fui algumas vezes a um terreiro Umbanda.
Tudo em busca de autoconhecimento, o que quer que isso seja.
Eu queria reduzir minha ginástica narrativa.
É exaustivo manter uma autoimagem. Um trabalho cumulativo que cobra um preço cada vez mais alto. Você está constantemente tentando explicar como suas ações se encaixam na sua própria ficção.
Confrontar seus medos te tira da corda bamba e te leva a solo firme. Talvez mais baixo, um pouco sujo e acidentado, mas firme.
Autoconhecimento diminui um esforço fadado ao fracasso.
Não é um movimento que se restringe a compartimentos. Ele se espalha, esparramando seu conteúdo em caixas vizinhas. Quando você se dá conta, toda sua vida está tomada pelo mesmo processo. O de suspender seus próprios véus.
De tempos em tempos, você tropeça em palavras que intensificam o mergulho.
Assim foi com o “Auto-Engano” de Eduardo Giannetti. Ele tinha colocado em frases os pensamentos erráticos que não me largavam. Nos poucos dias em que aquele livro durou em minhas mãos, eu lembrava da astróloga olhando meu mapa, chacoalhando a cabeça e cochichando como se falasse sozinha “o que você está fazendo com a sua vida?... que desperdício”.
Algumas leituras têm um efeito organizador. Dão corpo a ideias e aceleram o que já está em curso. Outras, ameaçam o oposto, expandem horizontes e fragilizam premissas.
Premissas tão próximas ao cotidiano a ponto de serem invisíveis.
Certas obras dão contorno a questões antes transparentes.
Foi esse o feito do principal livro de Julian Jaynes.
Imagine um período sem a noção de subjetividade. Pessoas vivendo em sociedade sem perceberem a si próprios como indivíduos conscientes.
Soa como ficção, daquelas que pendem para o fantástico e dispensam a
verossimilhança.
De fato, fantástico.
Mas real.
O autor destrincha a Ilíada, buscando o significado de cada termo.
Thumos, que mais tarde seria usado como alma emocional, nas versões mais antigas da epopeia significava movimento e agitação. Quando um homem parava de se mexer, o thumos saía de seus membros. Esse termo também era usado no sentido “órgão”.
Quando Glaucus pede para que Apollo alivie sua dor e lhe dê força, o deus escuta sua prece e “confere força ao seu thumos”. É o thumos que diz à pessoa quando comer, beber ou lutar. Diomedes diz que Achilles lutará quando o thumos em seu peito assim determinar.
Outra palavra de uso similar é phren. São os phrenes de Hector que reconhecem que seu irmão não está por perto. Apenas séculos depois, esse termo passou a ser usado como consciência ou coração (num sentido figurativo).
As pessoas eram movidas à ação. Não decidiam por si. Não da forma como hoje entendemos esse processo.
A palavra noos, que mais tarde seria escrita como nous e significaria consciência, no contexto da Ilíada seria “percepção, reconhecimento ou campo de visão”. Zeus “tem Odysseus em seu noos”. No sentido de vigiar.
Mermera, que significa “em duas partes”, se transformou num verbo – mermerizein: se dividir em relação a algo. Tradutores modernos, para fins literários e para uma fácil compreensão, acabaram traduzindo esse termo como refletir, pensar ou mesmo estar com a mente dividida, um ato de tentar decidir. No entanto, esse termo essencialmente significava estar conflitado por duas ações, não dois pensamentos.
Sempre algo comportamental, externo.
Nada apontava para o conceito de vontade.
Jaynes oferece uma explicação biológica para uma existência sem a noção de subjetividade consciente. Uma explicação que soou forçada e difícil de se provar.
Não sabia que ele lecionava em Princeton. Talvez isso tivesse mudado minha percepção. Ou não.
O que me marcou foi a ideia de humanos vivendo sem um olhar autorreferencial, sem esse voltar-se para dentro que eu tanto buscava.
Humanos vivendo como pura ação, sem diferenciar o interno do externo, para desespero de Descartes que encontrou sua maior segurança dentro da sua mente, no fato de que duvida, e que se denominou como coisa pensante.
Apesar do encanto, não demorou para Jaynes cair no esquecimento do meu mundo interior. Em raras ocasiões, era resgatado por essas associações que não controlamos.
Um desses resgates veio após ler sobre o conceito de flow, desenvolvido por um acadêmico húngaro de sobrenome impronunciável.
Um conceito preciso para uma magia incomum.
Flow são momentos de imersão em que nos entrelaçamos com o entorno, desfazendo nossas bordas. Momentos em que nos espalhamos, esticando as amarras da subjetividade. Devorando as linhas de um romance que te puxa para dentro, bem naquele instante de revelação inusitada, elevando sua atenção e te afastando da percepção temporal. Ou transando apaixonadamente, perdendo as referências do próprio corpo, criando uma unidade simbiótica, tão forte quanto efêmera.
É o ato de se misturar à atividade, se distanciando do tempo e suprimindo a primeira pessoa do singular.
Algo próximo ao mundo narrado por Jaynes.
Só que raro. Raro e volátil. Como se somente algo muito extraordinário e passageiro conseguisse chacoalhar as bases dessa autopercepção.
Martin Heidegger foi outro resgate.
Decidi estudar Psicologia Fenomenológica e Hermenêutica.
As aulas iniciais e as leituras guiadas de Ser e Tempo reintroduziam a noção
contraintuitiva da existência apontada por Jaynes.
Aos poucos, fui descobrindo em alguns pensadores uma explicação filosófica para o mundo relatado na Ilíada.
Começamos com Husserl, que ainda usava o termo consciência, mas não como algo, não como uma coisa interna. Falava em atos de consciência. Em intencionalidade - no sentido de tender em direção a algo. Para ele, não existe pensamento, existe pensamento sobre algo. Não existe memória, existe memória de algo. É sempre um movimento direcionado, ao invés de um espaço interno que absorve informações do mundo externo.
Não nos relacionamos com o mundo externo através da representação mental que fazemos internamente.
Em seguida, entramos em Heidegger, com alguns vislumbres em Sartre. O alemão sequer falava em consciência. Segundo ele, sou pura intencionalidade. Puro movimento para fora. Sou jogado no mundo. Sartre falava em explosão, uma imagem ainda mais forte sobre ser para fora.
Heidegger escolhia suas palavras com cuidado, atentando para a carga histórica de cada termo. Não usa “homem”, nem “humano”, afinal, estavam e ainda estão contaminados pela noção de interioridade. Usou “Ser-aí”.
Se insistia num termo, estava ciente de sua origem etimológica e queria, com a sua escrita, revelar as raízes. Ou, na sua linguagem, revelar os fenômenos de base.
A palavra “existência”, central na obra, não se deu ao acaso. Tanto no grego, quanto em latim, esse termo aponta para um “ser para fora”.
Como se Heidegger, com a escolha de cada termo, estivesse nos guiando ao significado original, àquilo que se perdeu com o tempo, que foi distorcido pelo cotidiano.
Todo o chão percorrido ia no sentido contrário, me tornava cada vez mais convicto das minhas características. A década no divã, as leituras de mapa astral, as idas ao terreiro, os testes de personalidade...
Enquanto esses métodos diminuíam a ginástica narrativa, traziam meus desejos à consciência e aproximavam minha autoimagem da realidade, também reforçavam os meus contornos.
Cada sensação de me conhecer mais a fundo dava corpo ao mundo interno. Ações passavam a ser evidência de caráter, predicado do sujeito. O verbo como complemento de algo maior, desdobramento da minha essência.
Um “eu” em destaque, dotado de propriedades. Coisificado. Res Cogitans.
Cada véu erguido era um sopro de ar quente numa argila ainda flexível, perigando transformar tendências em profecias autorrealizáveis.
Quanto mais eu formulava minhas dificuldades, mais espaço elas ocupavam nas minhas relações.
Um olhar sedento por compreensão que acabava solidificando o impermanente.
Enquanto algumas linhas terapêuticas perguntam pelo porquê, permitindo ao paciente acessar mais uma camada de conhecimentos sobre si, outras linhas perguntam “por que não?”, abrindo espaço para novos modos de ser.
“Ser” como verbo.
A assimilação intelectual de um conceito não pressupõe incorporação. Uma coisa é saber ler a partitura, outra é ter a música na memória muscular.
Nas palavras do mestre B.K.S Yiengar. “You need to rub yourself with words and with works. Put the words to the test of your experience. Do not be carried away by my words or anyone else’s words. Rub yourself with each word through work and practice.
Rubbing means to experience. Go with it! Find out! (…) I request you to rub yourself with my words and with other people’s words, and until they are digested, do not form opinions.”
Pousei em Nova Délhi antes do amanhecer. Após meia hora de taxi, já estava estirado na cama do hotel para um curto cochilo.
Como queria ir para Rishikesh no dia seguinte, precisava comprar uma passagem de trem, um sim card local e as cuecas e meias que eu havia esquecido de jogar no mochilão.
Perguntei qual era o modo mais fácil de chegar à estação e, como não poderia deixar de ser, recomendaram o taxista parado na frente do hotel.
Hello! My name is Gotham. Like city. Batman. Yes?
Gotham era um jovem magro, baixo, de cabelo liso, olhos grandes e um belo sorriso.
Quando me deixou na porta da estação perguntou se eu não estava levando nenhuma mala. Eu disse que viajaria naquele dia. Estava lá para comprar uma passagem – o que eu não consegui fazer pela internet.
Gotham olhou para mim e balançou a cabeça.
“Ticket here. Hard. Yes?”
Pedi para que ele explicasse melhor.
“Not easy. Yes?”
“Ok”
“I go help you”
“Ok. Thank you” – talvez ele estivesse tentando estender o serviço, mas não sorria com um quê subserviente de quem quer agradar. Sorria de um modo natural, sem aparentes segundas intenções.
Ele tinha razão. Eu teria demorado uma eternidade para encontrar a sala onde se vendiam as passagens. Nada ali era intuitivo. Não para mim.
Subimos uma escada, atravessamos um corredor e entramos numa porta à esquerda.
Algumas fileiras de cadeira no estilo das repartições públicas brasileiras.
Gotham se aproximou de um guichê, disse algumas frases em hindi e foi logo cortado pelo funcionário que o dispensou sem contato visual, apenas com um grosseiro balançar da mão. Gotham não retrucou e nem fez cara feia. Parecia entender que não era pessoal.
Se afastou, virou para mim e disse.
“We sit. Yes?”
“Yes.”
Depois de duas horas de espera e com a passagens em mãos, estávamos de volta ao taxi.
O trânsito indiano faz São Paulo parecer pudico. Não tem marcação dividindo as faixas.
As setas são apenas luzes decorativas que dão lugar à buzina e ao tapa na lataria de carros vizinhos.
Entre brecadas bruscas e encostadas no para-choque, Gotham conduzia sem se incomodar. A cada fechada, mantinha o olhar nos espaços que se encurtavam ao invés de encarar o outro motorista.
Não era com ele.
Quando chegamos ao hotel, desci do carro e caminhei em direção a um parque. Alguns meninos tinham improvisado dois gols e jogavam bola no gramado.
Em poucos minutos, percebi Gotham ao meu lado. Se aproximou sem dizer uma palavra e olhava a partida com uma curiosidade quase infantil, rindo em alguns momentos e discretamente contorcendo a perna a cada gol desperdiçado.
Meu foco foi desviando do jogo para Gotham. Ao invés de dialogar com o ruído interno, ele parecia existir da pele para fora. Sempre imerso no momento, misturado com o mundo.
Como eu poderia me aproximar dessa capacidade? Desse dom de suspender o peso existencial em cada atividade, de entregar a subjetividade ao foco, afastando o olhar de si.
Durante a postura Urdhva Dhanurasana (ponte), as primeiras respirações vêm com uma sensação de bloqueio, algo parece segurar o fluxo de ar no seu corpo.
Após alguns segundos de desconforto, há um momento de entrega, em que você se solta enquanto ainda mantém alguns músculos ativos. É nesse soltar, mais intencional do que físico, que você reencontra a sua respiração, permitindo a livre passagem da energia. De repente, você deixa de ser alguém lutando contra o exercício e passa a se identificar com o ar entrando e saindo do seu corpo, como se sua subjetividade se dispersasse. Ao desfazer a postura, esse estado permanece por alguns segundos. Há um silêncio interno.
Não é à toa que os momentos de mais tranquilidade são livres do olhar que se volta a si.
Quanto mais misturado a uma atividade, menos preocupado eu me sinto.
Talvez existam maneiras de reeducar a minha existência. Não apenas entender que a noção de unidade subjetiva, o conceito de “eu”, é um mecanismo interpretativo. Uma artimanha para dar coesão a uma história e montar uma narrativa. Isso seria apenas reeducar a razão.
Estou falando sobre vivenciar esses momentos e deixar com que eles falem por si.