Li uma notícia sobre o mais recente lançamento de um dos meus autores preferidos, o norueguês Karl Ove Knausgaard. No dia seguinte, fui a uma livraria e comprei um exemplar de “A Estrela da Manhã”. Grande, daqueles desconfortáveis de se segurar quando lemos deitados. Sem buscar comentários na internet, pesquisar análises em periódicos e nem mesmo ler a contracapa, comecei o primeiro capítulo.
As páginas foram viradas sem esforço, sem aquela insistência de quem avança, reforçando para si mesmo a importância da leitura. Não. Aquele início foi de puro prazer. Uma Investigação do cotidiano, esmiuçando cada detalhe de uma vida ordinária. Era isso que mais me encantava nesse autor, a sua capacidade de dar complexidade ao simples. Cada vez que eu pegava um de seus livros, a narrativa despretensiosa e ao mesmo tempo tão curiosa pelo trivial me convidava a redimensionar o meu dia. A me ater um pouco mais aos detalhes, a não tratar uma passada de café como rotineira, a prestar atenção às pessoas ao meu entorno no percurso de metrô. A gostar um pouco mais da minha rotina.
O segundo capítulo trouxe novos personagens. Até aí, tudo bem. Vários escritores usam essa técnica e, em certo momento do livro, entrelaçam as histórias.
Terceiro capítulo, mais personagens. Personagens que sequer conheciam os anteriores. Cada seção parecia iniciar um novo livro. Parei a leitura e comecei a folhear os títulos de cada capítulo. Mais nomes ainda não citados.
Lá pela quarta ou quinta história, percebi que a narrativa começou a me incomodar. Fechei o livro algumas vezes, como se estivesse ameaçando o autor de abandonar a leitura. Uma chamada de atenção para que ele corrigisse a rota. Não me ouviu. Até deu um segundo capítulo a alguns personagens, mas sem a menor pretensão de amarrar as pontas.
Eram recortes. Com suas complexidades, claro, mas apenas recortes. Do meio do livro em diante, me peguei menos disposto a me aproximar dessas histórias. A leitura começava a se assemelhar a uma decolagem saindo do aeroporto de Congonhas. Cada casa, cada janela, que parecia única e peculiar de perto, vai se diluindo, tornando-se irrelevante, um elemento dispensável naquela paisagem complexa. Poderia estar ali, bem como não estar. Nada mudaria.
Havia um único elo nas histórias. Um elo que não surte o efeito literário que buscamos em história paralelas, mas que certamente atendia à provocação do autor. Cada recorte trazia, ora de modo discreto, ora com descrições grotescas, a presença da morte. A presença da ausência. Uma personagem é a pastora que cuida de funerais da pequena cidade, outro é um jornalista que investiga um assassinato, um terceiro é um professor que, dentre várias outras coisas, discute a morte e sua simbologia com um colega.
Inclusive, a morte é simbolizada por uma nova estrela que surge no firmamento e passa a brilhar tanto quanto uma lua cheia. Um fenômeno presente em todos os capítulos, mas que, com o passar do tempo, começa a ser ignorado pelos habitantes. Do meio em diante, pouco se fala sobre essa aberração astronômica. Os personagens normalizam a novidade e passam a viver suas rotinas como se aquela estrela descomunal não pairasse sobre as suas cabeças.
Foi apenas ao final do livro que me dei conta dessa metáfora. O “esquecimento” desse astro representa a forma como lidamos com a morte. Fingindo ignorância.
Talvez você leia isso e ache que essa afirmação não se aplica ao seu caso. Que você reconhece a finitude.
Sim, acho que todos nós reconhecemos e lidamos com o tema. Só que de uma maneira impessoal, emprestando ao assunto uma racionalidade distante, uma falsa compreensão. Um entendimento de que “se morre”.
Tratamos o fim como o resultado de uma sequência lógica, numa tentativa de nos proteger de sua possível iminência. Pensar a morte como última etapa do envelhecimento é tapar os ouvidos, fechar os olhos e se desimplicar.
Em distintos momentos do livro, alguns personagens são interpelados por pessoas aleatórias que os avisam, num tom aflitivamente sério, de que eles estão condenados.
O terror não é anunciado, mas se extrai da situação. Knausgaard brinca com a lucidez de falas vindo de pessoas pouco conscientes - um sujeito internado numa clínica psiquiátrica e uma criança de cinco anos de idade.
Há um jogo. Afinal, a real loucura está nos personagens que estranham o aviso e evitam a realidade de que eles estão, de fato, condenados.
O livro se encerra com um ensaio sobre a morte. Nele, o narrador (um dos personagens) traz a visão kierkegaardiana sobre o mito de Adão e Eva. Segundo o filósofo dinamarquês, o fruto da árvore proibida conferia conhecimento sobre a própria finitude. O conhecimento que nos diferencia dos animais.
Eles têm instinto e por isso fogem da morte de modo irrefletido. Quando não estão em fuga, não tematizam o fim. Na verdade, tampouco durante a fuga, apenas agem como animais agem. Paradoxalmente, nós que tomamos conhecimento da nossa finitude não sustentamos essa realidade. Essa é a queda do paraíso. Uma vida em esquiva, fingindo que a morte não paira sobre nós como a nova estrela do livro
Essa seria a fonte de sofrimento. Afinal, a esquiva do inafastável jamais se completa, apenas nos entorta.
Terminei o livro e fui dormir. Estava sozinho num sítio no interior de São Paulo. Curiosamente, os sonos por lá tendem a ser profundos. Às vezes, até demais.
Nessa noite, sonhei que era réu num processo. Apesar das formalidades de um tribunal, tudo era atravessado por uma teatralidade cômica. Chegava a parecer uma brincadeira, como se a qualquer momento pudéssemos sair do personagem. Todos se levantarem, inclusive eu, e minha sentença foi lida. Execução por injeção letal. Eu ri. Eles também riram. Em seguida, saímos do tribunal e nos sentamos no sofá de uma sala. Quando a conversa esfriou, me levantei e caminhei até a porta. Bloquearam o caminho, repetindo a minha sentença.
Foi nesse instante em que percebi que aquilo não era uma brincadeira e que eu morreria no dia seguinte. Tentei sair novamente. Dessa vez, me seguraram pelos braços. Comecei a me desesperar, a tentar me livrar daquelas mãos que me impediam de acessar a porta. Essa angústia foi tão forte que dei um jeito de compreender que estava sonhando mesmo sem acordar.
O sonho seguinte fez referência ao anterior, mas com uma sensação de alívio. Já normalizando o tema e me cobrindo da ilusão de que eu não estava condenado.
Acordei e fui até a cozinha, passar um café. Enquanto esperava a água ferver, lembrei de um post que eu tinha visto no Instagram. Um influencer que divulgava conteúdos relacionados a espiritualidade estava compartilhando (e sugerindo) uma experiência. Como não poderia deixar de ser – a sugestão era dourada com o apelo de hackear a vida. É curioso. Parece que estamos resgatando o imediatismo das terapias das décadas de setenta e oitenta e dando um “twist” da performance. Bom, esse energúmeno digital disse que, após uma meditação, resolveu imaginar a própria morte. Realmente imaginar, tratando aquela fantasia como a realidade inescapável. Segundo a legenda, o poder da imaginação fez com que ele se entregasse ao mistério, se desapegando de todos os medos. Esse estado teria perdurado após a experiência a tal ponto que, em algum momento do post, ele mencionou um “renascimento”.
É muita ingenuidade e autoengano achar que se experiencia algo notoriamente falso como real. Ninguém, nem ele, acha que vai morrer pelo poder da imaginação. Esse exercício foi feito no conforto do conhecimento de que, naquele instante, não se está morrendo.
Agora, que o nosso querido influencer mentecapto estava certo em algum nível, acho que estava. Essa vivência deve ser abusadamente transformadora. O problema é que ela não se fabrica. É preciso contar com a boa (ou má) vontade do universo.
Dostoiévski teve essa sorte (ou azar). Preso por participar de um grupo de nobres e burgueses com pretensões revolucionárias, o jovem escritor ficou encarcerado na antiga fortaleza Pedro e Paulo nos arredores de St. Petesburgo. Após mais de oito meses aprisionado, foi enxotado de sua cela e arrastado até as carruagens enfileiradas diante da fortaleza. Apesar de ter tido a oportunidade de defender seu caso por escrito perante o tribunal civil-militar, Dostoievski e seus colegas não tiverem acesso à sentença.
Após meia hora de viagem, escoltados por agentes uniformizados, eles desceram na praça Semiónovski. Perceberam que havia um tablado de madeira provisório e três estacas entre essa plataforma e o espaço onde um público começava a se reunir.
Um dos prisioneiros descreve uma mistura de apreensão com alegria, afinal, depois de tanto tempo em reclusão, eles finalmente poderiam conversar e estar ao ar livre. Por outro lado, aquela formatação em praça pública não apontava para algo promissor.
Os infratores foram enfileirados e, ainda em meio ao furor do reencontro e da apreensão pelo destino, um oficial começou a ler a ordem do tribunal. Akhchárumov descreve em suas memórias que, apesar do pronunciamento embaralhado e confuso, uma frase ressoou de modo claro, silenciando o burburinho. Condenados à morte por um pelotão de fuzilamento. Dostoiévski virou-se para Dúrov e disse não acreditar naquela condenação. Seu companheiro o cutucou e apontou para uma carreta ao lado do tablado na qual estavam os caixões empilhados. Foi nesse instante em que a realidade se sedimentou. Em seguida, os funcionários entregaram aos prisioneiros vestes brancas e gorros – suas mortalhas fúnebres.
Um padre carregando uma Bíblia em uma mão e um crucifixo na outra atravessou a plataforma diante dos condenados, sugerindo que se arrependessem antes de morrer. Nenhum deles confessou, porém muitos beijaram a cruz. Os primeiros três prisioneiros foram amarrados às estacas, tiveram suas cabeças encobertas. Dostoiévski estava entre os três seguintes. Lvov, que estava ao seu lado, relata que o escritor numa enorme agitação se lembrou de “O Último dia de um Condenado”, de Vitor Hugo e, aproximando-se de Spiéchniev, disse “Estaremos com Cristo”. Seu colega, ateu ferrenho, respondeu com um sorriso torto – “um punhado de pó”.
Akhchárumov relembra a espera pelos tiros como “repugnante e terrível”. Um minuto que se estendeu por horas, até que os tambores rufaram, anunciando a interrupção. Os três homens foram desamarrados e uma sentença menos severa foi aplicada.
Segundo o professor e biógrafo Joseph Frank, “Grigóriev estava pálido feito papel; ele já tinha dado sinais de perturbação mental na prisão, e a execução simulada acabou por aniquilá-lo.” Nem toda transformação é positiva.
Dostoiévski volta à sua cela e apressadamente escreve ao irmão: “A vida é uma dádiva, a vida é felicidade, cada minuto pode ser uma eternidade de felicidade.”
Frank considera que sua lida com a existência e com a escrita deixou de ser tão teórico-reflexiva e passou a ser mais íntima e visceral.
Ao olhar a morte de perto, é possível que ele tenha compreendido a gratuidade da vida e adotado uma ética cujo radicalismo nasce da iminência do Dia do Juízo Final. “(...) não há tempo para nada a não ser o último beijo de reconciliação porque, literalmente, não há tempo.”
O russo se aproximou de uma fé no estilo Kierkegaard. Uma fé que não se explica, que não poderia ser compreendida pela mente humana, mas somente incorporada. De tal modo que sua comunicação não se daria por argumentos, mas pela descrição de vivências – e ainda assim não chegaria aos pés daquilo que se sente.
Soa como se Dostoievski tivesse se tornado idealista e leviano. Só que não estamos falando de ideais. O escritor desenvolveu uma relação bruta e honesta com a fé – colocando-a muitas vezes em questionamento. Muito menos daria para acusá-lo de leviandade. Em momento algum ele vira o rosto para o sofrimento da condição humana. Pelo contrário, se aproxima das ambivalências, reconhece tanto a luz, quanto a sombra de cada existência.
Parece que ele se tornou mais íntimo da vida, menos defendido, menos medroso. Afinal, ele esteve diante do medo primordial, do medo que dá suporte a todos os medos.
Terminei de passar o café e comecei a escrever. Após alguns minutos, meu pai me ligou. Saí da frente do computador e caminhei até uma área em que o sinal é um pouco mais estável. Contei sobre o livro e sobre o meu sonho.
Ele disse que quando estava prestes a passar por uma cirurgia delicada, marcada de um dia para o outro no susto de uma ressonância alarmante, pensou numa negociação com Deus. Se esse ser onisciente baixasse em seu leito oferecendo a certeza de que o câncer seria curado em troca de um tempo de vida mais curto, ele aceitaria sem sequer negociar. Claro, quem não aceitaria? Nesse escambo anímico, meu pai sairia com a certeza de que morreria aos sessenta e cinco. O câncer foi curado e o tempo extra já transcorreu. Refletindo sobre isso, ele me disse “ainda bem que não teve esse acordo”.
Sofremos de um otimismo, nos apegando à ilusão de que o passar das décadas irá de alguma forma nos preparar para a morte.
Soa macabro, mas tento pensar diariamente na minha morte, com a expectativa de que eu me familiarize um pouco mais com essa realidade. Acho que meu sonho demonstra que ela ainda é insuportável.
Elisabeth Kubler-Ross inicia seu livro, que virou uma referência no tema, contando sobre a morte de um fazendeiro vizinho aos seus pais. Caiu de uma árvore e acabou sofrendo ferimentos graves. Escolheu ficar seus últimos dias em casa. Se despediu dos filhos e amigos com calma, repartindo os bens e delegando obrigações. Ela, ainda criança, participou de todos os preparativos, bem como do velório. Relata uma despedida que aproximava a morte da vida, ao invés de afastá-la aos quartos esterilizados de um hospital.
Em seguida, a autora aponta para uma crescente dificuldade em se lidar com o fim. Hoje, se vive mais, mas parece que se vive pior, com mais medo. Ao passo que a morte deixou de fazer parte do nosso cotidiano, com o avanço da medicina e a queda da mortalidade infantil, nos tornamos completamente avessos ao tema.
Schopenhauer sugere uma saída lógica. Se não sofríamos antes da nossa existência, por que temer o pós-vida? Talvez seja racional demais. Prefiro tentar ganhar intimidade com o fim. Não por convencimento lógico, mas por um desapego gradual, por prática de morte ainda em vida. Claro, nada que eu venha a chamar de “renascimento”, a menos que o destino me reserve uma experiência similar a do Dostoiévski. Espero que não.