A ideia dessa Newsletter surgiu a partir de um episódio na prática de Ioga e da leitura de dois livros sobre Nietzsche que acabaram por me levar a alguns trechos de Assim Falou Zaratustra.
O foco não é o trabalho desse filósofo, mas, no fundo, uma intuição sobre identidade,
sofrimento e fluxo da vida.
Vamos ver se vai dar para concatenar essas ideias e transmitir o eu estou pensando....
“Deparam com um doente, ou um velho, ou um cadáver; e logo dizem: ‘A vida está refutada!’ Mas somente eles estão refutados, e seu olhar, que enxerga somente uma face da existência”
“Que importa viver muito tempo? Que guerreiro quer ser poupado?
Eu não vos poupo, eu vos amo profundamente, meus irmãos na guerra!”
Nietzsche nos lembra do desafio que é aceitar a dor, a perda e a finitude. Não apenas por vontade de preservar a vida, mas pelo desejo de ultrapassar aquilo que há. Transcendência sem crença, sem conceitos para além da existência. Não se trata do sofrimento para alcançar desenvolvimento pessoal ou a salvação cristã, mas pelo fato de a transcendência ser a essência da vida – um movimento de criação e destruição.
Vida como porvir, superação, algo em fluxo que se enfraquece com as ilusórias tentativas de domesticação.
Ele não fala em “vontade de vida”, ele fala em “vontade de potência”. Não é sobre vontade de cuidar e manter, mas sobre criar, largar e seguir em busca de mais vida.
É o medo, a vontade de preservar, o apequenamento de quem confunde verbo com
substantivo, fluxo com estabilidade, que impede que a vida se mostre em sua plenitude.
A própria vida diz a Zaratustra – “Vê, eu sou aquilo que sempre tem de superar a si mesmo.”
A autoafirmação que aceita o fluxo das coisas envolve a negação. Não negação de aspectos sofridos, não uma evitação covarde, mas negação daquilo que se criou - a capacidade de abrir mão e entender a natureza passageira.
Para Tillich, a coragem é essa capacidade de autoafirmação apesar de todas as ambiguidades, abraçando a negatividade, incorporando o sofrimento e a (aparente) ausência de sentido.
O erro de definir e se agarrar à definição impede a corajosa aceitação do choque de forças.
“Se é verdade que toda força somente pode manifestar-se contra resistências, há em toda ação uma dose de dor necessária” (Fragmentos Póstumos, N).
Nas palavras de Viviane Mosé:
“A dor advém, antes de tudo, do choque que caracteriza a vida como eterna expansão, eterna superação de si mesma. Em outras palavras, a dor é própria da vida, não tem como eliminá-la completamente, especialmente a dor psíquica, a dor de existir, de ter de fazer escolhas, lidar com as perdas, com o erro, com a morte...”
O medo interrompe a livre passagem da dor. A evitação opera contra si, impedindo que dor se instale, se faça presente e siga o seu rumo. É o receio do contato que a engrandece, tirando o sentimento do contexto, levando-o para um mundo só nosso, descolado da experiência. Passa a doer ainda mais, mas agora já não tem tanta relação com o ocorrido, mas sim com a narrativa que você conta sobre si. Tudo isso pelo medo inicial de sentir dor, de deixar a vida operar em seu fluxo.
Há uma tentação em dar sentido ao sofrimento, em encaixá-lo numa narrativa de
autodesenvolvimento. O universo colocou essa situação diante de mim para que houvesse um aprendizado. Talvez. Talvez não. A sua capacidade de aprender com a dor não pressupõe uma arquitetura cósmica que se importa com a sua vida. Nada contra essa visão – desde que ela não te tire do momento presente, desde que você não relativize as vivências difíceis em função de um sentido-crença.
Mais fácil falar do que fazer. Sim. Eu muitas vezes recorro a uma narrativa cheia de causa e consequência para apaziguar percalços.
No entanto, estou começando a entender que há uma relação entre apego à minha
identidade, à narrativa que eu construo sobre mim, e a minha dificuldade em encarar esses momentos difíceis.
Em outro trecho escrito pelo filósofo, ele diz: uma perda não demora muito sendo uma perda: de algum modo nos chegou, juntamente com ela, uma prenda do céu – uma nova força, por exemplo: ainda que seja apenas uma nova oportunidade para ter força.
Claro, para algumas pessoas, perdas demoram sendo perdas – depressão muitas vezes é a longa reverberação de um evento doloroso.
Colocando o que foi dito acima em outras palavras, há uma ligação entre a incapacidade de permitir com que a vida se opere em sua complexidade e o prolongamento da dor.
Quanto mais abertura, maior a livre circulação e, como consequência, mais naturais tendem a ser os processos.
O apego à nossa própria identidade parece prejudicar o fluxo natural dos acontecimentos, como se coagulasse o tempo, estagnando as emoções e os pensamentos. A subjetividade exagerada acaba riscando o disco e impedindo com que a música prossiga.
A desobstrução do caminho para que a vida flua naturalmente pressupõe uma maleabilidade existencial, uma leveza de quem carrega menos bagagem biográfica. Não alguém que tenha passado por poucos eventos dolorosos, mas alguém que conseguiu dar a esses eventos a dimensão que é deles, sem exagerá-los.
O apego a quem eu sou, à história que eu conto sobre mim, faz com que eu exagere os
eventos da minha vida, com que eles fiquem ecoando em mim ao invés de encontrar vazão.
Uma dinâmica similar a uma postura na ioga. Quando mais força você faz para “conquistar” o asana, mais difícil e doloroso ele se torna. Há uma soltura necessária para que a energia flua e a postura aconteça. O mesmo processo se aplica a um golpe no jogo de tênis. Se você pensa muito sobre a mecânica, contrai os músculos durante o movimento, menos potência será transferida à bolinha. É curioso.... quanto mais você esquece de si, mais fluído o golpe se torna.
O ato de constantemente encaixar os eventos na narrativa sobre a sua vida acaba por distorcer os seus efeitos.
É sempre da pele para fora. A gente teima em esquecer deste detalhe.
Há um exemplo bobo que se encaixa nesse tema e foi exatamente a sua simplicidade que me permitiu dar ao evento a dimensão que era dele, ao invés de misturá-lo com as minhas questões.
Há alguns meses que venho fazendo uma postura (na ioga) que me gera bastante receio.
“Receio” soa elaborado para o que eu sinto... é cagaço mesmo.
É um lento se curvar para trás até aterrizar numa ponte. Os segundos antes de cair no tapete, em que eu tento encontrar um ponto de equilíbrio com as costas todas curvadas, envolve uma abertura desconfortável. Há pouco controle, você não sabe aonde vai aterrizar e com qual intensidade vai “despencar” de cima.
Na semana passada, acabei tomando um belo de um capote. Não sei o que aconteceu direto, mas caí de lado e bati de leve a cabeça no chão. Na hora, dei uma assustada, fiquei alguns segundos parado, mas logo subi para fazer as duas seguintes.
Obviamente, foi apenas um tombo, ou seja, nada traumático, mas fez com que meu medo dessa postura começasse a crescer, com que eu me sentisse menos confortável com toda aquela abertura.
Na segunda tentativa, a professora que estava no estúdio veio me ajudar, afinal, eu tinha
acabado de me estrebuchar no chão. Por um segundo, o seu apoio pareceu fazer sentido já que diminuiria o risco de outro tombo.
Acabei pedindo para fazer sozinho. Não porque eu consigo me desfazer do medo através da razão, mas porque eu queria me colocar naquela situação novamente e dar ao tombo a dimensão que era do tombo.
Um segundo exemplo, essa já menos simples, mostra quão forte é a tendência de transformar os eventos em evidências sobre nós, em indicadores das nossas características.
Há dois anos, eu investi (num empreendimento) um terço dos recursos que eu havia juntado. Recentemente, esse empreendimento começou a dar sinais negativos. De modo automático, eu passei a me punir. Acordava e dormia angustiado, me falando que eu era um merda, um moleque irresponsável. Que se eu dependesse exclusivamente desse dinheiro que eu tinha juntado para sobreviver, eu não teria arriscado esse montante. Que isso era coisa de gente mimada que nasce com conforto financeiro. Foi um mês nessa toada, acordando com uma sensação amarga de quem já inicia não gostando de si.
Passado um tempo, depois de tratar desse assunto em algumas conversas, o seguinte
pensamento começou a me ocorrer – se eu continuar me punindo dessa maneira, usando os fatos para sustentar um julgamento sobre mim, como será que eu olharei para esse episódio quando for mais velho? Vou me dar razão por ter sido rígido comigo mesmo ou vou achar que eu desperdicei alguns meses me sentindo angustiado? O que realmente importa para mim está sendo afetado esse empreendimento? Não. Então por que eu estou potencializando os efeitos desse acontecimento? Por que não aprender a lição e seguir em frente?
Não sei por qual motivo – talvez por esses pensamentos ou por uma combinação de fatores – passei a conseguir dar a esse evento a dimensão que é dele. Relevante, claro, mas algo que já não está mais tão misturado com minhas questões egóicas.
O curioso disso é que nesse mês de bastante angústia, o prazer que eu sinto no trabalho e nos estudos empalideceu. O envolvimento com a narrativa sobre quem eu sou me afastou da minha experiência, permitindo apenas um contato enfraquecido com o meu cotidiano.
Honestamente, não acho que basta você racionalizar para que essas coisas aconteçam, para que você ganhe um distanciamento saudável em relação aos acontecimentos, mas talvez um gradual dar-se conta seja uma maneira de começar.
Encarando, aos poucos, os seus medos, se colocando mais aberta a sentir o que acontece em situações em que você se percebe “em risco” … ou seja, viver de maneira mais próxima à experiência. Cada vez que você leva menos entulho biográfico para os eventos, mais aberta você estará para sentir o que realmente acontece.
Do que eu já experimentei até agora, meditação tem um grande potencial de gerar esse
distanciamento saudável.... só que paradoxalmente é algo que funciona quando há disciplina e, ao mesmo tempo, ausência de meta.
Abhyasa e varaiga. Complexo pra caralho.