Pedro Cirri
psicoterapia
 
 
A Falsa Intimidade e a Perda dos Rituais 
Newsletter #48 - 21.03.2025
 
Saímos do café, andamos algumas quadras e entramos numa livraria de bairro. 
 
- Já veio aqui?
- Nem sabia que existia.
- Pois é. Tem vida para além do centro. 
- Tem, sim. Essa coisa pasteurizada de paulistaninho metido a barista e sommelier de vinho natural – com o seu sotaque indeciso que vagueia pelo Sudeste.    
 
Enquanto ela alcançava um livro da prateleira próxima à entrada, eu me aproximei de um cachorro numa coleira tensamente segurada pela dona. Dobrei os joelhos para chegar mais perto, ele abanou o rabo e apoiou as patas em mim. Fiz carinho, recebi uma lambida e logo voltei a me esticar. A senhora me olhava sorrindo.
 
- ele é tão dado.
- que coisa. Ela também é. – apontando para a minha amiga.
- sou mesmo. – com uma das sobrancelhas erguida, enquanto media a reação da nossa interlocutora.   
 
O sorriso persistiu sem o acompanhamento das outras expressões faciais. Persistiu forçado na tentativa de manter um ambiente agradável. Os olhos já mais murchos entregavam um constrangimento de quem se vê fora do script da troca entre vizinhos. Entre vizinhos que frequentavam a mesma livraria e que (em sua imaginação) compravam produtos orgânicos na mesma venda (ou coletivo de agricultores). Por dois ou três segundos, ela nos olhou em silêncio, para então focar no cachorro e perguntar se ele queria ir para casa. Sorriu mais uma vez e puxou a coleira, se encaminhando para a porta. 
 
Andei até a seção dos fundo, passando os olhos pelos clássicos e me aproximando de uma roda de conversa. Três mulheres entre trinta e quarenta anos. Enquanto me enganava, tentando me convencer de que naquele semestre eu mergulharia em Flaubert, captei alguns fragmentos da conversa. Puxei um exemplar de Madame Bovary, fingi ler a contracapa e dei dois passos em direção à mesa onde elas se sentavam com xícaras já esvaziadas. 
 
- Se o papo não for profundo, já não me interesso. Não dá, não.
- Nem me fale. Está tão difícil.
- Não dá mais para ficar nessas trocas superficiais. Quero saber o que o cara sente, o que é importante para ele. Sabe? Saber se ele é terapeutizado.
- Isso. Como ele lida com vulnerabilidade, né? Coisas reais. 
- Estou cansada de papo raso. Não tenho tempo para isso. 
 
Lembrei de alguns encontros com pessoas que eu havia conhecido através de aplicativos, essas pessoas com quem você se senta para conversar sem ter um contexto compartilhado, em que a apresentação de si soa como uma versão alongada da introdução nos alcoólicos anônimos. 
 
Toda a situação parecia pedir um aprofundamento, como se houvesse uma urgência em conhecer o outro. Em realmente conhecer o outro, escapando das trocas superficiais que contaminam as relações e, finalmente, se enganchando em algo mais sólido.  
 
Só que a repetição dessas conversas escancarava o descompasso entre conteúdo e atmosfera. Eram falas íntimas ditas sem intimidade. Falas de quem se antecipava sem escutar o contexto, de quem impunha temas profundos em relações ainda rasas. A repetição não deixava dúvidas – a densidade das palavras não vem do conteúdo, mas da capacidade de traduzir o real. 
 
Ainda não nos conhecíamos e já estávamos falando sobre dificuldades, traumas e sonhos. Era oco e descolado. Ao invés de grudarem no corpo, as palavras se misturavam ao ruído dos bares.  
 
Apesar do olhar atravessado que se dividia entre o livro em minhas mãos e o os títulos da estante, identifiquei Satatangó. 
 
- Já leu?
- Nunca. Devo?
- Muito. Desce quadrado, chegando a ser indigesto. Só que marca.
Nos encaminhamos ao caixa.
- Já leu essa entrevista da Sontag para a Rolling Stone? – apontando para um livro na bancada do caixa.
- Não. Gostou?
- Muito. Só que o entrevistador exagera um pouco. Em alguns momentos, quer aparecer mais do que ela.
- Li a biografia.
- Boa?
- Super. Ela é um espetáculo.
- É mesmo.
- Ela é tudo. Só que biógrafo é bem machista. – entrando na conversa, enquanto pegava Satantangó das mãos da minha amiga para escanear o código de barras.
- Jura? Justo o biógrafo dela? – curioso sobre a opinião daquele moço atrás do caixa.
- O patriarcado está por todos os cantos, até na biografia dessa musa.
- Pois é.
Ela aproximou o celular da máquina, pegou a sacola e nos encaminhamos para a porta.
- Dá vontade de fazer uma cartela de bingo antes e passear por pinheiros. Patriarcado, machismo, sustentabilidade, orgânico, mindfullness, yoga – falando mais baixo para que ele não me ouvisse. 
- Carla Madeira, Bell Hooks, colonialismo, vegano... 
- Seria demais gritar “linha” ou “bingo” no meio de uma cena dessas. Aliás, estava ouvindo o papo das mulheres que estavam na mesa no fundo da livraria.
- E?
- Esse lance sobre ser aberto, de se mostrar vulnerável com os outros. Pelo visto, já esperando isso logo de cara. 
- Regurgitou um pouquinho? Se eu ouvir a palavra “vulnerável” mais uma vez, vou vulnerabilizar a pessoa.
- Vai lá e rosna pra elas. “Vulnerável” entra na cartela do bingo, mas, falando sério... óbvio que eu concordo com aquelas mulheres, mas tem uma urgência estranha.
- Está todo mundo desesperado – balançando a cabeça de um lado para o outro com o seu desdém natural. 
- Você não?
- Claro. Apesar de ser gênia, ainda me inclui no “todo mundo”.
Enquanto eu ria, ela continuou.
- Você, vire e mexe, dá umas escorregadas. ‘Como você está se sentindo?’.
- Vai se ferrar.
- Aí, sim.  
 
Mesmo sendo muito amigos, nunca introduzimos os temas como pautas de reunião. Na verdade, exatamente por sermos muito amigos, as conversas não são impostas, mas surgem em seu próprio tempo, atendendo às mudanças atmosféricas. Quanto mais delicado, mais piadas fazemos, nos aproximando do assunto pelo deboche. Até estarmos perto o suficiente a ponto de a fala refletir uma realidade, ganhando peso ao invés de escapar como fumaça. 
 
Às vezes, eu erro a mão, claro. Introduzo uma questão sem solo firme e ela logo me repreende. Com razão. 
 
Ansiamos pelo genuíno, atropelando o tempo oportuno, o tempo que vem das coisas e não da nossa vontade. Afinal, perdemos as referências externas. Perdemos os rituais e protocolos que, hoje, consideramos vazios, falsos e démodés. Esquecemos que o corpo influencia o espírito e não o oposto. É de fora para dentro. Rituais norteiam os nossos estados internos. 
 
Norteavam. Hoje, vivemos à deriva, desesperados para nos apegar a alguma referência. Com a destruição da formalidade e da simbologia social, ficamos a sós e ensimesmados. Ironicamente, cada vez mais incerto de nós. Excesso de psicologização não traz clareza. Pelo contrário, giramos em falso a partir de um eixo narcísico que não se coloca em jogo.  
 
No romance Old Man’s Love, escrito por Anthony Trollope e publicado em 1884, a protagonista – uma jovem órfã que foi acolhida por um senhor que nunca havia se casado – se debruça sobre a possibilidade de ser sua mulher, apesar da discrepância de idade. Ela acertadamente imagina que ele fará um pedido e avalia a situação de uma maneira que, para nós, soa estranhamente racional. Elenca suas qualidades e defeitos - não para investigar seus sentimentos, mas para descobrir como essa união seria vista pela sociedade. A maneira com a qual ela o enxerga deriva do modo como o mundo o enxerga. Seus sentimentos são pautados por referências externas, revelando uma enorme sobreposição entre normatividade e mundo emocional. Eram os rituais e procedimentos sociais que guiavam a interioridade.
 
É esse aspecto que a socióloga Eva Illouz enfatiza em seu livro End of Love – o jogo de regras que determinava as relações sociais conferia previsibilidade aos participantes. Não apenas sobre os sentimentos e intenção dos outros, mas (curiosamente) sobre as nossas próprias emoções.
 
Estamos tão imersos na noção de interioridade e subjetividade que estranhamos a ideia de que os sentimentos eram guiados por referências externas. 
 
O processo de internalização narcísico desenvolve uma hostilidade à forma. Formas objetivas são condenadas em prol de estados subjetivos.
(...)
Rituais podem ser definidos como técnicas simbólicas de encasamento. Transformam o estar-no-mundo em um estar-em-casa. Fazem do mundo um local confiável. São no tempo o que uma habitação é no espaço.” (Byung-Chul Han, O desaparecimento dos Rituais)
 
O enaltecimento da subjetividade repele formas. Adequação se transforma em ausência de autenticidade. Nos tornamos narcisistas órfãos, envoltos no nosso próprio umbigo, medindo o mundo a partir da nossa régua. Medindo à distância, sem nunca experimentar. 
 
Se colocar em jogo se tornou arriscado demais. Afinal, interagimos num mundo carente de previsibilidade, feito de relações fluídas que já não constroem narrativas. Apenas se empilham, umas sobre as outras, leves, feitas do mesmo material, indiferenciáveis. 
 
Todos dizem buscar intimidade, poucos topam se sujar. Natural. Já não estamos num campo convidativo, numa arena de simbologia compartilhada. Somos participantes de um jogo sem regras, onde gestos se encerram em si e já não acenam para uma direção. 
 
Forçar conteúdos pessoais ainda na antessala é querer extrair material, é tentar avaliar de longe, protegido, no conforto do anonimato indiferente. 
 
A enxurrada de rótulos (que comporia a cartela do bingo) é resposta ao mundo incerto. Ao mundo ensimesmado sem comunidades que nós mesmos criamos. Nos defendemos do vácuo reforçando nossa própria identidade. Sem referências, coube a cada um encontrar a si. Ao dizer que o biógrafo é machista, o caixa se apresenta como sujeito-consciente, talvez falando mais consigo do que comigo. Estamos presos em monólogos que se camuflam de trocas.  
 
Como não poderia deixar de ser, achamos que a resposta vem a partir da investigação de si, da psicologização. 
 
Heidegger fala sobre a existência a partir da etimologia "ek-sistência" - onde "ek" significa "para fora", e "sistere", que significa "existir". Ser é ser para fora, em direção ao campo compartilhado.  
 
Já não podemos e nem queremos voltar à sociedade regulada, aos protocolos sociais, à normatividade e às repressões. Agora, temos que buscar a transcendência por conta própria. Uma atenuação egóica, uma saída de si. Saída em direção ao mundo que, apesar de mais incerto, ainda é o campo compartilhado. 
 
O desafio é estar nas situações desonerada de si, liberta do looping egóico que mede as interações a partir da influência que elas exercem em sua autoestima. Deixar cada situação se mostrar em sua verdade. Imergir é esquecer de si, podendo se reencontrar a cada vez. Soa absolutamente estranho e contraditório, eu sei. Como você pode se reencontrar ao se esquecer de si? Talvez pelo fato de que, existencialmente, estamos fora de nós. 
 
No fundo, aquela simpática senhora estava certa. Tentando restabelecer uma teatralidade entre vizinhos, reforçando a simbologia do campo compartilhado e conferindo estabilidade às situações. 
 
Teatralidade, hoje, soa como falsidade. Esquecemos que é de fora para dentro. Que é o corpo que influencia o espírito. Presos num solipsismo, achamos que é do “eu” para o exterior. Essa ilusão não resiste à experiência. O difícil é querer experimentar algo num mundo tão incerto e cheio de pessoas protegidas. 
 
 
Caso tenha alguma dúvida e/ou queira discutir a assunto, fale comigo.
 
 
Pc.
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