Pedro Cirri
 
Em diálogo com a vida 
Newsletter XVI - 21.11.2022
 
 
No livro “The Awakened Brain”, a professora de psicologia da Universidade de Columbia, Lisa Miller, analisa como espiritualidade afeta o nosso cérebro e reduz a chance de depressão. Como uma boa acadêmica americana, ela abre o primeiro capítulo relatando o momento em que médicos revisaram as imagens de ressonâncias magnéticas tanto de grupos classificados como “alta espiritualidade” como de grupos classificados como “baixa espiritualidade”. É um início inteligente que já afasta a descrença de leitores desconfortáveis com temas “místicos”.
 
Esse é um daqueles assuntos que soa evidente para alguns e mera especulação para outros. Suspeito que a diferença não seja tanto da ordem racional, mas mais crua, do fato de que algumas pessoas vivem espiritualidade e outras não.
 
Confesso que o tema me deixa em cima do muro.
 
Acho que fazemos parte de um todo maior que nossas respectivas individualidades, mas tendo a desconfiar de boa parte dos conteúdos “espirituais”. Sempre me vem um receio de que certas posturas podem enfraquecer o senso crítico.
 
Por esse motivo, esse livro caiu como uma luva para o meu resistente ceticismo.
 
Aliás, um rápido parênteses sem parênteses – há como crer em algo maior, algo que transcenda a noção materialista de que nos resumimos aos nossos corpos, apenas usando o que a física nos oferece. Não precisamos acreditar em Deus para entender que a matéria, ou melhor, a menor unidade do que chamamos de matéria (elétrons, neutrinos, up quark ou down quark) é um agrupamento do respectivo campo energético, ou seja, é parte de um campo que não se restringe a um único corpo. Se tirarmos toda matéria de um espaço, ele não se torna um vácuo inerte, os campos quânticos continuam presentes. Aliás, “quântico” vem de quanta que tem relação com agrupamento (pequenos pacotes). O mesmo campo que te atravessa, atravessa muitas outras pessoas e objetos. Vocês são feitos da mesma “matéria”, estão muito mais conectados do que imaginam.
 
Voltando ao livro. Por mais que possamos classificar espiritualidade de diversas formas, a autora foca no senso de pertencimento em relação a algo maior, seja a natureza, algum poder ou ordem cósmica. É por esse enfoque que, em seu trabalho, espiritualidade não se confunde com religião e doutrina, apesar de muitos relatos também envolverem eventos de cunho religioso.
 
Tanto ela quanto outros pesquisadores chegaram à constatação de que espiritualidade fortalece e torna certas partes do cérebro mais ativas – exatamente as partes que determinam esse senso de pertencimento e sensação de intimidade e proximidade. Além disso, essas partes que se mostraram mais ativas na ressonância magnética também se referem a um modo de atenção diferente do foco que normalmente usamos no nosso dia-a-dia.
 
A autora faz uma diferenciação entre atenção “de cima para baixo” – o que ela chama de consciência de objetivo – e atenção “de cima para baixo”, em outras partes do livro referida como consciência desperta.
 
Na atenção de cima para baixo, interagimos e percebemos o mundo já com um objetivo em mente. A nossa percepção filtra, de modo automático e inconsciente, aquelas informações que não tem relação com esse objetivo. Quando você está procurando a chave do carro pela sua casa, passa batido por todos os objetos dos quais você não precisa naquele momento. Pode até não se dar conta de que a televisão está ligada e passando um programa que você queria muito assistir. O mesmo fenômeno se dá em tarefas mais complexas. Ao estar muito envolvido com um projeto no seu trabalho, você pode não se dar conta de que uma pessoa da sua equipe está passando por um período difícil. A dificuldade dessa pessoa não aparece para você devido ao foco excessivamente restrito. 
 
Esse tipo de atenção, que é essencial para que consigamos alcançar nossos objetivos, pode trazer a sensação de isolamento se usado em excesso e/ou com muita intensidade. Chega até a moldar os caminhos neurais do cérebro, formando padrões de depressão, ansiedade e stress. O uso exclusivo desse tipo de atenção leva a uma desconexão com sentidos maiores, a um isolamento em função de pensamentos exageradamente autorreferenciais. 
 
O mundo se torna um espaço neutro sobre o qual podemos agir. É um modo de ser que, ao focar na nossa individualidade, nos segrega de contextos maiores. Como consequência, qualquer frustração passa a ser resultado da nossa incapacidade e, mesmo quando as coisas estão indo bem, esse funcionamento tende a criar uma obsessão com a manutenção do status quo.
 
Em linhas gerais, estamos falando de um tipo de foco que dá ênfase aos nossos atos, chegando muitas vezes a reduzir as situações a simples relações de causa e consequência, o que confere um peso desproporcional ao nosso agir.
 
Não é à toa que a intensificação dessa atitude go get it é acompanhada por uma epidemia de questões mentais.
 
A ênfase do olhar em nós mesmos e o consequente apagamento do entorno traz a sensação de isolamento e desconexão.
 
É curioso que esse tipo de atenção tem uma forte relação com a noção de livre-arbítrio, de que nós regemos as nossas vidas, de que somos causadores do nosso destino. Em algum nível, sem dúvida somos, mas crer que os resultados da nossa existência dependem exclusivamente de nós é atribuir um peso insustentável às nossas próprias ações.
 
Quando Lisa Miller selecionou os grupos que se submeterem a ressonâncias eletromagnéticas, ela colheu relatos atrelados à espiritualidade, a quão presente a espiritualidade era na vida das pessoas.
 
Boa parte das descrições tinha relação com rezas em eventos religiosos e focava em elementos sensoriais como sons e luzes, bem como na sensação de que as barreiras entre si e os outros começava a se dissolver. Outra parte das narrativas espirituais incluía momentos de imersão na natureza, momentos em que essas pessoas se sentiam parte do entorno. Um terceiro tipo de relato dizia sobre a sensação de estar absorvido por uma atividade a tal ponto de perder a percepção de si.
 
Os resultados da ressonância magnética confirmaram essas histórias. O cérebro das pessoas classificadas como “alta espiritualidade” mostraram uma ativação menor do inferior parietal lobe - a parte responsável pela sensação de separação entre a o sujeito e o mundo externo. É essa região do cérebro que percebe e representa a própria pessoa e os outros no espaço-tempo. 
 
Essa descoberta sugere que experiências espirituais diminuem a noção de subjetividade, diminuem a sensação de separação entre o sujeito e o mundo.
 
Uma parte que se mostrou mais ativa nessas pessoas tem relação com o outro tipo de atenção que ela destaca em seu livro. Atenção de baixo para cima, em que você não interage com o mundo com um objetivo em mente, mas está aberta para aquilo que vem ao seu encontro, aberta a compreender o que cada situação te apresenta, para informações que podem parecer aleatórias mas que, no fundo, tem algum significado.
 
Trata-se de um tipo de atenção mais fluído e adaptável. De alguém que, por saber que faz parte, se comunica com o entorno, captando os sinais e ajustando as suas ações.
 
É mais difícil se sentir isolado estando em diálogo com a vida.
 
Também não à toa, esse tipo de atenção se afasta da noção de livre-arbítrio e se aproxima de uma existência que responde àquilo que se apresenta, uma existência mais integrada com o entorno e que talvez não exagere a sua própria relevância.
 
Claro, muitas situações seriam resolvidas de modo mais eficiente com a atenção top down – que te torna mais objetivo e resolutivo -, no entanto, acredito que há um uso excessivo desse funcionamento. Um exagero que traz consigo uma série de questões de saúde mental.
 
Se sentir parte de algo maior, de algo que transcende a sua individualidade, tem o poder de aquietar ansiedade e reduzir o risco de depressão.
 
E, no fundo, muitas coisas podem ser compreendidas como esse “algo maior”. Para os mais céticos, natureza ou até os campos quânticos que me atravessam e atravessam outras pessoas. Ou Deus, uma consciência universal....
 
É mais sobre como do que sobre o quê. Como eu me relaciono com aquilo que me transcende. De modo íntimo ou distanciado?
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
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