Para sair do avião à hélice e colocar o pé na escada era preciso encurvar as costas. Após poucos passos, estávamos na pista de pouso. Apenas eu, a minha namorada, os outros quinze passageiros e a diminuta aeronave. Caminhamos em direção à construção situada entre nós e as enormes montanhas verdes. O nome da ilha estava escrito em vermelho acima da porta dessa sala onde as malas eram entregues. Uma das letras estava descolorida como um sinal em neon que falha em algum ponto da palavra. Esse aspecto e o desgaste do material da fachada indicavam uma atmosfera oposta àquela que encontramos em Tóquio. Na capital, havia muito esforço para esconder o desgaste, para maquiar o decurso do tempo. Cada objeto parecia ter sido desembrulhado poucos segundos antes do contato com os nossos olhos.
A ilha era diferente. Ali, o ferro oxidava e as superfícies desbotavam. O tempo passava – até mais devagar, mas passava – e a corrosão dos materiais parecia testemunhar essa inevitabilidade.
Por coincidência, estava lendo um livro do Chul-Han que esmiuçava a base de todas as relações: o tempo. Não era bem consciência – o título “Vita Contemplativa” combinava com uma viagem ao oriente.
O autor inicia a obra com uma crítica ao espírito desta época. Ele faz uma contraposição entre contemplação e a nossa noção de tempo livre, dizendo que a esta falta a abertura da inatividade. Que até o tempo livre foi otimizado, se tornando acessório e condicionado ao tempo produtivo. Falta ao tempo livre o contato com o nada.
Recebemos nossos mochilões e cruzamos a rua em direção à locadora de carro – um caixote que parecia ter sido construído com aqueles materiais usados em estabelecimentos provisórios logo após um desastre natural.
Eu sabia que a chance de conseguir alugar o carro seria pequena. Há uma estranha burocracia internacional que torna impossível para brasileiros dirigirem no Japão. Também sabia que ficar seis dias naquela ilha sem veículo seria uma sujeição incomum. Um modo de viajar que me remetia à infância, dependendo de condições alheias à minha vontade. A dona da pousada havia alertado que os ônibus circulavam com pouca frequência e que as distâncias eram longas demais para bicicleta.
Apresentei minha carteira de motorista, mas a moça logo retornou com um fichário, apontado para a única coisa legível para nós – a data da convenção internacional que me impedia de alugar um carro.
“Bus?” – perguntei já mostrando o endereço da hospedagem. Ela arregalou os olhos e fez uma cara de surpresa. Eu também já sabia que ficaríamos na região mais isolada daquele local já isolado. Pegou a tabela de ônibus a apontou para um horário. Ainda demoraria uma hora e meia.
Essa aventura surgiu de uma conversa despretensiosa sobre a mesa de almoço num final de semana. Estava com a minha mãe e um casal de amigos dela. Mencionei que iria ao Japão e logo ouvi o Ricardo discorrendo sobre uma comunidade em que o seu primo havia se hospedado. Pedi o contato do tal primo. Trocamos algumas mensagens que não ajudaram muito. Ele foi lacônico, parecendo até de má vontade. Quando insisti nas perguntas, ele apenas me encaminhou o contato do seu amigo brasileiro-japonês que morava nessa ilha. Mandei uma mensagem para o nipo-brasileiro chamado Elvis e marcamos um dia para falar por telefone. Eu, ele e, por algum motivo, a sua ex-mulher. Após meia hora de bate papo, eu continuava sem entender o que eles estavam chamando de comunidade. Ele disse que o quarto para hospedes em sua casa já estava alugado para um conhecido e, então, acabou me indicando uma hospedagem próxima. A pousada tinha site, mas nenhuma foto. Reservei por seis dias.
Viagens que saem do script acabam evidenciando aquilo que de tão familiar já se tornou invisível em nós. Tinha pouca informação sobre a ilha. Tão pouca a ponto de sequer conseguir formar uma imagem, de sequer conseguir dar corpo a uma expectativa. Foi uma chegada em suspensão, onde cada elemento encontrado formava uma narrativa do que já estava acontecendo ao invés de ser confirmatório ou negatório daquilo que havia sido criado na minha mente.
Essa construção em tempo real dava peso à paisagem percorrida pelo ônibus, como se cada canto mais árido e carente de alma fosse uma ameaça à nossa estadia, uma ameaça ao estado de espírito em que estaríamos nos próximos seis dias.
Quando percorríamos um canto supostamente acolhedor, eu me agarrava ao visual de poucos segundos, tentando construir uma narrativa que me contasse algo, que aplacasse aquela inquietação.
Uma outra lida se daria sem a necessidade de uma antecipação mental, o que pressupõe uma proximidade, uma familiaridade com o estar-no-mundo. Em Ser e Tempo, Heidegger usa a expressão Ser-no-mundo, mas não para falar de um “estar contido” no mundo, não se trata de um posicionamento geográfico. Ser-em, segundo o filósofo alemão, tem relação com innan do alemão arcaico – que significa “morada e familiaridade”.
Chul-Han fez doutorado sobre Heidegger e, não à toa, nos fala sobre contemplação. Sobre um deixar-ser que abdica das intenções, abrindo espaço para as coisas como elas são. Possibilitando também o assentamento de um tempo vazio. Em boa parte do livro, ele trata de uma das disposições afetivas mais caras a Heidegger, o tédio.
O descanso atual se tornou alérgico ao tédio e incapaz de se desprender das intenções, buscando até na sono algum tipo de otimização como as “power naps” ou os sonhos lúcidos.
Sendo que é exatamente no tédio e no vazio que nascem as criações e as vivências profundas. Soa até contraditório, mas não é. Não se convida o tédio na expectativa de criar ou experenciar algo. Se vive o tédio, aceitando o nada e se desarmando das pretensões.
Pegando carona em Walter Benjamin, Han afirma que a experiência profunda não é resultado do trabalho e do desempenho. Não se trata de um resultado da atividade, mas pressupõe uma passividade. Nas palavras de Benjamim: “fazer uma experiência com algo, seja com uma coisa, com um ser humano, com um deus, significa que esse algo nos atropela, nos vem ao encontro, chega até nós, nos avassala e transforma.”
Ele novamente recorre às palavras de Walter Benjamin para descrever esse tempo vazio como um “tecido cinzento e quente, forrado por dentro como a seda das cores mais variadas e vibrantes e no qual nos enrolamos (...).” Esse afeto tem o poder de gestar a experiência profunda. Experiências que permanecem inacessíveis àqueles que não param para escutar.
Han aproxima esses eventos dos sonhos e do mundo inconsciente. Afinal, neles, a vontade é deixada de lado. É na espera, na abdicação do desejo, em que a experiência profunda pode (ou não) acontecer.
Mesmo lendo o livro no avião e concordando com as ideias, a chegada gerava uma certa aflição. Havia uma resistência a me deixar levar, a estar num ambiente novo, desarmado de uma narrativa prévia.
As expectativas servem para acalmar a incerteza. Só que são exatamente as coisas que acontecem por si, em seus próprios tempos, que mais encantam.
Não apenas encantam, mas chegam até o observador que se resignou no vazio da espera como algo mágico, algo que o aproxima do universo. A renúncia da vontade tem o potencial de nos aproximar de um tecido comum que nos tira de uma individualidade ensimesmada.
Chegamos até a nossa parada de ônibus. Não havia vilarejo. Era uma parada de ônibus no meio da rua/estrada que dava a volta em toda ilha. Não havia comércio por perto, apenas mato e uma placa indicando a direção do albergue.
Eram três casas, todas de madeira. Uma com os quartos e os banheiros, outra com uma sala e cozinha compartilhada e uma terceira em que ficava a recepção e a cafeteria onde eram servidos os cafés da manhã.
Mandei uma mensagem para o Elvis e ele logo me ligou. Disse que quando saísse do serviço passaria na hospedagem para nos levar num onsen. Já tínhamos ido a algumas casas de banho no Japão. Eram recintos simples e bem limpos, com áreas separadas para homens e mulheres. Esse era diferente. Banheiras naturais de pedra com águas termais. Em frente ao mar. Nada ali era construído, exceto por um estreito caminho pavimentado. Não era uma praia de areia, mas de formações rochosas que, pela proximidade ao oceano, só podiam ser frequentadas na maré baixa. Quando chegamos, Elvis olhou o posicionamento da lua e disse que em breve o mar entraria nas banheiras naturais. Ali, não havia divisão. Eram todos juntos, homens e mulheres semi-pelados, se cobrindo com uma micro toalha. Nenhum ocidental, apenas japoneses. Japoneses bem mais abertos do que aqueles que encontramos na cidade grande.
Nos secamos e, em seguida, Elvis no levou a um boteco (Izakaya) entre a sua casa e a nossa hospedagem. Era o comércio mais perto do albergue – ficava uns quinze minutos a pé – e era tocado por um homem de uns sessenta anos e duas mulheres talvez um pouco mais velhas do que ele. Os três bebiam durante o serviço e discretamente papeavam com os clientes sentados no balcão – que pareciam ser os habitués do local. Nos sentamos numa das três meses no tatame. Eu, Gabi, Elvis, sua filha e uma moça que ele apresentou como “amiga”, mas que logo percebemos que era sua namorada.
A certa altura, notei que havia um equipamento de Karaokê. Bastou em mencionar a palavra, que o Elvis já disse algo em japonês para um dos donos. Em poucos segundos, dois microfones e um tablet antigo estavam na nossa frente. Eu obviamente não havia expressado uma vontade de cantar em público, ainda mais enquanto todos ali comiam e bebiam em silêncio. Fiz um gesto negativo com a mão enquanto o dono apontava para o microfone e balançava a cabeça afirmativamente. Acabamos escolhendo uma música.
Enquanto cantávamos em pé, todos continuavam sentados e em silêncio. Já não comiam mais, apenas assistiam aquela cena curiosa. Os únicos que se mexiam eram as duas senhoras que continuavam servindo bebida e o senhor que nos trouxe o microfone. Ele dançava atrás do balcão ao som terrivelmente desafinado que emulava uma música do U2.
Voltamos a pé para a hospedaria na estrada iluminada por uma lua quase cheia. No dia seguinte, enrolamos um pouco pela manhã e depois saímos para fazer uma caminhada que eu havia achado num aplicativo de trilhas pelo mundo. Não tínhamos carro e o ônibus ainda demoraria algumas horas. Acabamos pegando umas bicicletas velhas. Uma sem freio e a outra com a correia presa na marcha mais pesada. Deu uma hora até o local onde seria o início da trilha. Ficava numa espécie de micro praça. Um encontro entre um café, uma casa de banho e um templo. A trilha começava nuns degraus discretos ao lado da pequena entrada para o templo.
O percurso se iniciava bem demarcado e aos poucos ia se misturando com o entorno. Dava para saber o caminho pelas fitas vermelhas presas em algumas árvores. Uma mata densa, com diversas tonalidades de verde, repleta de musgo - não apenas no chão, mas até a meia altura dos troncos – e sempre acompanhada pelo barulha de água corrente, que ora atravessava a trilha em pequenos córregos, ora se mantinha paralela a nós. Algo ali se assemelhava a uma fantasia sobre o mundo dos duendes, como se atrás de cada cedro se escondesse um pequeno ser de chapéu pontudo.
O final da trilha – o ponto a partir do qual teríamos que voltar – não estava tão claro. O mapa do aplicativo que funcionava por satélite começou a falhar e as marcações nos troncos foram ficando mais espaçadas. Ouvíamos um forte barulho de água correndo, mas poderia muito bem ser das corredeiras que acompanhavam o percurso. Decidimos seguir um pouco mais entre pedras altas e uma mata já mais fechada. Após alguns minutos, subimos uma rocha, desviamos do último galho e demos de cara com uma clareira. Era de lá que vinha o barulho. Uma enorme cachoeira correndo por um paredão rochoso e caindo numa piscina natural. Tudo isso circundado por pedras e sem ninguém por perto.
Um filme bem tosco do Leonardo DiCaprio chamado “A Praia” havia me marcado quando eu era adolescente. O personagem principal tinha recebido um mapa feito à mão por um sujeito que alegava conhecer um paraíso intocado, próximo àquela cidade do sudeste asiático. DiCaprio e um casal de amigos decidiram ir atrás desse lugar secreto e, após um trajeto de barco e muita caminhada pela mata, chegaram a uma cachoeira cinematográfica.
Foi assim que eu me senti ali, como se aquele lugar fosse a nossa descoberta, uma revelação do mundo só para nós.
A ausência de informação, de fotos, de comentários na internet e de qualquer elemento que pudesse criar uma expectativa deu não apenas uma tonalidade diferente, como se a luz ganhasse mais brilho naquela fenda, mas trouxe algo de lúdico ao momento.
Subi na pedra e mergulhei, prendendo a respiração para descer até o fundo. Lá embaixo, em meio àquelas rochas verdes pelo excesso de limo, iluminadas pelos raios de sol que atravessavam a superfície, clareando alguns pontos mais do que outros, esvaziei os pulmões para conseguir ficar parado no fundo por alguns segundos. Em seguida, abri os olhos tentando registrar ao máximo àquela sensação. Fiquei sem fôlego, subi e repeti o mergulho.
Quando estava subindo pela segunda vez, ainda de olhos aberto, vi a Gabi mergulhando. Entraram as suas mãos sobrepostas, seus braços tatuados, a cabeça, seguidos do resto do corpo que trazia consigo uma corrente de bolhas de ar. Poder ver essa cena ainda submerso - ela se misturando com a água das montanhas, se jogando de cima da pedra naquela piscina translúcida – parecia um sonho.
Ao final do livro, Chul-Han cita um poema de Holderlin:
Todo meu ser se silencia e escuta
quando as ondas tenras do ar se
jogam em meu peito. Perdido no
imenso azul, levanto os olhos fre-
quentemente para o éter e os inclino
para o mar sagrado [...]. Ser um com
Tudo, isso é a vida da divindade, esse
é o céu do ser humano. Ser um com Tudo
que vive, regressar ao sagrado auto-
esquecimento no Todo da natureza,
esse é o ápice dos pensamentos e
alegrias, esse é o cume sagrado da
montanha, o lugar do repouso eterno.”
Holderlin chama a união com a natureza de “ser”. Em contraposição, a ação vê “em todo o universo apenas o humano como centro de todas as relação, como condição de todo ser e causa de todo vir-a-ser”.
Não era somente o fato de estarmos naquele lugar. Era sobre como estávamos lá. Desprovidos de expectativa – não por renúncia, mas por ausência de escolha. Sem intenções que invadissem a experiência, contaminando-a, impedindo com que ela se revelasse em sua potência.
Estávamos lá como crianças, esvaziados de expectativas e de vontades. Acima de tudo, esvaziados de si e abertos ao momento.
Em “A Ideia de Tempo”, Bergson sugere que é a capacidade da criança de estar presente que preenche sua vida de pulsação, dando mais peso a cada instante. No adulto, as experiências são registradas em cores opacas. Seu contato com o momento perde potência, se torna mais protegido. É por isso que ao adulto, um ano passa rápido demais, dando a sensação que mal começou e já está no fim. Pouca coisa marca. Ele pode até fazer muita atividade, mas faz com pouca presença e elas acabam deixando rastros discretos.
É estranho pensar que passamos a mesma quantidade de dias na ilha do que passamos em Kyoto. Por mais charmosa que seja a antiga capital, ela já está toda atravessada por um modo de se visitar. Um modo que abre pouco espaço à autorrevelação das coisas.
A abertura, a lida desobstruída de intenções, não traz apenas mais brilho e até um componente mágico, mas traz também uma textura diferente ao instante. Ele se revela mais granular. Fino e pontilhista, a ponto de escapar entre os dedos.
Ali, no fundo da cachoeira, de olhos abertos na tentativa de absorver todo o entorno, senti que o momento estava perto de se cristalizar. Como se a experiência fosse forte o suficiente para congelar o instante. Só que, paradoxalmente, quanto mais intenso, mais escorregadio ele se tornava. A abertura revela o tecido subjacente de toda a experiência – o tempo. Como o final do arco-íris, o instante escapa quando chegamos muito perto.
No entanto, é essa proximidade que nos marca, que preenche o instante de vida.
No dia seguinte, choveu. Sem parar. Ficamos na sala compartilhada do albergue. Lendo, escrevendo e, em boa parte do tempo, não fazendo nada.