Havia acabado de descer para a chácara da minha mãe. Era um domingo, perto da hora do almoço e desde o dia anterior eu estava numa casa próxima. Próxima o suficiente para fazer o trajeto a pé.
Como de costume, cheguei na expectativa de aproveitar uma refeição caseira e evitar ter que preparar algo sozinho – que certamente não seria ser chamada de comida caseira, apesar do preparo in loco.
Para a minha surpresa, havia visita. Ela estava na varanda conversando com duas pessoas. Mesmo que abafadas, dava para discernir algumas palavras que me alcançavam. Saíam dos seus interlocutores numa entonação ainda carente de intimidade. As frases tinham intervalos bem demarcados e nunca se sobrepunham. Vinham dela e de um casal.
Eles ainda não haviam me visto e esse limiar entre o anonimato e ingresso no ambiente, me fez titubear por alguns segundos. Me anunciava ou voltava à casa para fazer um ovo mexido? Nem omelete. Só ovo mexido, mesmo. Era a única coisa que havia na geladeira. Além de uma garrafa de vinho pela metade e um pote de geleia do ano anterior e outro com azeitonas pretas. Ovos mexidos com azeitona ou conversa com desconhecidos?
Pensei no arroz e feijão temperado com coentro e dobrei a quina que me protegia.
Curiosamente, eles eram jovens. Bom, não tão jovens. Tinham a minha idade.
“O ermitão chegou!” – assim que ela gosta de me apresentar aos amigos.
Dei um meio sorriso.
“A Camila trabalha com design e moda.” – Nos cumprimentamos. Ela tinha um jeito firme de quem parecia se bastar em si.
“O Bruno é pintor. Daquele quadro que ficou em casa durante um tempo. Sabe?”
Fiz uma cara de dúvida.
“Todo em ferro, com uma paisagem.”
Acabei lembrando. Cru e, ao mesmo tempo, potente. Eu tinha gostado, mas parecia escuro demais para a minha mãe.
Diferente dela, ele tinha algo que se espalhava pelo ambiente. Pensei que, como casal, deviam se equilibrar.
Em seguida, me perguntei que tipo de conversa teria levado àquele encontro no interior de São Paulo. Minha mãe deve ter achado suas obras pela internet, trocaram mensagens no instagram, ela perguntou se poderia “testar” um dos quadros, ele deve ter ido até seu apartamento para entregá-lo e um convite acabou sendo jogado. Daqueles convite que as pessoas fazem de modo casual e descompromissado.
Toparam dirigir até o interior já sabendo que não almoçariam logo que chegassem, ou seja, que haveria pelo menos duas horas de recepção. Se sentariam na mesa por mais uma hora e teriam que aguardar um pouco antes de partir para não parecerem mal-educados.
Concordaram em passar cinco horas com uma quase-estranha. Somando as três horas de trajeto para ir e voltar, seria um domingo inteiro gasto naquele convite despretensioso.
E o risco de a conversa ser entediante ou de cair num silêncio desconfortável?
Ousado.
Mas por mais ousados e interessantes que eles pudessem ser, eu estava com preguiça. Tinha passado a manhã inteira sem ver ninguém. Entrar numa conversa com desconhecidos me pareceu excessivo.
Disse que iria dar uma volta pelo terreno.
“Você parece um amigo nosso. Tem esse jeito bem zen.” – ele comentou quando eu já estava de costas.
Talvez “zen” paciência.
Me virei rindo e disse que era só impressão.
Voltei após meia hora e eles já estavam sentados na mesa. Peguei o único lugar disponível e me servi de arroz, feijão e verduras – já satisfeito com a escolha de ter ficado.
Minha mãe e a Camila estavam entretidas numa conversa sobre hortas e orgânicos. Enquanto Bruno ouvia atento, eu terminava meu primeiro prato, já pensando no segundo - que seria acompanhado de ovo frito e banana.
Num certo momento, ele se virou em minha direção.
- Sua mãe comentou que você escreve.
- Tipo isso. Escrevi e tento escrever. Por enquanto, só um livro.
- Que legal! Sobre o quê?
- Relações em família. Sobre a dificuldade em aceitar os outros como eles são.... ao invés de ficar tentando mudá-los.
- Difícil mesmo.
- Muito.
- Continua escrevendo?
- Tento, mas vira e mexe acho que está uma merda.
- Escreva por escrever. Vai ficar se podando a troco de nada?
Achei direto. Ao mesmo tempo, não era da boca para fora. Ele falava mais envolvido com o conteúdo do que com a aparência.
Eu ri.
- Você tem razão.
Ficamos alguns segundos em silêncio, mas eu quis continuar a conversa.
- Processo criativo é tão complexo. Tento me aproximar da atividade, afastar os ruídos, sabe? Não pensar em mim, não pensar nas consequências.
- Quando eu comecei a pintar, li tudo que pude sobre arte e aí me esforçava para copiar um estilo, buscando um traçado que fosse característico de uma determinada escola. Saía uma bosta. Não era verdadeiro.
- E como você fez?
- Comecei a só pintar. Do meu jeito. Pode ser ruim, pode ser bom, mas é o meu jeito. Não fico com a mão frouxa, duvidando do que eu vou fazer. Antes, até a minha postura era estranha. A Camila me filmou uma vez. Todo curvado, meio troncho. Parecia o lango-lango.
Eu ri novamente.
- Lango-lango entrega a idade. Vou fingir que não peguei a referência. Mas sim.... tudo isso só atrapalha. Quando eu quero escrever bonito ou profundo, acabo não escrevendo. Queria só escrever.
- Tem que ter potência, ser verdadeiro. Acho isso mais importante do que a “beleza” da obra.
- Parece que a gente está soterrado por intermediação. Sabe? Entre nós e as coisas. Entre nós e as atividades. Raramente, eu sinto que consigo ter um acesso direto. E você sente quando isso rola, quando você acessa a essência de algo. Vai no cerne. Mas é tão raro.
- Academicismo faz isso. Uma bosta.
- Muito. Não precisa nem ser acadêmico para matar a atividade.
- Sim. Todo mundo agora é comentarista, mas ninguém se coloca para jogo.
- Eu mesmo... Acho que na maioria, não me arrisco.
- Sim. Eu também não.
Mas ele estava ali, naquela mesa, numa casa no interior, de uma pessoa que ele mal conhecia.
Três meses após esse almoço, subo num trem em direção a Fukushima. Também é um domingo, só que cedo. A viagem demoraria três horas e eu havia dito ao Kouta que estaria lá por volta das onze. Logo que me sentei no lugar marcado, mandei mensagem avisando o horário exato em que chegaria.
Desci na estação que ele havia indicado. Como fui o único a sair naquela parada e não havia mais ninguém na plataforma, o trem não demorou a partir, permitindo com que eu visualizasse o outro lado do trilho e o telhado daquela pequena estação. Um casal se apoiava na mureta. Assim que me viu, ele ergueu a mão e eu retribuí o gesto.
“Tem como você trazer um caderno de desenhos para mim? É de um artista incrível. Meio bicho do mato, um cara bem peculiar que passa os dias fazendo retratos.” – dizia a mensagem do Bruno quando ele soube que eu iria para Tóquio.
“Claro. Mas posso visitá-lo?”
Ele nos colocou em contato.
Assim que cruzei a passarela sobre os trilhos e atravessei a catraca, ficamos frente a frente. Ele e Hana se curvaram. Eu repeti o gesto e me aproximei para um abraço. Daqueles gentis, mas com a distância de um cumprimento. Ele pareceu pego de surpresa, mas logo correspondeu como quem se vê sem opção. Correspondeu, mas não exatamente a um abraço-cumprimento. Enlaçou as minhas costas e colocou o cabeça em meu ombro.
Nos afastamos e me senti compelido a abraçá-la, já prevendo a mesma confusão de gestos. Seria ainda mais estranho explicar os diferentes tipos de abraço, então fiquei quieto e fui me aproximando. Ela abriu os braços e também apoiou a cabeça em mim.
Já quase íntimos, caminhamos em direção ao carro. Ele abriu a porta de correr e eu me sentei no banco de trás.
“Antes que eu me esqueça” – disse tirando uma caixa de chocolates que eu havia comprado em Tóquio.
Hana se virou para trás, segurou o presente com as duas mãos, e abaixou a cabeça três vezes, dizendo “obrigado”.
Após quinze minutos, chegamos ao seu estúdio – uma edícula próxima à casa da avó de Hana, onde todos moravam. O terreno não era demarcado por muro. Havia apenas uma cerca baixa na parte de trás, possivelmente protegendo a horta de animais.
Não se via outra construção nos arredores, apenas verde, alguns mais rasteiros e outros mais altos formando um paredão de mato.
Tiramos nossos sapatos e subimos as escadas.
Apesar das janelas abertas, havia uma penumbra interna, como se estivessem constantemente num crepúsculo, esperando a escuridão se impor para que acendessem as luzes. Quase não se via a cor clara das tábuas de madeira que formavam as paredes. Estavam todas preenchidas por Koutas e Hanas que vigiavam aquele ambiente. Alguns mais realistas, emulando uma fotografia, outros quase surreais com traços que guardavam pouca relação com as dimensões humanas. Ainda assim, todos os retratos traziam algo visceral, como se os personagens tivessem posado em seus momentos mais intensos.
No alto, à esquerda, havia uma paisagem. Apontei, perguntando onde era. Ele fez um gesto para que eu me aproximasse dele e quando estávamos quase colados, ele se virou para a janela oposta, que dava de frente para a casa em que moravam, e se curvou para que a visão pegasse o telhado. Exatamente como estava retratado no quadro. Pelo visto, ele quase não saía do estúdio.
Passamos ao outro cômodo, com mais quadros pendurados e um ainda inacabado, suspenso por um cavalete e rodeado por pincéis e tintas.
- Por que auto-retratos?
Ele riu.
Apesar da força das expressões nos quadros, Kouta era discreto e delicado. Baixo, magro e até um pouco curvado. Tinha cabelo meio comprido atrás e estilo tigela na frente – que provavelmente era cortado por ele mesmo ou pela Hana. Usava uma malha verde com as mangas cobrindo as mãos, como faziam os adolescente mais introvertidos.
Ainda rindo.
- Eu não sei. Eu só pinto.
- E como é o processo de pintar auto-retrato?
- Um diálogo. Não um monólogo, mas um diálogo.
- De você com quem?
- Também não sei. Só sei que eu sempre perco.
Fiquei em silêncio e ele continuou.
- Acho que as pessoas se esquecem da importância da derrota. Ela mostra que tem algo que não foi alcançado. Traz humildade.
- É isso que faz com que você continue pintando?
- Sim. O fato de eu saber que há algo para além..... que não consegui captar dessa vez.
- E por ter a sensação de que você vai chegar mais próximo à verdade no próximo quadro?
- Isso. E eu acho que eu chego perto, não exatamente no quadro finalizado, mas no processo de pintar. No diálogo.
Ficamos quietos, olhando para o retrato inacabado.
Voltamos à outra sala para tomar um café que Hana havia preparado. Entre goles e pedaços de chocolate, ela foi me contando um pouco da sua trajetória, enquanto Kouta ouvia atentamente e às vezes concordava com a cabeça ou a auxiliava com termos que se perdiam na tradução.
Havia começado a chover. Não a ponto de levá-los a ter que fechar as janelas, que continuaram abertas para as plantações de arroz e para o morro coberto de árvores. Era só uma garoa que tornava aquele visual um pouco mais opaco, como uma foto envelhecida.
Num vilarejo no interior do Japão, dentro do estúdio de um artista com quem eu havia apenas trocado algumas mensagens por instagram.