Aquela dúvida que te faz escrever, apagar e reescrever para não enviar. Ou que desvia a mensagem do destinatário para a sua amiga, na tentativa de arrancar alguns conselhos sobre o tom da mensagem, sobre como o crush leria aquelas palavras. Claro, normalmente não mandamos apenas o rascunho, mas um áudio com todo o contexto. Um áudio muitas vezes dispensável, pois é provável que essa história se assemelhe à última, à penúltima....
A mensagem grita carência? Um letreiro de neon anunciando a minha ansiedade? Muito cedo? Depois de quantos dias após o primeiro encontro?
Será que não importam as palavras, pois se vierem na manhã seguinte, serão lidas como súplicas ou se chegarem com atraso cairão sobre o celular como migalhas?
Para piorar, a passagem do tempo e o acúmulo de encontros não garante a suspensão da incerteza. A fluidez das relações, a ausência de rótulos e o risco de perda (ou o risco de vínculo) derretem qualquer pretensão de solidez.
Nesse mundo de rotas descontruídas, estamos sempre navegando em águas novas. Já não nos guiamos por sinais mapeados. Aqui, o céu é diferente, deslocado, irreconhecível. Sequer dá para chamá-lo de firmamento.
Uma certeza sobre a afinidade e a química logo se contamina pela demora na resposta. Esse abalo tira a potência das suas mensagens e você busca refúgio no excesso de explicações. Afinal, talvez você não soube ler os sinais daquela noite. Além das falas titubeantes, você passa a esmiuçar cada palavra que vêm do outro lado na tentativa de encontrar a intenção.
Quanto gasto de energia....
Até a convicção sobre os seus próprios sentimentos se enfraquece no turbilhão de ideias pouco elaboradas. Talvez fosse apenas uma empolgação inicial, mera idealização.
Qualquer objeto exposto a longo escrutínio perde os seus contornos, tornando-se amorfo. Palavras são iguais, basta repeti-las muitas vezes para que percam o sentido.
Quando eu era criança, as peladas na quadra da escola começavam sem início. Era saída “a Bangu”. Bastava alguém arremessar a bola na quadra que já estava valendo. Um racha sem regras estabelecidas, tampouco garantido por arbitragem. Cobrança de lateral ficava a critério do jogador, alguns usavam as mãos, outros os pés. Quando pode chamar “falta”? Pela intensidade do grito da vítima?
Os encontros atuais são atravessados pela mesma incerteza, só que aqui, não se sofre apenas um gol inusitado. Se sofre.
Como adaptação à imprevisibilidade, a estratégia predominante tem sido a aversão à risco e a autopreservação. Com poucas garantias, o egoísmo recompensa.
Esse jogo de regras soltas parecer ter dois polos, ou talvez duas consequências que se influenciam. Não são polos definitivos, são fluídos, compostos pela mesma matéria viscosa que amolece as nossas bases. Ora se passa por um, ora pelo outro.
Um desses polos é o descrito acima, que nos fala sobre as consequências de se relacionar em tempos que talvez não sejam nem mais líquidos, mas gasosos. É o polo do sofrimento com a incerteza, com a incapacidade de ler os sinais. Onde não se tem solo firme para se perguntar o que deseja. Desse polo, parece que qualquer pergunta vai romper o que se sustenta por um fiapo.
O outro polo esfumaça o que já é embaçado, se esforça rumo à ambiguidade, cuida para manter sem se obrigar, se comprometendo com o descompromisso. Anseia pela preservação de todas as possibilidades e acha que é possível avançar se se implicar nas bifurcações.
Uma espécie de liberdade negativa. Negativa não por juízo moral, mas como contraponto à liberdade em que se afirmava uma escolha, em que se positivava uma vontade. Essa liberdade já se tornou démodé. Com excesso de opções, escolhas já não são percebidas como exercícios de liberdade.
Nos tempos dos rituais, quando as vontades eram secundárias à tradição, liberdade era sinônimo de possibilidade de escolha, possibilidade de se afirmar. Ser livre era poder seguir os desejos ao invés dos protocolos.
Após inúmeras lutas, quebras de paradigmas e muitos romances escritos, já não somos reféns de conservadorismos sociais, somos livres para expressar os nossos gostos.
No entanto, exatamente essa conquista fez com que uma escolha se tornasse apenas uma escolha, se despindo de qualquer traje identitário. Já não afirmamos nossa subjetividade com engajamento romântico. Pelo contrário, nossa subjetividade se desbota perante a mera ideia de um compromisso.
A autoafirmação se tornou negativa, uma escolha por não se envolver, por deixar as possibilidades abertas. A liberdade subiu no muro e já não toma nenhum partido.
O vínculo substituiu protocolos sociais, já não são as regras que tolhem a nossa individualidade. É a possibilidade de perder possibilidades.
Nos sentimos mais “nós mesmos” quando mantemos aberta a porta de entrada. Nos tornamos tão avessos ao investimento que permanecemos paralisados, escorados no batente, com um pé em cada lado, numa meia escuta, ora atenta ao que se passa dentro, ora tentando pescar as tentações de fora.
Achar que isso se resume ao mundo amoroso seria ingenuidade. As frustrações românticas são apenas um reflexo do espírito epocal. As profissões, bem como as relações familiares, se contaminaram pelo mesmo modo de estar no mundo.
Richard Sennet documentou uma mudança fundamental na narrativa em ambientes de trabalho. Ele afirma que membros de grupos antigos eram mais focados e imbuídos de estratégias a longo prazo, enquanto grupos mais jovens têm objetivos difusos e amorfos. Seus pensamentos se restringem ao “agora” e se orientam pela manutenção das possibilidades ao invés da progressão. Já não se pensa em carreiras, mas em projetos. Não à toa, não se debruça sobre o futuro, sobre uma narrativa que aponte a uma direção coerente.
Enquanto carreiras eram definidas como percursos em que os indivíduos se especializavam num determinado ofício, ganhando posições conforme se aprimoravam, projetos não têm estruturas, se formam pela conjuntura do momento, são incertos, conferem poucas garantias e demandam participantes flexíveis, autônomos e criativos.
Encontros românticos espelham o mesmo espírito. Se tornaram uma série de empreendimentos de curto prazo desprovidos de narrativa e estrutura. Sem regras ou passos definidos que confiram segurança em relação ao seu desenvolvimento. Quando avançam, essa progressão se dá com pouca consciência, propósito ou declaração de vontade.
Ao nos livrarmos dos protocolos sociais, abrimos a porta para a incerteza. Na época do cortejo, cada gesto era carregado de significado e eram esses significados que apontavam para a possibilidade de um futuro.
As comunidades, ainda imunes ao descompromisso do anonimato, policiavam as condutas consideradas imorais. Egoísmo e manipulação eram castigados com perda de reputação. Hoje, ação e consequência estão tão distantes que mal se enxergam e a perda de reputação já não inibe os narcisistas. O risco de difamação se dilui entre os infinitos perfis.
Eram exatamente os protocolos que serviam de garantia - conhecendo o sentido de um movimento, você tomava coragem para se expor um pouco mais.
Um jogo com regras claras confere previsibilidade e com previsibilidade conseguimos sopesar os riscos de uma abertura, de um salto em direção a uma paixão. Apresentar os pais ou os filhos a um companheiro significava algo e esse significado dava ao outro segurança para ir um pouco além. Um diálogo através de gestos simbólicos.
Hoje, essa apresentação poderia ser apenas conjuntural e desprovida de qualquer sentido.
Envolto em tanta névoa, já não nos comunicamos por gestos, afinal, eles perderam a carga simbólica. Sequer dialogamos com os outros. Nos fechamos em conversas ensimesmadas, numa hiper psicologização que preencheu o vácuo deixado pelas tradições, pelo espaço público compartilhado. Nossos sentimentos e nossas vontades ocuparam o palco abandonado pelos rituais.
Só que assim como as palavras, sob excessivo escrutínio, as nossas vontades começam a perder os contornos. De perto, elas se revelam incoerentes. Excesso de autoconsciência nos torna erráticos, inseguros e ainda mais ensimesmados.
Esquecemos que rituais dão forma e organizam. A previsibilidade proporcionada por gestos simbólicos nos permite criar uma narrativa sobre o que vivemos. E são essas narrativas que dão coerência aos fatos e projetam um futuro.
Hoje, nos relacionamos suspensos num agora de meia presença e carente de narrativa. Não narramos pois não compreendemos, uma vez que as atitudes ficaram ambíguas e órfãs de sentido.
Nosso foco se volta, então, ao cruel escrutínio dos nossos próprios sentimentos, como se exigíssemos relatórios contantes e em tempo real para atestar se o que estamos vivendo vale a pena.
A influente revista Psychology Today fornece uma lista de indicativos para verificar se um relacionamento é tóxico ou não. No topo dessa lista temos: “seu parceiro não te faz se sentir bem consigo mesma” e “você se sente pior como pessoa após ter iniciado esse relacionamento”.
Essa mesma revista, num artigo sobre consentimento sexual, enfatiza: para que tal consentimento seja verdadeiro é importante entender não apenas se naquele momento você está com vontade de ter uma relação, mas se na manhã seguinte você não irá se arrepender.
Esses artigos refletem uma hiper atenção aos nossos estados internos e uma incapacidade em lidar com as nossas próprias flutuações. Uma incapacidade de entender que emoções e desejos são impermanentes e muitas vezes conflitantes.
Na ausência de rituais que confiram previsibilidade às interações, que preencham os gestos de significado, nos voltamos aos nossos estados internos para entender o que se passa. Só que ignoramos que esses estados não são tão claros, tampouco estáveis. Assim, ficamos presos num diálogo fechado em si, distantes do mundo e alérgicos à alteridade.
Os participantes desse jogo confuso são largados à própria sorte, tendo que lidar com dois anseios conflitantes: estar numa relação íntima e, ao mesmo tempo, preservar seu valor próprio, sua autoestima e individualidade.
No entanto, ganho de intimidade se dá com abertura e vulnerabilidade, seja por gestos carregados de simbologia ou pela conversa sobre emoções e expectativas. E, num ambiente incerto, a estratégia predominante é a autopreservação e isolamento. Risco é mensurável, incerteza, não.
Conforme mostram os estudos (Tali Kleiman e Ran Hassin), quando temos objetivos conflitantes dentro de uma mesma situação, os atores são mais suscetíveis a usar aspectos “irrelevantes” em suas decisões. Se apoiam em detalhes, em elementos arbitrários para escolher entre se engajar ou sair.
Parece que as relações se sustentam num equilíbrio muito delicados entre participantes muito vigilantes. Qualquer percepção que destoe de uma expectativa (não verbalizada) já pesa na balança, corrompendo a dinâmica.
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Para quem quiser se aprofundar no tema, recomendo a leitura de “End of Love” da professora e socióloga Eva Illouz.