A sacola plástica da loja de lustres já estava suja e empoeirada, transicionando do branco ao bege enquanto permanecia esquecida no canto da dispensa.
Continha lâmpadas de filamento compradas no início do ano. Eu pretendia substituir a luz branca e fria da casa do sítio. Tão branca e fria que sugava alma daquela sala. Bastava ligar o interruptor que o espaço se tornava claro e impessoal, revelando cada detalhe e suprimindo o charme dos móveis antigos.
Passados quase doze meses, abri a sacola. Afinal, eu receberia convidados no dia seguinte. Após alguns minutos me equilibrando na ponta da escada, percebi que que metade da sala continuaria tão asséptica quanto a área de espera de um consultório de dentista. Cinco bulbos cobririam apenas parte do ambiente.
Já no anoitecer do dia 31, antes de começarmos as movimentações do jantar de virada, nos reunimos nos dois sofás da sala que estavam diretamente sob as poucas lâmpadas que eu havia comprado. Fomos nos juntando conforme cada um saía dos quartos e caminhava em direção ao murmúrio da conversa. Apaguei as outras luzes, deixando apenas a iluminação quente e liguei um abajur antigo na tomada. Com a base de ferro oxidada e a cúpula um pouco amassada, ele ficava esquecido no canto, como se a sala fosse um depósito de itens que já não cabiam nos apartamentos dos familiares que moravam em São Paulo. Sem interruptor, clareou quando encaixei o plug na tomada. Os amassados na lateral da cúpula se transformaram em riscos escurecidos, dando um tom ainda mais antigo ao abajur.
Os sofás com os panos indianos que eu havia comprado na adolescência, o piso desgastado de lajota de barro, a mesa de madeira e os castiçais com velas pela metade estavam menos deslocados. Continuavam um pouco brega, mas brega com personalidade, com o mistério daquilo que não se revela por completo, que parece guardar alguma narrativa sobre outros tempos.
Pela primeira vez naquele dia, estávamos os nove reunidos no mesmo lugar, contrariando a dinâmica que costuma se instaurar em viagens em grupo, onde o coletivo vai se dispersando em formações menores.
Como um arquipélago sob constante movimento tectônico, estávamos sempre próximos, entrando e saindo de diferentes agrupamentos, mas nunca juntos no mesmo corpo. Exceto por aquele momento em que nos apinhávamos nos sofás sob uma luz aconchegante.
Não era apenas a proximidade, mas a ausência de conversas paralelas e a concentração dos focos num único ponto. A quietude que acompanhava cada fala adensava a atmosfera, convidando (ou, ao menos, permitindo) assuntos mais profundos.
Tentando não fazer daquilo um encerramento de ciclo forçado, mas ao mesmo tempo curioso para saber qual era a leitura de cada um, perguntei, num tom despretensioso, como havia sido o ano da pessoa que estava na minha frente.
Ouvimos o relato e passamos para o próximo como se já soubéssemos que aquele seria o curso natural da conversa.
Os relatos começaram a se revelar parecidos, apontando para um mesmo desafio que se anunciava por trás das diferentes narrativas, dando a entender que tínhamos todos experienciados esse período na mesma tonalidade.
Na tonalidade da desilusão - só que em seu significado original, de perda de ilusão. Um ano que pedia renúncia às idealizações e nos aproximava de possibilidades reais. Possibilidades que surgiam de cada situação e guardavam pouca relação com a história que queríamos contar sobre nós mesmos, que nos afastavam de narrativas identitárias, nos aproximando da vida como ela é.
Um ano que, apesar do duro convite à aceitação estoica, se iniciou com um presente do diretor Wim Wenders. Com uma obra-antídoto que convida o espectador a desinflar o olhar, reconduzindo-o à riqueza do cotidiano, ao encanto dos detalhes.
Dias Perfeitos nos lembra que a vida é situacional, condicionada pelos contornos de cada instante. Que as possibilidades são antes da vida e depois nossas. Que o livre-arbítrio é secundário à abertura de mundo.
O discurso performático distorce essa lógica, invertendo a relação. A narrativa sobre si ganha holofotes, ofuscando os chamamentos de cada situação, nos alienando da tarefa de ser autenticamente a cada instante. Nesse auto-envolvimento, abandonamos o momento presente, nos refugiando em expectativas descoladas que, quando satisfeitas, são logo substituídas por novas expectativas que acobertam o tédio.
Como as situações não se dobram às vontades, a rigidez vira surdez existencial, tapando os nossos ouvidos e nos afastando das convocações do cotidiano. Nessa obstinação infantil, nos aborrecemos com as situações que se distanciam dos planos.
Wim Wenders resgatou um antídoto para tempos estranhos – a existência é lida cotidiana que se embrenha nos detalhes.
À sua maneira, cada um parecia ter sustentado essa renúncia e se aproximado da vida como ela é. Às vezes, excitante a ponto de não se conter no instante, por outras, tão sofrida quanto uma ressaca numa segunda-feira grudenta e abafada. Ou seja, imperfeita.
Tão imperfeita quanto aquela sala, que, apesar da iluminação indecisa entre o aconchego e a assepsia, estava mais agradável do que antes. Com os ajustes que a situação permitia, transformamos um ambiente frio num canto acolhedor, apesar de brega. E um pouco de breguice cai bem, afasta a impessoalidade das referências batidas que preenchem os cômodos planejados. Fica mais real.