Quando vier a primavera, se eu já estiver morto,
as flores florirão da mesma maneira
e as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Alberto Caeiro
O prédio era enorme. Todo de alvenaria, sem ornamentos e num bege claro que parecia ter recebido um ademão instantes antes da nossa chegada. Um letreiro escrito “TeamLab” em cores variadas e uma fila com o anúncio do horário de ingresso davam um tom estranho àquele “museu”. Sabia que tinha algo de tecnológico, mas esse minimalismo funcionalista – carente de qualquer pretensão decorativa – me levou a achar que aquilo seria um programa para “gamers”.
Como de costume, eu não disse onde iríamos. Queria fazer uma surpresa, mas logo que dei de cara com aquela entrada decepcionante, tentei diminuir as expectativas da Gabi.
A fila já estava grande.
Eram vários turnos de ingresso e, com muita antecedência, eu havia conseguido reservar o primeiro. Queria chegar meia hora antes da abertura para sermos os primeiros a entrar. Para, por alguns segundos, termos aquele espaço só para nós.
Errei grosseiramente no planejamento. Como tudo em Tóquio, aquele “museu” era bem longe. Quando acordamos no apartamento minúsculo perto de Shibuya e eu coloquei o percurso no mapa do celular, dava mais de uma hora de metrô. Não daria tempo. Abri o aplicativo do Uber e o valor estimado me desanimou. Falei que não valeria a pena e ela logo argumentou em favor da ida. Eu contra-argumentei dizendo que o fato de já termos comprado o ingresso não deveria influenciar na escolha (uma discussão que frequentemente temos quando a preguiça me contamina). Acabamos pedindo um carro.
Entramos na fila atrás de muitas pessoas. Todos turistas, daqueles que viajam como hoje se viaja, com tudo planejado, se esforçando para encaixar muitos programas num tempo reduzido. Daqueles que estão sempre de passagem, impedindo que algo se sedimente e que, à noite, quando se deitam exaustos na cama do hotel, comentam sobre a produtividade do dia. Sobre como estão conhecendo o Japão e mergulhando na cultura local. Comecei a ficar um pouco mal-humorado.
A fila andou rápido – o que já me levou à certeza de que eles entulhavam o máximo de pessoas naquele recinto carente de personalidade para ganhar mais dinheiro. Eram todos turistas mesmo. Não precisavam fidelizar cliente.
Deixamos nossos sapatos num armário e entramos como um rebanho pelo corredor.
Passamos por uma sala com um piso de textura estranha, outra com uma fina camada de água quente no solo e por um corredor escuro. Foi somente nesse corredor, que me dei conta que estávamos apenas atravessando aqueles lugares, seguindo as pessoas à nossa frente. Achei curioso - como é fácil seguir um ritmo que se instaura sem muita reflexão. O movimento alheio exerce uma força gravitacional e você acaba fazendo como se faz. Fazendo exatamente o que eu estava criticando antes de entrar no museu.
Ficamos colados numa parede enquanto as pessoas seguiam o curso. Era escuro, exceto por umas luzes vermelhas no chão. Passados uns minutos, aquele corredor que parecia um cenário do Kubric – numa mistura do suspense do “Iluminado” com a sensualidade de “De Olhos Bem Fechados” – ficou finalmente vazio. Parados contra a parede, aproveitando a ausência de movimentos, foi possível deixar para trás aquela entrada estranha e abrir espaço para a proposta da exibição.
Continuamos o caminho e logo chegamos à sala que eu havia visto pela internet quando comprei os ingressos. No início, era um percurso estreito entre muitos fios de iluminação a led pendurados de um teto espelhado. O chão e as paredes também eram espelhados, fazendo com que os diferentes padrões emitidos pelos milhares pontos de iluminação preenchessem a sala. Realmente preenchessem a sala.
Não chegava a tornar o ambiente claro, pois a luz continuava puntiforme - se assemelhando a milhares de fracções causados por minúsculos prismas. Brilhava sem agredir. Muito pelo contrário, atraía como se a sala fosse toda coberta por pequenos diamantes.
Replicava em larga escala o encantamento de um simples aperto das pálpebras diante de um dia ensolarado, aquele quase-fechamento que de algum modo cria pequenos fractais nos nosso olhos.
Após caminharmos um pouco mais, um espaço se abriu, intensificando o efeito das luzes. Os inúmeros pontos coloridos, refletidos nos quatro cantos, pareciam suspender a intermediação entre o mundo e os nosso sentidos. Como se ali estivéssemos vendo de olhos fechados e ouvindo de tímpanos tapados.
Pensei nos relatos quase-morte que havia lido tempos atrás. Os ressuscitados contavam sobre uma expansão sensorial, numa espécie de onipresença estática. Como se a morte erguesse um véu, nos libertando de um abafamento da percepção.
A sala seguinte, também espelhada, estava cheia de bolas que mudavam de cor por toque. Era curioso ver a reação das pessoas, se divertindo com as transições das luzes provocadas por cada encostada que elas davam naquelas esferas.
Elas entravam na sala e, em poucos segundos, abriam um sorriso de criança arrebata pelo que vê. Faziam algumas brincadeiras que não fariam em outros ambientes – caretas e poses engraçadas -, tiravam algumas selfies e continuavam o percurso.
Ao invés de julgar aquele comportamento como inquieto e incapaz de absorver a experiência – como faria em outra circunstância -, eu me sentia próximo a eles. Mesmo que eles parecessem priorizar o ato de tirar uma fotografia que provavelmente cairia num esquecimento digital, perdida entre outros resíduos de vivências que quase foram aprofundadas. Me sentia realmente próximos a eles, entendendo que entre a minha postura – de ficar mais de meia hora observando e refletindo sobre a vida – e a deles, não havia real diferença. Estávamos aproveitando o ambiente como sabíamos.
Havia algo naquele ato de entrar, se encantar e seguir, que parecia muito verdadeiro, parecia traduzir a camada mais crua da vida. O fato de ser uma passagem.
Uma passagem que pode ser intrigante quando suspendemos o olhar quer domesticar o entorno, quando suspendemos a pretensão de conhecer a realidade.
“A imobilidade das coisas que nos cercam talvez lhes seja imposta por nossa certeza de que essas coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento perante elas.” (Proust. Em Busca do Tempo Perdido)
Tanto para mim, quanto para elas, tudo ali parecia muito vivo.
Eu e a Gabi, que ainda não havíamos conversado desde o início, trocamos um olhar. Ambos de olhos marejados e fungando.
- Fica tão evidente aqui.
- Fica mesmo.
- Mas o que exatamente você está dizendo? – vai que ela estava vendo aquilo de outra maneira.
- Ahhh tudo. Fica evidente que é passageiro.
- “Sentir como quem olha, pensar como quem anda” - um trecho (também de Alberto Caeiro) que vivemos repetindo.