52 #quinquagésimo
segundo gole
 
Oi queridos, 
como vocês estão? 
 
Dois meses atrás um novo cliente me contratou pra produzir um tipo de vídeo que eu jamais tinha feito. Eu estava insegura, mas a pauta era sobre arquitetura  -  uma área que eu gosto muito -  então acabei indo pra gravação cheia de dúvidas mas achando que conseguiria desenrolar bem. 
Na gravação, me dediquei ao máximo mas o resultado ficou bem médio. Médio porque me faltava experiência em um formato que, até então, era novidade pra mim. Assim sendo, quando fui editar o material fiquei mega insatisfeita e, quando você fica insatisfeita, não se engane: o cliente também não vai gostar. 
Neste caso, o cliente não reclamou claramente mas eu senti que, pra ele, o vídeo não tinha alcançado o que poderia ser. Sabe quando não chega? Você deu o seu melhor mas algo ali na estrutura não tinha sido feita como deveria e, por isso, a alma do produto não se destacou. 
 
Fique arrasada e já bem conformada que, na próxima diária daquele projeto, eu não seria contratada de novo. Mas pra minha sorte, o cliente quis tentar outra vez. E aí meu amigo, eu mergulhei. Porque segundas chances não são o tipo de presente que você aceita e repete o erro. Quando alguém te dá uma segunda chance, você vai pra acertar e não pra tentar. 
E aqui, eu não estou falando de persistência. Estou falando de raiva mesmo. Raiva em entregar algo que a gente sabe que é capaz mas só precisa de uma mãozinha pra resolver. Uma raiva boa que se transforma em eu vou provar que sei fazer esse trem. 
 
E pra acertar desta vez, escrevi pra vários amigos da área mas ninguém soube me ajudar. Pois então, pesquisando no Youtube, encontrei um filmmaker brasileiro que mora na Indonésia e tem experiência no formato que eu procurava. Na cara de pau, perguntei se ele não toparia me dar uma consultoria online. Pra minha sorte, ele me respondeu e disse que, nos próximos dias, faria uma escala de voo em São Paulo, durante uma viagem com destino à Brasília. 
 - se você preferir, posso ir até sua produtora pessoalmente, no intervalo da escala, e te ensinar a mexer no equipamento. 
E qual a chance de um profissional de Bali estar no Brasil nos próximos dias e topar se deslocar pra ajudar uma desconhecida? 
- bora! 
Combinamos o dia, acertamos os detalhes, ele apareceu no meu escritório e, em 1 hora, me ensinou tudo o que eu precisava. 
- obrigada, sem palavras pela sua disponibilidade.  
 
Dei mais uma treinada e, na semana seguinte, fui pra segunda diária daquele projeto com toda minha vontade. Gravei usando os macetes aprendidos e, quando cheguei na ilha de edição, enchi os olhos de lágrimas ao ver um material final que me deu orgulho. 
E a frase lá de cima vale no seu inverso pra cá também. Quando você gosta muito do resultado de algo, é difícil o cliente não gostar. 
Desta vez, fiquei com o sentimento de missão cumprida no coração.
 
E, na verdade, tô contando isso tudo porque esse episódio me fez refletir sobre várias coisas. Fiquei pensando como é importante a gente não, necessariamente, julgar alguém pela primeira experiência que ela te entrega. Embora, pessoalmente pra mim, seja muito difícil pensar assim - já que eu sempre julgo os outros pela primeira impressão que me causam. 
Existe, inclusive, uma frase que eu gosto muito que diz: você jamais terá uma segunda chance de causar uma primeira impressão. 
 
Nesse caso, eu tive. Coisa rara, admito. Ponto para a generosidade e confiança do cliente. Não é sempre que te pagam pra fazer algo cujo melhor você não entregou de primeira. E isso me fez pensar em outra coisa. Se você recebeu uma segunda chance, faça valer. Mostre que os erros da primeira vez não vão se repetir, que agora você está mais preparado e que sua estrela vai brilhar.
 
A minha brilhou. 
Obrigada.
 
Já aconteceu de vocês aproveitarem bem uma segunda chance?
Estou curiosa pra saber :)
 
Fiquem bem <3 
 
E se você está chegando agora, pode ser que goste de ler também o 50º gole.
 
Um beijo,
Volto logo.
 
 
 
Um rascunho perdido
(textos meus escritos em algum lugar do passado) 
 
Esses dias, em um dos almoços lá do trabalho, falamos sobre algo que não o frio, o calor, o trânsito e a falta de tempo. O assunto foi os surdos e sua forma de comunicação em libras. Não me lembro exatamente o porquê isso começou, mas o papo tomou um sentido tão bom que estendemos a pausa na mesa por mais tempo.
Uma das amigas, que conhece bem a linguagem de sinais, comentou sobre quão precisos são os surdos quando querem falar.
Precisos, mas completos.
Se você diz a eles que colocou um copo na mesa, mas não desenha a mesa com as suas mãos, o copo simplesmente cai no chão.
Se eles se atrasam para um encontro, não vão explicar por 10 minutos os motivos que os levaram a não chegar no horário. 
Irão apenas dizer:  – desculpe-me, não consegui estar aqui mais cedo.
 
E como eles demonstram que sentem amor por uma pessoa? – perguntei a ela.
Fácil. Eles fazem um espécie de “c” com as mãos e o apertam bem na altura do coração.
 
Suficiente. Poderia ser assim com todos nós.
A gente fala demais.
 

Clara Vanali

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Sobre
 
Sou jornalista de formação, tenho uma produtora de vídeos como ocupação, mas aqui, nestes goles,  eu apenas escrevo. 
 Prazer, Clara Vanali ;)