Pedro Cirri
 
Hackeando o termo “Hackeando” 
Newsletter XXXIX - 19.02.2024
 
Às vezes, entre uma postura e outra de yoga, no que se chama de vinyasa – uma sequência de movimentos coordenados com respirações que te preparam para o próximo ásana – meu foco se dispersa. Perco o drishti: o olhar livre de tensão que apenas pousa sobre, ao invés de se apegar ao ponto intencionado. Ele começa flutuar de ponto em ponto, espelhando a inquietação mental. 
 
Nesses devaneios, minha cabeça chega a ir longe, mas curiosamente quase sempre para destinos parecidos. Imagino cenas em que sou ofendido ou agredido, de alguma forma encurralado, colocado numa situação desconfortável que beira a humilhação ou a antiga “desonra”.  
 
Soa como uma criatividade vitimista, mas essas primeiras imagens na verdade compõem um crescendo da tensão narrativa, uma preparação para o clímax resolutivo. O acúmulo de raiva me leva ao contra-ataque. Um contra-ataque que sequer pede coragem, afinal, estou tão puto que nessa cena hipotética não meço as consequência. Revido com tanto gosto que chego a extrapolar a proporção, jogando pelos ares qualquer alegação imaginária de legítima-defesa. Não importa. A satisfação é imediata.  
 
Tudo isso dura um minuto, no máximo. Começa no vinyasa de transição e se estende até o próximo ásana. A imagem cessa e eu volto, não apenas ao dristi, mas a prestar atenção às ações a serem realizadas naquela postura. Só que por mais que esse curta metragem de cólera tenha fechado as cortinas, meu corpo continua reverberando a criatividade bélica. Continua agitado, pronto para um confronto. 
 
Às vezes, tenho esses mini-ensaios cinematográficos antes de dormir. 
 
Sei que isso me atrapalha, mas continuo entrando nessas cenas que me afastam do estado meditativo durante a prática e que afugentam meu sono ao me deitar. 
 
Puto com minha puteza, fiquei pensando em como interromper esse ciclo. Até resgatei o best-seller “O Poder do Hábito” que, apesar de interessante, pouco me ajudou. 
 
Aí, um belo dia, um amigo me encaminhou um episódio de podcast que abordava exatamente esse tema. Bom, não era sobre praticantes de yoga que personificam o Van-Damme em suas férteis imaginações enquanto poderiam estar atentos à prática. Era sobre reestruturação de caminhos neurais já sedimentados - uma forma de hackear os hábitos.  
 
Essa ousada proposta se apoia na maior descoberta neurológica dos últimos tempos, a neuroplasticidade – uma característica do cérebro que nos permite formar novos circuitos através da recorrência. 
 
Ele enfatiza que em termos fisiológicos, a mentalização de uma vivência tem o mesmo efeito do que a experiência em si. Sempre se diz como as vivências vão moldando os circuitos neurais, criando caminhos conhecidos, sedimentando modos de se interpretar a realidade. Pouco se fala sobre como as mentalizações podem surtir o mesmo efeito. 
 
Confesso que achei isso interessante, afinal, sempre que me imagino revidando uma agressão, não me mantenho apenas como um espectador do “filme” da minha tela mental. Eu sinto os efeitos na respiração que se encurta e nos músculos que tensionam. 
 
O que o Dr. Joe Dispenza sugere é a utilização da mentalização como caminho para remodelar os circuitos neurais que já se sedimentaram e assim alterar o padrão interpretativo. Alguém que sempre se sente injustiçado ou insuficiente poderia praticar uma outra emoção, um outro modo de estar no mundo. Com a recorrência, novos caminhos vão se estabelecendo no cérebro e as lentes interpretativas vão gradualmente sendo alteradas. 
 
Afinal, segundo ele, mentalizar e experenciar teriam o mesmo efeito fisiológico. 
 
Apesar do gritante apelo New Age desse discurso, resolvi aderir.  
 
Passei o primeiro dia me sentindo agradecido pela gratuidade da vida. Confesso que foi um dia mais agradável do que de costume. Leve, menos isolado e antagônico. Caminhei pelas ruas enxergando mais beleza nas árvores e até nas pessoas. 
 
Já no segundo, tive um impulso mais tímido. Agradeci o cosmos com menos convicção.
 
No terceiro, apenas pensei no tema ao invés de mentalizar uma postura.
 
No quarto, peguei uma gripe e já estava puto com o universo, com a natureza e com as bactérias. 
 
Talvez eu tenha sido pouco empenhado na minha gratidão. Ao mesmo tempo, tendo a ser uma pessoa disciplinada. Medito todos os dias (sem agradecer ninguém) e pratico ashtanga 5 dias por semana. Se sou dedicado, o que rolou? Achei a proposta “gratiluz” infantil? De início, sim. Mas realmente me senti bem naquele primeiro dia. Feliz, em comunhão com as pessoas, parte de algo. 
 
No segundo dia, em que esse meu espírito amoroso já estava voltando a se cobrir de desconfiança e acidez, tive minha sessão de terapia. Num determinado momento, ele disse:
 
- é difícil impor, né?
 
- pois é.... vira e mexe eu me esqueço que a vida é responsiva. Me empolgo e esqueço. Me animo com uma ideia nova e aí acho que dá para impor. E, claro, não vai pra frente. Quer dizer, pode até ir, mas não depende de mim. Meditação vai. Essa gratidão, não.
 
Qualquer escolha é posterior àquilo que já surgiu como possibilidade. Se esquecer disso é correr o risco de achar que controlamos o nosso próprio destino. E não, também não estou sugerindo um determinismo à lá tragédia grega. 
 
As aparições imagéticas quando me deito na cama precedem qualquer livre-arbítrio. 
 
Já viraram um padrão, claro, e pode até haver uma explicação fisiológica relacionada a circuitos neurais, mas o fato de haver uma mecânica neurológica não significa que eu sou capaz de controlar o aparecimento dos pensamentos. No máximo, posso estar atento ao que surge ao invés de apenas me deixar levar. 
 
E esse é o perigo desse tipo de discurso. Identifica-se um funcionamento biológico (neuroplasticidade) e aí cria-se a pretensão de hackear a mente e de possibilitar o acesso a sua melhor versão....blá blá blá.  
 
Acho que a única coisa que dá para ser “hackeada” é a atenção e tem uma galera budista e hinduísta que vem fazendo essa mágica há um tempinho...
 
Pode ser frustrante aceitar que essas imagens vão continuar surgindo na minha mente, mas talvez eu consiga perceber que elas estão surgindo antes de me deixar levar pela narrativa. Nas vezes em que conseguir ter o distanciamento necessário, poderei pensar em outra coisa que não me mobilize da mesma maneira.  
 
Atenção apurada te dá opção. Uma opção tardia, mas que ainda assim pode te libertar dos hábitos. 
 
É sempre responsivo e respostas oportunas demandam vigília. Tentar impor o seu próprio ritmo a uma dança é garantir o descompasso. Há que se adequar às batidas da percussão, aguçar a escuta e perceber as brechas para movimentos inusitados. Assim que se rompe um padrão – escutando as possibilidades de cada momento e respondendo na proporção. E alguns padrões nunca se rompem, talvez uns por ausência de escuta aguçada e outros por ausência de brechas.  
 
A imagem que mais se aproximaria não seria a da dançarina tão maleável que se funde à condução, perdendo seus próprios contornos, mas daquela que sabe se deixar levar e ainda mantém uma atenção à cada batida, ciente das frestas que permitem algo novo. 
 
Não quer dizer que não dê para praticar a gratidão, como sugerido pelo Dr. Dispenza. Claro que dá, desde que isso seja uma possibilidade para você, desde que pré-reflexivamente isso te chame e que faça sentido durante a prática. Eu não medito diariamente porque me forcei a meditar até que virasse um hábito. Eu medito porque, apesar de alguns desconfortos, isso faz sentido. Qualquer argumento que eu der aqui seria posterior ao fato de que faz sentido para mim. Talvez daqui um ano, essa prática de gratidão se torne viável. Talvez não. 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
pcirri84@hotmail.com