Pedro Cirri
 
 
Ocasião e Responsividade
NEWSLETTER XV - 07/11/2022 
 
 
Você acredita em livre-arbítrio?
 
O que seria livre-arbítrio? A capacidade de determinar as suas ações, como se antes de cada gesto ou fala você estivesse num lugar imparcial, equidistante de todas as possibilidades? E deste lugar imaginário você analisa e escolhe uma das alternativas disponíveis? Um ser racional interagindo com o mundo externo, livre e desobstruído para eleger seu rumo.
 
Esse tema tem relação com as discussões que apareceram num curso sobre aspectos clínicos da Psicologia Fenomenológica e Hermenêutica.
 
Estávamos falando sobre intervenções e proatividade em sessões de terapia. Por mais que um ponto levantado pelo profissional possa fazer sentido, é a ocasião que irá determinar se esse ponto será bem-recebido ou não pelo paciente/cliente.
 
Alguns comentários simplesmente não surtem efeito ou podem até ser rechaçados. Meses depois, o tema surge novamente e, por algum motivo inexplicável, ele finalmente ecoa. Ou não.
 
Há um tempo propício que não se fabrica. Ele simplesmente acontece.
 
Talvez uma das maiores qualidades de um terapeuta seja a escuta aguçada para a aparição dessas janelas. Uma capacidade de se perceber solicitado pelo momento.
 
“Se perceber solicitado pelo momento” – essa é uma fala que parte de um lugar muito
distante da noção de livre-arbítrio.
 
Há uma dinâmica responsiva ao invés de proativa. Responsiva à demanda do momento, àquilo que te convoca.
 
Não estou falando apenas de terapia, mas da existência em geral.
 
A existência é responsiva aos sentidos abertos pelo mundo.
 
Para refutar a noção de livre-arbítrio, podemos usar tanto a visão do Coaching Ontológico, quanto da Psicologia Fenomenológica.
 
Para os chilenos da ontologia (Rafael Echeverria e Julio Olalla), agimos a partir do seguinte esquema: fato – interpretação – emoção – ação. Algo ocorre, você interpreta o ocorrido, a interpretação te coloca num estado emocional, você age em consonância com esse estado emocional. Nas vezes em que realmente paramos para pensar sobre como agir, estamos entre o estado emocional e a ação. Ou seja, o leque de possibilidades que se abriu já está enviesado pela interpretação que você deu ao fato (sem nem perceber que aquilo que você está chamando de realidade é, na verdade, uma interpretação). Quantas pessoas você não xingou no trânsito (ao menos mentalmente) como se elas tivessem intencionalmente te fechado? Quantas mensagens você já não interpretou como injustas, se emputeceu e respondeu de acordo com essa irritação? Se você parasse para pensar, no máximo a alternativa seria ignorar. Responder de forma mais cordial sequer surge como uma possibilidade, afinal, você tratou a sua interpretação como realidade e resposta cordial não combina com mensagem injusta. Você interpreta, a interpretação te coloca num estado emocional que, por sua vez, condiciona a sua ação. Toda emoção é uma predisposição a algo. Toda emoção torna algumas ações acessíveis e outras inacessíveis.
 
Para Heidegger e companhia: somos abertos ao mundo e o mundo nos normaliza com seus sentidos. A gente faz o que se faz pois essas são as instruções que o mundo nos fornece. Uma normalização que apazigua a nossa indeterminação existencial. Você não sai pela rua dando uma de Sócrates e indagando cada transeunte sobre o que é justiça ou amor, pois não é isso que se faz. O mundo não nos orienta nessa direção.
 
Cada ser tem um foco fenomenológico que ilumina alguns sentidos e apaga outros. Esse foco, suscetível a mudanças ao longo do tempo, é chamado de projeto de sentido. O projeto faz com que alguns sentidos já apareçam como possíveis, enquanto outros ficam fora de questão. Sequer aparecem.
 
Há algo a priori e pré-reflexivo que já limita as possibilidades à sua disposição. A escolha de cada indivíduo é sempre posterior a essa abertura de sentidos possíveis. Nós respondemos àquilo que se abre diante de nós.
 
Estudar biologia nunca foi uma possibilidade para mim. Por outro lado, estudar direito,
jornalismo ou história foram possibilidades que se fizeram presentes quando eu era
adolescente.
 
Outro exemplo é sobre vontade e desejo. Ao entrar numa doceria, você analisa cada produto para racionalmente decidir ou algum doce já se apresenta para você como desejável?
 
Quando um homem ou uma mulher entra na sala, você analisa os aspectos físicos para então decidir que ele ou ela é atraente ou a pessoa já se apresenta a você como atraente?
 
Tudo que fazemos, fazemos de maneira responsiva aos sentidos iluminados pelo projeto que somos.
 
Mas e aí? Qual é a utilidade de discutir esses assuntos? Mera masturbação intelectual? Não...
 
O fato de livre-arbítrio ser uma ilusão não quer dizer que estamos fadados a um determinismo à lá tragédia grega.
 
Primeiro pelo fato de que projetos de sentido, ou seja, os sentidos que são iluminados pelo seu foco podem mudar ao longo da vida. A pergunta seguinte seria se nós conseguimos, pela nossa vontade, mudar o nosso “projeto existencial”? Se eu disser que sim, estaria contrariando tudo que foi escrito acima. Não. Não acho que por decisão e iniciativa própria nós mudamos o nosso projeto. Se nós mudamos nosso modo de ser, quer dizer que algum sentido se abriu permitindo essa mudança. Quer dizer que essa mudança se mostrou como opção. No entanto, não vejo isso como algo estático. Acredito que se trata de algo fluído, como uma dança (não resisti à metáfora mais batida de autoconhecimento – mas essa parada realmente parece ser uma dança...). Temos uma certa discricionariedade. Quando os sentidos se abrem, cabe a nós decidir o que e como fazer. Ao agirmos, novos sentidos vão se abrindo com base na nossa experiência. É algo em movimento que vai se transformando a partir da vivência de cada instante. Então, em parte, nós mudamos o nosso projeto, mudamos as possibilidades que se apresentam diante de nós.
 
O que é determinante para essa mudança é a qualidade da nossa escuta para aquilo que nos convoca, para os sentidos que se abrem. Quão autêntica é nossa interação com esses sentidos?
 
Ao falar em autenticidade, não estou fazendo uma apologia a escutas mais artísticas ou
criativas ou uma crítica a atividades mais comuns. Não... tem gente que segue um caminho “alternativo” a partir de uma escuta pouco autêntica. Bem como tem gente que segue um percurso mais tradicional a partir de uma escuta genuína.
 
Existem convocações que têm mais conexão com as coisas que realmente te mobilizam.
Outras, menos.
 
Falar sobre isso pode soar inútil, afinal, quem tem uma escuta menos autêntica não percebe a convocação como pouco autêntica.
 
No entanto, acho que existem atividades que podem ajudar a apurar a escuta àquilo que te chama, discernindo entre chamado impessoal e ímpeto genuíno. Passar tempo sozinho, estar mais em contato com a natureza, fazer terapia, yoga, meditação, dança... tanta coisa. Ao mesmo tempo, você pode fazer tudo isso e talvez nada aconteça. O ponto que eu estou tentando destacar é que algumas atividades têm o potencial de abrir novas portas.... claro, se essas atividades já surgirem como possibilidades para você. Aí depende de como você vai se relacionar com essas possibilidades, criando novos caminhos...
 
Eu suspeito que quanto menos espaço você ocupa nos seus pensamentos, quanto menos envolvida você está com a sua imagem, com a narrativa que você constrói sobre si, mais aguçada tende a ser a escuta. Ou seja, menos atraentes serão os sentidos impessoais, mais distante você vai estar de uma ideia pré-fabricada de como você deveria conduzir a sua vida.
 
Isso se aplica ao exemplo inicial. Quanto menos eu estou preocupado em ser um bom
terapeuta, mais apurada estará a minha escuta para um momento que convoque uma
intervenção. Não vai ser sobre mim, mas sobre o momento.
 
Difícil. Tudo na nossa sociedade incentiva um maior envolvimento com nós mesmos.
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
Pedro Cirri
pcirri84@hotmail.com