Pedro Cirri
psicoterapia
 
 
Frustações
Newsletter #41 - 24.06.2024
 
Eu estava no quarto ou quinto ano de Direito, estagiando num desses escritórios “glamourosos”, tentando terminar uma tabela de fichamento de contratos. Um trabalho impressionantemente mecânico - acessava documentos jurídicos digitalmente, tinha que lê-los e colocar as principais informações em uma tabela. Um golden retriever bem treinado seria capaz de realizar a mesma função.  
 
Já tinha passado das dez da noite e minha última refeição havia sido um almoço corrido na lanchonete da rua de cima (o famoso Joaquins e suas batatas smiles). A loja de conveniência do posto de gasolina fecharia em breve e eu, infelizmente ciente dessa informação pela recorrência das madrugadas corporativas, não queria perder a oportunidade de comprar um salgado requentado e uma Coca-Cola. Ainda teria algumas horas de trabalho pela frente, pois o relatório de auditoria precisava ser entregue ao cliente no dia seguinte. Travei a tela do computador, me levantei da cadeira e dei de cara com a minha chefe vindo em minha direção. 
 
- Está saindo?
- Sim, mas já volto. Precisa de mim agora?
- Queria saber quantos contratos ainda faltam e pedir para você acelerar. Eu ainda tenho que revisar o seu relatório hoje.
- Só vou aqui no posto comprar um salgado e volto.
- Quanto mais você demora, mais tarde eu saio.
- Eu sei. Vai ser rápido. É que eu estou morrendo de fome.
- Está com fome? Come biscoito.  
 
Ela deu três passos para trás, fez uma leve torção à direita e abriu o armário daquela sala onde ficavam os estagiários. Um armário só de biscoitos que eles serviam aos clientes nas reuniões e que estavam constantemente disponíveis aos funcionários durante o expediente. Eu já não aguentava mais mastigar aquelas porcarias. 
 
- Eu sei que tem biscoito, mas preciso de algo com mais sustância.
- Não. Enquanto eu estiver aqui te esperando, você não vai sair.
Bufei resignado. Não estava naquela situação por ter procrastinado, por ter sentado em cima das pendências. Não. Naquele lugar (e depois descobri que em muitos outros lugares), os trabalhos surgiam de qualquer fresta. Dos ralos, da saída do ar-condicionado, da divisória entre uma baia e outra. Bastava ficar desatento que a lista de tarefas aumentava.
Bufei resignado e me sentei na cadeira que sequer havia esfriado. Eu não queria perder aquele estágio. 
 
Essa era uma das histórias que eu contava numa mistura de autoelogio com crítica às gerações mais novas. Contava quando já não era mais estagiário e nem advogado junior ou pleno, mas advogado sênior - que no meu último escritório eles chamavam de “sócio junior” para poder cobrar mais caro pelas minhas horas. Contava essas histórias dando a entender que os mais novos não tinham “sangue nos olhos”. Que eles, diferente dos estagiários “da minha época”, se apressavam em jogar a toalha diante da primeira frustração. 
 
Não perdia a chance de dizer que teve uma semana em que vi o sol nascer duas vezes pela janela do meu cubículo. Sobre como ele subia diferente no inverno. Não apenas atrasado, mas mais incandescente do que o precipitado sol do verão. Como era a sensação de passar na feira perto da minha casa de terno e gravata e ver todo mundo começando o dia enquanto eu tomava um caldo de cana e comia um pastel antes de dormir. 
 
Sim... há algo de patético em se enaltecer com histórias que não retratam nenhum virtude, exceto resiliência. Ou, num olhar menos generoso, não-afetação, a capacidade de ser indiferente, de criar imunidade ao stress. Uma falsa não-afetação, pois nesses dias eu tinha pesadelos com trabalho, sonhava em cláusulas e termos jurídicos. 
 
Além disso, como eu conseguia comer um pastel e dormir em seguida? 
 
Para além de batidas, essas críticas às gerações mais novas flertam com a síndrome dos anos dourados. Ou pelo menos com a lógica dessa falácia que acomete parte dos desencaixados.  
 
Não obstante (como eu diria ou sonharia antigamente), acho que há um fenômeno a ser analisado por trás dessa crítica. Afinal, clichês se tornam clichês por algum motivo. 
 
Num primeiro olhar, diríamos que enquanto as gerações anteriores tinham estofo para lidar com frustrações, as mais jovens desistem no primeiro percalço e que a questão portanto se resume a caráter – a algo como coragem e perseverança.   
 
Pode ser tentador julgar casos individuais dessa forma, mas se pensarmos no quadro geral, fica um pouco estranho. Como se toda uma geração tivesse nascida desprovida de resiliência.
 
O primeiro ponto é verificar se essa percepção está correta. Pelos relatos que escuto e pelas discussões em rodas de psicologia, me parece que sim, que gerações mais novas são (em geral) mais sensíveis a frustrações. 
 
Partindo dessa premissa, não dá para simplesmente tratar o tema como ausência de virtude. Se virtude é uma questão de escolha e renúncia, então algum elemento epocal faz com que diante de uma bifurcação entre o caminho árduo e recompensador e outro supostamente plano e previsível, os jovens escolham o último. 
 
E o que seria esse elemento?
 
A teoria psicanalítica falaria em castração durante a passagem pelo complexo de Édipo – o momento em que a mãe (ou o cuidador) deixa de se interessar exclusivamente pela criança. Em que, em moldes mais tradicionais, ela voltaria a sua atenção ao marido. O menino, que tem a mãe como objeto de desejo, se veria ameaçada pela competição do pai e abdicaria desse amor objetal. Isso seria a castração simbólica. Aqui se daria o momento embrionário da lida com as frustrações. Não apenas de não se ter o que se deseja, mas de compreender, no momento em que a mãe volta a se interessar por outras coisas, que ele não é o centro do universo. 
 
A passagem “saudável” pelo que se chama de complexo de Édipo seria a compreensão de que ninguém é a completude, a onipotência. O desinvestimento que a mãe faz na criança a ensinaria a lidar com uma falta. Na verdade, com a maior das faltas, a realidade de que ela não é superpoderosa e supridora de todas as faltas. Ao final da passagem por esse complexo, o falo se reinscreve na cultura. Ou seja, a criança entende que não se é o falo. O falo (poder) transita por ser simbólico e, assim, a dinâmica relacional se torna um jogo onde pessoas ocupam personagens conforme a circulação do poder. 
 
É sobre o que se faz, não sobre o que se é. 
 
Essa seria uma passagem na infância onde a criança entenderia (ou intuiria) que a falta pertence à vida, que as dificuldades fazem parte do jogo. Que ora se erra, ora se acerta. 
 
A questão que se colocaria seria se pais se tornaram exageradamente protetores nas últimas décadas. Será que, em geral, os cuidadores conseguiram realizar esse desinvestimento saudável? 
 
Talvez dois fatores sejam relevantes aqui. Aumento de IDH gera uma maior disponibilidade parental. Já não se vive na escassez do pós-guerra e uma melhor condição financeira aumenta a chance de convívio dentro do mesmo teto. Mas isso por si só não explicaria o suposto exagero. 
 
Há tempos vivemos uma negação constante das heranças das gerações anteriores, sempre culpando a tradição por traumas presentes. O que não deixa de ser uma tremenda hipocrisia. Se critica as gerações anteriores por severidade e as posteriores por frouxidão e jamais se assume responsabilidade. Enfim, conforme retratado por Cristopher Lasch em seu livro sobre narcisismo, os pais se vêm órfãos de referências exatamente por negarem o que não julgam “moderno” ou “humanizado”. Sem pilares e com medo de errar, descambam para o exagero. Como se os filhos não fossem sobreviver a um aprendizado orgânico que se adapta durante o percurso. 
 
Portanto, parece que falar em ausência de castração ou uma castração não suficientemente marcada pode explicar o comportamento das gerações mais jovens. 
 
Ouço histórias de pais que não param de importunar as escolas de seus filhos numa tentativa de suavizar suas frustrações. Tem até relato de pais que acompanham os filhos em entrevistas de emprego. 
 
As pessoas diriam que esses jovens não foram calejados pela vida, mas talvez isso não diga respeito à formação de musculatura para lidar com as quedas, mas sobre a incapacidade de compreender que as frustrações não dizem respeito a você, mas a algo que você fez. Que o falo não é alguém, mas algo que circula. Não à toa, educadores dizem para elogiar o trabalho realizado mais do que a criança. Para enfatizar que ela está de parabéns por ter se dedicado à tarefa da escola e tirado nota boa ao invés de dizer que ela é inteligente. 
 
Esse é um modo de olhar para o assunto que busca na infância e no prolongamento do infantil uma dificuldade em lançar um olhar maduro e distanciado sobre a vida. 
 
Há um olhar complementar que encontrei nos estudos de Richard Sennett. O sociólogo americano voltou a pesquisar as relações de trabalho de uma padaria na cidade de Boston que ele havia visitado na década de setenta. Em seu livro, ele apresenta um contraste entre as duas épocas, entre como os trabalhadores de cada década percebia a sua própria função, como eles se relacionavam com suas profissões. 
 
Nos anos setenta, a grande maioria dos trabalhadores eram homens de aproximadamente 40 anos, nascidos na Grécia, casados, pais de família e, não coincidentemente, habitantes do mesmo bairro. Entre eles, a reclamação com os preconceitos contra imigrantes era unanimidade. Diziam somente ter acesso a trabalhos com baixa remuneração e que só conseguiam moradia em áreas habitadas predominantemente por não-americanos. 
 
As condições da padaria eram descritas como insalubres. Passavam as noites suportando o calor dos enormes fornos, se esforçando para não errar nenhuma leva de pães e assim não tomarem bronca ou terem seus pagamentos descontados por desperdícios. Chegavam em casa de madrugada, exaustos, e tinham apenas um dia de folga. 
 
Além disso, aprender as receitas dos diferentes tipos de pães não era uma tarefa fácil. Ou seja, um trabalho difícil e mal remunerado. 
 
Ao voltar na década de noventa, Sennett encontrou uma outra padaria. Já não havia nenhum grego, mas pessoas de diferentes etnias que moravam em diferentes bairros da cidade. A rotatividade era consideravelmente mais alta do que antes, afinal, aquela era uma época de maior mobilidade profissional. Os fornos antigos haviam sido substituídos por equipamentos modernos. Já não se sofria com o excessivo calor ou com as madrugadas a fio confeccionando diferentes massas. Era tudo mecanizado. Bastava inserir alguns dados numa tela que, em pouco tempo, o pão saía pronto. Não precisava saber a diferença entre um pão italiano e uma baguete e, de fato, várias pessoas de lá não sabiam. 
 
O gerente geral – que havia sido aprendiz na década de setenta e que se sentia incomodado com a falta de interesse – organizava seminários sobre panificação. Quase ninguém comparecia, exceto dois vietnamitas que praticamente não falavam inglês. Quando questionados por Sennett, os ausentes davam a mesma resposta – não pretendiam fazer aquilo por muito tempo. Eles não se viam como padeiros. Nas palavras do sociólogo, suas identidades profissionais eram fracas, amorfas. 
 
Quando Sennett compara as muitas conversas que teve nos dois períodos em que passou na padaria, percebe que os gregos da década de setenta se consideravam padeiros e tinham orgulho de serem bons profissionais. Na década de noventa, pela facilidade criada com a automatização, ninguém ali se engajava com aquele ofício. Tampouco conseguiam definir o que era ser um bom padeiro. 
 
(...) When we diminish difficulty and resistance, we create the very conditions for uncritical and indifferent activity on the part of the users.”
 
It is a commonplace that modern identities are more fluid than the categorial divisions of people in the class-bound societies of the past. ‘Fluid’ can mean adaptable. But in another train of associations, fluid also implies ease; fluid motion requires that there be no impediments. When things are made ease for us, as in the labor I’ve described, we become weak; our engagement with work becomes superficial, since we lack understanding of what we are doing.” 
 
Isso foi escrito na década de noventa. Trinta anos se passaram. Trinta anos de avanço tecnológico facilitando a nossa lida com as atividades, tornando qualquer tipo de aprofundamento desnecessário. 
 
Sennett pinta um cenário de trabalhos complexos, trabalhos que demandavam investimento de tempo no aprendizado e dedicação durante a execução. Trabalhos que te tornavam profissionais de uma determinada área.
 
As entrevistas também mostram que identificação e engajamento são necessários para sustentar frustrações. 
 
Atividades que não demandam investimento e que não te transformam num expert daquele ofício permanecem sem densidade. Atividades que se desmontam com qualquer tremor.
Julgar toda uma geração é não apenas pobre, mas sem sentido. A falta de resiliência é apenas sintoma de um novo modo de lida. Desinvestida e fluída. Não por escolha, mas pelo fato de que as coisas se apresentam assim atualmente – digitais, de rápida assimilação, sem complexidade e voláteis. Elas convocam uma lida superficial. 
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
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